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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Livro 1: FASSADE Cap. 4




Capítulo 4
Erinnerung
(Lembranças)
                                                     


Os dedos do conde Heiselmann deslizavam pelas teclas do piano.
Cada nota tocada transparecia a sua dor. Ele não estava acostumado a se deixar levar por seus sentimentos, mas uma vez que as lembranças o inundavam não podia lutar contra elas.
Sua mente ágil vagava muito alem do castelo frio e silencioso que o cercava, vagava para uma época em que fora feliz, a séculos de distancia. Ele ainda se lembrava de como era sentir o sol sobre sua pele, ainda se lembrava do calor em seu coração.
Se lembrava da voz daquela que uma vez amou e que lhe fora tirada, ele se lembrava do nome dela mas jamais voltou a pronunciá-lo. Elizabeta. Fora a tantos anos atrás mas o rosto dela ainda sorria para ele toda vez que fechava os olhos e a dor preenchia cada lacuna de seu coração. E o silencio seguia a sua solidão.
Uma vez ele amou, ela era a mulher mais linda da Romênia, eram noivos, planejavam como seria a vida vivendo nas terras dos pais dela. Era pobre e humilde, nunca tivera dinheiro.
Ignorante e deslumbrado pela beleza dela. Sonhos construiu até que a doença veio e a levou para longe dele. Ele implorou a Deus que não a levasse mas não houve resposta.
Cego pelo ódio ele renunciou o céu e o paraíso, renunciou a Deus. Vendeu sua alma para o Diabo para  poder viver e reencontrá-la um dia. Mas a vida eterna que fora lhe dada custou sua humanidade, ele fora castigado a sede por sangue e assim viveu durante séculos, se alimentando dos vivos, com a cabeça pendurada, jogado a ruína e a dor da saudade que o torturava.
Os séculos se passaram, o camponês se tornou um conde, admirado pelas artes que o acercavam ele mesmo se tornou um artista, um músico, um professor. Um homem culto e inteligente, tinha todas as qualidades que um homem poderia desejar, tinha fortuna mas era solitário e perseguido pela solidão. Solidão de ferro que o acompanhava durante todas as noites de sua existência. Até que ela nasceu.
Sharon deu um novo significado a sua vida, aqueceu seu coração e por vinte anos nunca mais se sentiu sozinho até aquela noite.
As teclas do piano eram pressionadas incessantemente, a música que tocava retratava a dor que sentia e baixinho ele murmurava palavras de solidão e saudade.
- Outrora eu a desejei, outrora repetidas vezes – cantava o conde – mas eu não renunciaria essa dor, porque é tudo oque me restou dela.
                                                                            ***

 
Sharon acordou ao conhecido som do piano do pai que ressoava pelo castelo silencioso. O som geralmente a acalmava e aquecia seu coração mas não naquela noite.
As notas tocadas eram demasiadas melancólicas, uma canção que ela nunca havia ouvido o pai tocar. Inquieta se sentou na cama e esperou que a canção terminasse e que o pai tocasse algo mais alegre, mas a canção não tinha fim. Esperou pelo que pareceu muito tempo e a canção continuava enchendo seu coração de uma melancolia que nunca antes sentiu.
Sharon olhou pela janela dando conta de que ainda estava chovendo, levantou-se e aproximou-se do beiral, onde o rouxinol dormia profundamente. Trovejou violentamente lá fora e Sharon deu um pulo. Estava assustada por alguma razão desconhecida.
A música triste também era sombria. Sharon desejou que o pai parasse de tocá-la.
Suspirando vestiu um casaco e lentamente saiu do quarto. Enquanto andava pelo corredor infinito que levava até as escadas, Sharon se sentiu estranha, tinha medo.
Sua casa nunca lhe deu medo antes, as paredes de pedra rústica, os quadros de pessoas desconhecidas que ornamentavam as paredes, os imensos candelabros que iluminavam o castelo, as portas que rangiam, nada daquilo era assustador, no entanto naquela noite Sharon tremia. Deve ser a música, pensou ela.
Ao descer as escadas a música ficava mais alta, não era uma música feia, mas conservava uma escuridão e uma melancolia que era desconhecidos a ela, a sensação de ouvi-la era ruim e boa ao mesmo tempo e aquilo a assustava.
Atravessando o hall de entrada, Sharon se dirigiu ao salão e ao chegar à porta encontrou o pai entregue as teclas. Ele mantinha os olhos fechados. É claro, ele não precisa ver as teclas como eu, pensou Sharon irônica.
Ela ficou ali na porta por algum tempo admirando a beleza do pai e a grandiosidade com a qual ela se sentava ao piano e tocava seus sentimentos. Mesmo que naquele momento seus sentimentos a estivessem deixando com medo.
A música acabou e rapidamente outra começou. Conservava a mesma melancolia e a mesma atmosfera sombria, porém era mais alta, o conde violentava as teclas com seus dedos largos.
Sharon deu um passo para entrar no salão mas o pai começou a cantar.
Sua voz era austera, conservava um sentimento de ódio, medo e dor, muita dor.
- numa noite cheia de lágrimas – cantava o pai – oprimido num espelho,  com o vento soprando por entre salas vazias. A vida mudou, esqueceu suas lembranças aqui, para fora do tapete eu rastejo , me vendo pendurado no espelho. Morto, sem sangue e completamente arruinado.
Sharon cobriu a boca com as mãos. Estava assustada, nunca antes havia ouvido o pai cantar tais palavras. Tampouco podia acreditar que se sentisse realmente daquela forma.
Sempre acreditou que o pai fosse feliz ali ao lado dela.
Queria entrar no salão, sentar ao lado do pai e abraçá-lo mas algo a impedia. Queria ouvir mais, sabia que o pai jamais diria tais sentimentos a ela e portanto ouvi-lo cantar era a única forma de saber como ele realmente se sentia.
Se lembrava de uma vez quando pediu ao pai que lhe desse um diário.
- para que você quer um diário princesa? – perguntou ele confuso
- para escrever meus sentimentos – disse ela encabulada – sabe, segredos.
O pai sorriu para ela – sabe, acho que seria mais interessante se você não escondesse seus sentimentos em um diário.
- mas eu não tenho com quem conversar, eu não tenho amigos pai – resmungou Sharon.
- isso não é verdade, você tem a mim e pode me dizer qualquer coisa.
Sharon revirou os olhos – não é a mesma coisa.
O pai rio, e o som de seu riso era como sinos de vento tilintando.
- e porque você não canta seus sentimentos?
- oque? – perguntou Sharon sem entender
- sabe, as vezes quando estou triste, eu me sento ao piano e canto.
- mas pai você nunca fica triste – disse Sharon ao pai- você esta sempre sorrindo, ou bravo, mas nunca triste.
O pai sorrio – bom é uma idéia interessante essa que te dei, deveria pensar sobre o assunto.
Assim também estaria praticando.
Ele se levantou e saiu deixando Sharon sozinha a mesa pensativa.
Uma lágrima caiu dos olhos de Sharon com a lembrança.
Ele fica triste, pensou ela, ele só não demonstra.
As notas lentas agora ficaram mais altas e a voz do conde voltou a ressoar pelo castelo.
- Dos deuses eu desci para puxá-la para mim,  pedra antiga na noite escura no vale de lágrimas das almas. – a voz do conde parecia estar coberta de emoção agora – Eu a chamei, a ordenei, eu supliquei, mas sem olhar para mim você não me ouviu. Você não se lembra de mim com palavra alguma, você me puxou para baixo com você, e ainda bem mais fundo você me atirou, e ainda bem mais fundo você me atirou.
As lágrimas corriam soltas pelo rosto de Sharon, a canção foi morrendo
- Essa noite o vento avança por entre salas vazias – completava o conde – e o silencio, eu visto o silencio.
A música foi morrendo aos poucos e foi só quando o piano cessou que Sharon percebeu que seus pés teimosos a levaram para perto de seu pai.
O conde abriu os olhos e encarou Sharon que estava parada ao seu lado com o rosto coberto de lágrimas. No rosto do conde, Sharon conseguiu avistar uma única lágrima que escorria.
- Sharon oque está fazendo fora da cama? – perguntou o conde calmamente.
Sharon não respondeu, apenas continuou olhando para o pai que secou a lágrima do rosto rapidamente com as costas da mão.
- você estava falando da minha mãe? – perguntou Sharon com a voz rouca. – foi ela que machucou você assim?
                                                                        ***
O conde Heiselmann suspirou.
Como poderia explicar a filha os motivos que o levou a cantar aquela canção? Motivos esses que nada tinha a ver com a mulher que trouxe Sharon a vida.
- esta na hora de voltar para a cama – disse o conde pegando na mão de Sharon e a conduzindo com gentileza pelo salão.
Subiram as escadas e atravessaram o imenso corredor no mais completo silencio.
A mão de Sharon estava fria e seu coração batia incessantemente no peito.
O conde sabia que o medo, a duvida e a dor que a filha sentia agora eram culpa dele. Deveria ter percebido que a filha havia acordado, ao menos deveria ter percebido a ela estava lá parada ao seu lado. No entanto seus sentimentos sempre corrompiam seus sentidos e nada ouviu, nada sentiu além da própria dor que o consumia.
Isso não deveria ter acontecido, pensou o conde enquanto abria a porta do quarto da filha.
- deite-se – pediu para Sharon com ternura
- eu pensei que você nunca ficasse triste – disse a filha enquanto se deitava.
O pai puxou as cobertas para aquecê-la.
- Sharon todos ficamos tristes em algum momento – disse o pai se sentando na cama ao lado da filha – ninguém pode viver em uma nuvem de entusiasmo o tempo todo.
O conde passou os dedos pelo rosto de Sharon secando as lágrimas que ela derramava.
- você estava falando da minha mãe? – perguntou Sharon de novo
- não, eu não estava falando da sua mãe.
- então de quem você estava falando?
O conde suspirou - eu estava falando de uma mulher que eu conheci muito tempo antes de você nascer, antes de eu conhecer a sua mãe.
- você a amava?
- sim – respondeu ele acariciando os cabelos de Sharon
- oque aconteceu? – perguntou a filha
O conde fechou os olhos controlando seus sentimentos, não deveria falar de Elizabeta com Sharon, não deveria falar de seus sentimentos, não deveria atormentar a cabeça da filha com tristezas que ocorreram a séculos atrás.
- já faz muito tempo princesa – disse ele sorrindo – não importa mais
- mas você estava chorando – disse Sharon
- ela morreu Sharon – disse o conde suspirando
- ah – Sharon não disse mais nada
O conde continuou acariciando os cabelos da filha – durma agora – pediu ele.
- fique aqui comigo – pediu a filha. O conde sentia o coração de Sharon pesado em seu peito, sentia a confusão de sentimentos que a invadiam, e sabia que seus pensamentos deveriam estar confusos também, não podia deixá-la sozinha.
- claro que sim – respondeu ele
- cante para mim – pediu Sharon com a voz rouca, contendo o choro – como fazia quando eu era pequena.
- oque você quer que eu cante? – perguntou o conde
- seus sentimentos – respondeu ela
O conde fechou os olhos contendo a avalanche de sentimentos que estava prestes a atingi-lo.
E lentamente começou a murmurar palavras de amor a carinho aos ouvidos da filha.
- Querida, você se preocupa demais – cantava o conde – minha criança vejo tristeza em seus olhos. Você não esta sozinha nesta vida, como as vezes você pode pensar que está.

                       

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