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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Livro1: FASSADE Cap.9




Capítulo 9
Ein Neuer Anfang
(Um Novo Começo)

Sharon ouviu o barulho de pratos e talheres sendo postos a mesa e por um segundo pensou que pudesse estar em casa. Abriu os olhos lentamente e olhou a sua volta. Não fazia idéia de onde estava.
- finalmente acordou – disse uma voz de mulher a sua esquerda e Sharon deu um pulo se levantando em sobressalto.
- Calma menina, não vou te fazer mal – Sharon olhou para a mulher a sua frente. Era alta e magricela, devia ter uns 50 anos, talvez menos. Vestia-se muito mal, toda esfarrapada e o cabelo era louro amarelado todo desgrenhado. Usava um óculos muito grande.
- onde estou? – perguntou Sharon. Seu corpo todo doía.
- esta na floresta, na minha casa – disse a mulher sorrindo gentil para ela – venha, preparei algo para você comer, deve estar faminta. Dormiu a tarde toda.
A tarde toda? Por quanto tempo havia dormido?
- por que está me ajudando?
A mulher não olhou para Sharon. Colocou um pouco de sopa num prato e puxou um banco para que se sentasse.
- achei que precisasse de ajuda – disse ela enquanto se sentava e se servia – estava errada?
- não, mas.. – Sharon se sentou e pegou a colher, estava realmente faminta. – como me trouxe para cá?
- o alazão me ajudou – disse a mulher enquanto tomava sua sopa fazendo barulho.
- Schatten? – perguntou Sharon preocupada – onde ele está?
- o cavalão branco? Está amarrado lá fora, já dei água e o alimentei, não se preocupe.
Sharon suspirou. – Dunke chön
A mulher sorrio para ela e continuou comendo em silêncio.
- posso saber seu nome? – perguntou Sharon quando terminou de comer.
- talvez, se me disser o seu.
Sharon sorrio. Apreciava a companhia daquela mulher estranha.
- meu nome é Sharon.. – ela parou por um segundo lembrando-se do nome que lera no diário de seu pai. O nome de sua mãe. – Sharon Den Adel.
A mulher a olhou fixamente por um segundo – Demetra, só Demetra.
Sharon assentiu.
A mulher terminou de comer, se levantou e começou a recolher os pratos.
- posso ajudar? – pediu Sharon
- não com isso – disse Demetra – tenho que colher alguns legumes da minha horta. Pode me ajudar com isso?
Sharon assentiu embora não fizesse idéia de como fazê-lo.
A mulher lavou os pratos numa bacia d’água e então se virou para Sharon.
- você por acaso não tem uma trouxa de roupas escondida em algum lugar aí não é?
Sharon negou. Demetra suspirou.
- teremos que dar um jeito nisso.
A mulher foi até oque poderia ser seu quarto. Era difícil de dizer. Vivia em uma cabana feita com madeira. Cheia de badulacas e plantas e coisas que Sharon não sabia nomear. Voltou com um vestido marrom velho e desbotado.
- É tudo oque tenho que deve servir em você. Pela camisola que esta vestindo sei que é acostumada com tecidos caros, mas isso é tudo oque tenho.
Sharon pegou o vestido corando – Dunke.
 - venha – pediu Demetra quando Sharon tinha terminado de colocar o vestido
Sharon a seguiu para fora da cabana. E viu-se no meio da floresta escura. Mas não tinha nada de escura nela, era iluminada, verde. Linda.
- você mora aqui? – perguntou ela admirada – no meio da floresta?
Demetra assentiu e seguiu contornando a cabana. Sharon a seguiu até a horta onde havia muitos legumes e verduras plantados. Ao olhar percebeu que tinha mais hortas, espalhadas por toda a planície onde não havia arvores. Era como uma pequena campina.
Ao longe avistou Schatten. Correu até ele que relinchou quando a viu.
Sharon abraçou seu cavalo com força, ele era a única coisa de sua vida que ainda permanecia.
Passou alguns minutos ali parada ao lado de seu cavalo, lembrou-se do dia que o pai o dera a ela, era seu aniversário, ficara tão feliz, Uma lágrima caiu de seus olhos. Limpou-a rapidamente e foi surpreendida com um pequeno pássaro que sobrevoou ao seu lado pousando em seu braço.
- oque você está fazendo aqui? – perguntou Sharon ao pequeno rouxinol que havia adotado alguns dias atrás. – como me achou?
O pássaro assoviou para ela em resposta e bicou com carinho sua mão.
- você parece se dar muito bem com os animais, eles gostam de você – disse Demetra ao longe - isso é bom. Venha querida – chamou Demetra.
Sharon caminhou até a mulher e agachou-se ao lado dela imitando-a desajeitada enquanto recolhia alguns tomates e colocava-os numa cesta. O rouxinol agora repousava em seu ombro.
Demetra sorrio para ela – você não é acostumada com esse tipo de dever não é menina?
Sharon fez que não com a cabeça.
- diga-me oque uma moça como você está fazendo perdida na floresta? – Demetra continuava com os olhos em seu dever.
Sharon disfarçou a vergonha que sentia – como assim uma moça como eu?
- olha, eu sei reconhecer uma gran fina quando vejo uma.    
Sharon suspirou – eu estou fugindo.
Demetra a encarou preocupada – do que você está fugindo minha querida?
- do meu pai – disse Sharon sentindo as lágrimas se formando em seus olhos.
Demetra se sentou no chão largando a cesta e encarou Sharon.
- porque está fugindo do seu pai?
- se eu contasse você não acreditaria – disse Sharon ainda com os olhos nos tomates que colhia.
- experimente – pediu Demetra.
- é uma longa história.
Demetra sorrio para Sharon – como ele se chama?
- Tilo – respondeu ela e então suspirou. – Tilo Heiselmann – respondeu Sharon
Demetra se pôs em pé num sobressalto – como você disse?
Sharon também se levantou agora assustada com a reação da mulher a menção do nome de seu pai.
- qual o problema? – perguntou Sharon.
- você é a filha do Conde?
Sharon assentiu e alguma coisa, talvez o medo que via nos olhos da mulher, lhe dizia que a mulher sabia sobre seu pai. mas como seria possível? Ninguém sabia.
- ele está atrás de você? – perguntou Demetra – diga-me!
Ahn, eu não sei. Acho que não - mentiu Sharon sabendo que se dissesse a verdade. Que provavelmente o pai estava procurando-a, a mulher não a ajudaria mais, e não tinha para onde ir.
- tem certeza disso? – perguntou a mulher
- ele me deixou partir – disse Sharon tentando convencer a si mesma – ele não vai me procurar.
A mulher olhou para Sharon com receio – você é a filha de Evelyn não é?
Sharon assentiu.
- conheceu minha mãe? – perguntou Sharon surpresa
- Evelyn era minha filha – disse a mulher agora com lágrimas nos olhos.
                                                                          ***
 

Quando a noite caiu o Conde Heiselmann arrastou os corpos dos criados até a fronteira da florestas e ali os enterrara. Ninguém daria por falta deles. Eram criados, pobres, sem família. Ninguém se importaria.  Agora sentado em sua poltrona no imenso salão onde na noite anterior havia dançado com a filha, bebia uma dose de whisky e fumava um charuto. Beber e fumar eram os únicos prazeres humanos que lhe restara, nada mais era saciável a ele, mesmo o corpo de uma bela mulher não lhe era suficiente. Talvez fosse porque o único corpo que desejava era aquele que nunca chegou possuir. Fechou os olhos relembrando do rosto de sua Elizabeta.
Tão linda, tão pura. Ele nunca chegou tocá-la.
O castelo estava vazio e silencioso, estava feliz por não ter que aturar os barulhos dos criados. Não se arrependeu de matá-los sequer por um momento. Se não tinha mais sua filha, não tinha mais motivos para continuar fingindo que era humano.
Estava sozinho como sempre esteve desde que ganhara a imortalidade. Os anos ao lado de Sharon foram a única coisa capaz de iluminá-lo mas agora que se fora, nada restava.
Milhares de vezes naquele dia que acabara ele, sem conseguir dormir, amaldiçoou o sol e ainda assim o cobiçou. Desejara colocar um fim em sua existência mas não o fez. O sol era a única forma que conhecia de acabar com sua vida. Agora vislumbrando o salão vazio desejava ter a coragem necessária. Não havia mais razões e nem significados.
Sua mente ágil buscava soluções. Milhares de vezes quis procurar por Sharon. Seu coração de pai se perguntava onde estava, se estava bem, se estava abrigada. A noite estava particularmente fria, temia por sua saúde. Mas não o fez. Não suportava a idéia de vê-la olhá-lo de novo com aqueles olhos de ódio e medo. Sabia que a tinha perdido e que nunca mais voltaria a vê-la.
Tentou convencer-se de procurar pelos seus. Ele não era o único, embora não sabia se fora o primeiro. Havia mais como ele, embora todos os que encontrou durante seus séculos de vida eram muito diferentes dele. Criaturas irracionais que viviam a caça e a morte apenas. Sem pensamento ou sentimento. Se perguntou naquele momento se era naquilo que se tornaria se cedesse aos seus instintos como fizera na noite anterior. Matar era o único prazer que lhe restara.
Em fim decidiu que não poderia mais viver naquele castelo, não sem Sharon. E além do mais fazia décadas que desejava a Romênia e visitar o túmulo de Elizabeta. Se este ainda existir – pensou o conde pesaroso. Faziam quatrocentos anos desde que sua amada havia morrido, e nunca houve em todo esse tempo um dia em que não pensou em seu rosto ou sentiu falta de sua voz.  Por fim levantou-se e subiu as escadas se direcionando para seus aposentos, onde fez uma pequena mala com oque lhe era necessário. Desceu ao seu escritório e escreveu rapidamente uma carta ao tabelião de Berlin na qual dizia que precisara viajar por motivos pessoais e que não sabia quando voltava. Escreveu que tomaria conta de seus negócios a distancia e que ficaria agradecido se aquilo fosse mantido em segredo pelo maior tempo possível. Por fim lacrou a carta com seu selo e um grande T. H.
Tomou um banho, vestiu-se e estava descendo quando se permitiu ceder aos desejos de seu coração entrando no quarto de Sharon. O cheiro doce da filha exalava dos lençóis. Olhou para a cadeira ao lado da cama onde repousava o vestido que lhe dera na noite anterior. Era um vestido tão bonito, ela ficara tão linda dentro dele. Aproximou-se abaixando-se e permitiu levar o nariz até a saia do vestido cheirando o perfume de Sharon. Uma lágrima caiu dos seus olhos.
- oque você fez Sharon? – perguntou o conde ao quarto vazio.
Por fim suspirou levantando-se e foi até a penteadeira, ao encontrar oque buscava guardou-o no bolso e com um ultimo olhar para o quarto fechou a porta e desceu as escadas.
Pegando um casaco e seu chapéu atrás da porta saiu pelos fundos, se dirigiu ao celeiro, selou seu cavalo, amarrando com cuidado sua mala para que não se soltasse, montando-o partiu na noite sem olhar para trás se infiltrando na floresta.
A floresta era escura e sua presença ali deixava os animais inquietos. O próprio cavalo que montava não o obedecia perfeitamente tamanho seu medo. Não lhe era estranho essa reação, os animais reconheciam seus predadores, eram muito mais inteligentes do que os humanos.
Porém mesmo naquela escuridão seus olhos enxergavam perfeitamente bem os rastros deixados pelos cascos de Schatten, ele os seguiu.
Algum tempo depois, o conde se preocupou dando-se conta de que a filha havia se infiltrado demais na floresta e que poderia estar perdida. Apurou os ouvidos tentando ouvi-la mas nada escutou. Farejou-a como um predador, era mais fácil caçá-la agora que havia provado seu sangue, ele podia sentir seus instintos procurando pela presa. Mas o cheiro de Sharon era fraco e estava encoberto de alguma forma, como algum tipo de feitiço ele não conseguia dizer de onde o cheiro vinha.
Atiçando o cavalo ele mergulhou ainda mais na floresta, procurando, caçando a filha até que chegou a uma campina. Sabia exatamente que lugar era aquele e também sabia que não poderia atravessá-lo. Respirou profundamente sentindo o ar levar o cheiro de Sharon até seus pulmões. Sim, ela estava lá na velha cabana da maldita Wiccana.
Irado, atiçou o cavalo e correu para a cabana mas foi atingido por uma barreira invisível, o cavalo empinou relinchando, ele deu meia volta, tentou novamente, não conseguiu passar.
- verdammte hexe – gritou ele para a noite. Não conseguiria passar, aquela barreira era impenetrável. – Sharon verzeih mir – gritou o conde sabendo que a filha estava na maldita cabana e que podia ouvi-lo –  ich bitte tochter, Komm Zu Mir!
O som de sua voz ecoava na floresta mas não houve resposta. Ele sabia que ela não iria respondê-lo, por fim levou a mão ao bolso e pegou o medalhão que lhe dera no dia seguinte de seu nascimento, segurou-o com força.
- ich werde sie für die ewigkeit lieben – sussurrou o conde levando o medalhão a boca e beijando-o. O cavalo empinou novamente virando em volta, seus gritou havia assustado o animal, o conde suspirou e então lançou o medalhão com toda sua força. Com lágrimas no rosto o conde Heiselmann cavalgou pela floresta de volta a estrada, abandonando sua filha.
                                                                       ***

Sharon ainda tremia nos braços de sua avó. Seu coração lhe pregara muitas peças ao desejar correr para os braços de seu pai, mas teve medo, medo do que ele era.
- ele se foi – sussurrou ela para Demetra
- sim querida, ele se foi
Sharon se entregou as lágrimas, sabia de alguma forma que o pai havia partido e que não voltaria mais. Sabia que não o voltaria a vê-lo nunca mais e aquilo a enlouquecia.
- porque ele não veio se sabia que estou aqui?
- porque ele não pode atravessar a campina – disse-lhe a avó que mantinha Sharon em seus braços.
Sharon se desvencilhou dos braços de Demetra – preciso falar com ele – correu para fora da casa mas a avó a impediu.
- você não pode – disse Demetra pegando-a pelo braço – ele vai matá-la querida como fez com sua mãe.
- não, ele não vai – disse Sharon – ele poderia ter feito isso noite passada e não o fez, ele não vai me machucar – Sharon puxou o braço tentando se soltar
- não posso deixá-la ir – disse Demetra – acabei de encontrar você, não posso deixá-la ir com ele.
- ele é meu pai – gritou Sharon
- ele é um monstro, ele tentou te matar foi você mesma quem me disse
- eu preciso ao menos vê-lo mais uma vez – porém Sharon cedeu parando de lutar.
A noite estava fria e escura, tudo estava no mais completo silencio e por fim Sharon entendeu que não encontraria seu pai mesmo se quisesse. Ele já havia se perdido na noite.
- nunca mais voltarei a vê-lo – disse ela se sentando no chão – ele se foi
Demetra caminhou alguns metros para frente observando para ter certeza de que ele realmente havia desaparecido e foi então que viu algo brilhando na grama, abaixou-se e pegou um medalhão prateado.
- acho que isso é seu querida – disse Demetra entregando o medalhão nas mãos de Sharon.
Sharon encarou o medalhão e então o abriu, dentro dele havia um retrato seu de quando era apenas um bebê feito pelas próprias mãos do pai, ao lado gravado na prata a frase:
“ich werde sie für die ewigkeit lieben” – Eu te amarei para toda a eternidade – leu Sharon em voz alta – ele prometeu que me amaria e que me protegeria, ele prometeu.
Sharon colocou o medalhão em seu pescoço e se entregando as lágrimas envolveu-se com os braços para se proteger do frio, do medo e da dor.


                                                                     




Um comentário:

  1. Finalmente encontrei algo decente para ler,depois de tanto tempo ~
    continue,sim?

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