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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Livro 1: FASSADE Cap.5



Capítulo 5
 Ein Regnerischer Tag
  (Um Dia Chuvoso)

Estava chovendo, pelo oque o conde Heiselmann ficou muito grato. As nuvens escuras e pesadas escondiam o sol e por conta disso podia andar livremente pela casa. Oque era uma dádiva visto que aquele dia seria tumultuado.
Finalmente chegara o dia do Baile que havia planejado com tanto carinho por conta do aniversário da filha. Ele rezaria para que tudo desse certo, mas não acreditava que Deus lhe ouviria sendo ele oque era, uma abominação da natureza, um assassino, um monstro.
No entanto talvez devesse pensar em pedir perdão, mas a idéia era ridícula. Afinal oque ele fez de errado para que Deus levasse sua amada Elizabeta? Não ele não pediria perdão pela escolha que o trouxe a vida que levava.
Se eu fosse pedir perdão seria pelo oque estou prestes a fazer, - escreveu o conde em seu diário.
Não era exatamente um livro pequeno. Fazia muitos anos que não escrevia naquele livro, desde que Sharon nasceu na verdade.  Desde então não sentia mais vontade de esconder seus sentimentos naquelas páginas, mas devido aos acontecimentos trágicos ocorrido à algumas noites, achou que seria melhor voltar aos velhos hábitos.
Trancado em seu escritório o conde podia ouvir perfeitamente o entre sai dos entregadores em sua casa, podia ouvir as faxineiras fofocando enquanto limpavam cada centímetro do salão de festas, podia ouvir a chuva que caia melancolicamente e os pássaros que piavam encurralados em algum galho dos enormes carvalhos que rodeavam o castelo.
Mas apenas um som era importante para ele. O riso de Sharon.
Ela estava a mais de uma hora trancada no quarto com a madame Straube e a criada Anna provando os inúmeros vestidos que o pai havia pedido para que a costureira fizesse para ela usar naquela data tão especial. No entanto ao que parecia Sharon estava tendo problemas em escolher um.
O conde sorrio e continuou rabiscando rapidamente em seu diário os planos para aquela noite.
Havia esperado vinte anos e finalmente o dia tinha chegado, se seu coração ainda batesse estaria pulsando violentamente, mas há muitos séculos ele estava adormecido.
Depois desta noite tudo vai mudar, - completou o conde fechando o diário e o guardando numa gaveta. Trancou-a e estava guardando a chave quando ouviu o barulho de algo quebrando. Irritado jogou a chave sobre a mesa e saiu do escritório.
                                                                              ***
- Sharon você precisa se decidir – apressou Anna inquieta – a sua professora de balé deve estar quase chegando.
Sharon olhou mais uma vez no espelho, o vestido branco que vestia era lindo, mas o azul também era, o verde também e todos os outros.
- vou ficar com esse – disse ela com um grande sorriso porém ainda em dúvida
- ótima escolha – disse a madame Straube – venha aqui para eu poder  terminar os ajustes.
A madame Straube era uma senhora de uns sessenta anos, era baixinha e tinha os cabelos grisalhos sempre preso num coque. Óculos pequenos contornavam seus olhos. Era a melhor costureira de Berlin.  Por aquele motivo o pai a havia escolhido para costurar para Sharon.
Uma batida na porta fez o coração de Sharon sair pela boca
- não deixe meu pai entrar – pediu a Anna – não quero que ele me veja antes da hora.
Anna assentiu e foi abrir a porta.
-  é a senhorita Krumm – disse Anna, seu tom era de advertência – ela esta meio atrasada senhorita Krumm.
A senhorita Krumm entrou no quarto de Sharon – se esse é o motivo então esta perdoada – disse a mulher loira sorrindo e se sentando no futton de Sharon, próximo a cama.
- Obrigada senhorita Krumm – agradeceu Sharon – já estou quase terminando.
- Sharon não seja mal educada – repreendeu Anna – você não vai apresentá-las?
Sharon rio alto – me desculpe. Madame Straube essa é a minha professora de balé, a senhorita Krumm. Senhorita Krumm, está é a melhor costureira do mundo, Madame Straube.
As duas sorriram e deram as mãos.
- então esta noite será o grande baile da senhorita Sharon Heiselmann – disse a senhorita Krumm – a cidade toda esta comentando.
Sharon sorrio reluzente enquanto despia o vestido que precisava ser passado para ser usado a noite.
- você virá não é? – pediu Sharon
- é claro, não perderia por nada nesse mundo.
- você também Madame Straube – pediu Sharon
A senhora Straube assentiu e então foi até a cama onde abriu uma caixa enorme.
- falta experimentar um Sharon – disse ela sorrindo e tirando o vestido da caixa.
- Mein Gott – Sharon deu um grito saltitando – porque não me mostrou esse antes?
- porque este vestido foi seu pai quem escolheu, ele será usado na hora da valsa.
Sharon olhou o vestido que Madame Straube segurava. Era branco, ou seria rosa?
Era lindo, com um corpete maravilhoso e a saia era rodada e farta, era imenso, lindo.
- ela esta sem palavras – disse a senhorita Krumm rindo – também, o vestido é deslumbrante.
- foi um desafio fazê-lo devo admitir – disse a Madame Straube rindo
- meu pai que escolheu esse vestido? – perguntou Sharon sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. – é tão lindo
A madame Straube sorrio – venha experimentá-lo
Sharon não conseguia pensar em mais nada enquanto a madame Straube amarrava os cordões do corpete do vestido. Quando se olhou no espelho se sentiu num sonho.
Aquele era com certeza o vestido mais lindo que já vira na vida. E era dela.
- ficou perfeito em você – disse Anna sorrindo feliz pela felicidade de Sharon – seu pai tem muito bom gosto.
- meu pai é o melhor pai do mundo – disse Sharon rodando na frente do espelho para ver o vestido em todos os ângulos possíveis.
Quando a Madame Straube convenceu Sharon a tirar o vestido para ser passado, Sharon se despediu  e junto com Anna e a senhorita Krumm foram para o salão de dança onde Sharon treinaria pelas próximas duas horas. Algo que sempre a irritou, pois nunca gostou de balé, mas não naquele dia. Hoje eu faço qualquer coisa pelo meu pai, pensou ela, qualquer coisa que ele quiser, eu farei por ele.
                                                                             ***
O conde Heiselmann estava faminto, não havia se alimentado suficientemente bem na noite passada e passara a manhã toda acordado cuidando dos preparativos do baile, se aborrecendo com criados estúpidos que não tinham cuidado com seus bens.
Sua garganta queimava, seus olhos ardiam por conta da sede e as presas se alongavam mesmo contra sua vontade.
Educado e disfarçando muito bem como sempre fizera. Terminou de experimentar as roupas que encomendara para usar naquela noite, se livrou do alfaiate, e se dirigiu as portas do fundo.
Precisava sair sem ser visto, não podia arriscar colocar tudo a perder. Não naquela dia.
Agradecido pelas nuvens que cobriam o sol naquele dia permitindo-o caminhar pelas ruas, vestiu um casaco e um chapéu e subiu em sua carruagem. Pediu que o cocheiro o levasse ao lugar de sempre. O homem seguiu as ordens como de costume , fora hipnotizado pelo conde á muitos anos para fazer tudo oque fosse ordenado. Desde então seguia suas ordens sem questionar.
Quando o conde entrou no bordel da madame Bender pelas portas do fundo, foi recebido muito bem pela anfitriã que, sempre muito bem paga, sabia exatamente oque o conde precisava.
Um quarto afastado dos outros, uma bela jovem e muita descrição.
- vou pedir que uma das meninas se dirija ao quarto mi lorde – disse madame Bender.
O conde sorrio simpático entregando uma bolsinha de couro nas mãos da mulher.
- considere isso como um bônus por sua incrível descrição – agradeceu o conde.
A velha mulher sorrindo abriu a bolsa e remexeu nas moedas de ouro – obrigado mi lorde.
Com um gesto com a cabeça a mulher indicou que o conde a seguisse.
Ele olhou para trás algumas vezes para se assegurar de que não estava sendo notado e então seguiu pelo corredor mal iluminado. Entrou pela porta do conhecido aposento e esperou.
Sua pele ardia agora também, era oque acontecia quando a fome se tornava muito forte.
Seus olhos estavam em brasa e a garganta seca protestava.
O conde tirou o chapéu e o casaco, lavou as mãos e olhou seu reflexo no espelho.
Os olhos estavam vermelhos, a pele sempre muito branca parecia ainda pálida.
Sorrio para sua aparência, nunca se considerou um homem bonito. Mas uma vez uma mulher o amou e naquela época não poderia ser pelo dinheiro, eu pelas influencias. Ele nada tinha.
Elizabeta o amava pelo que ele era.
- venha Tilo, vamos caminhar um pouco a manhã está linda – Elizabeta sorria para ele.
Era a mulher mais linda que já vira na vida. Era alta, possuía longos cabelos cacheados e negros, os olhos eram negros e misteriosos, a pele era bronzeada embora ela quase nunca ficasse ao sol.
- preciso ir trabalhar – disse ele apreensivo e ainda assim cedendo aos caprichos da amada
- nein, fique aqui comigo por mais alguns minutos – pediu ela o envolvendo com os braços
Ele sorrio – como quiser mein leben – ele tocou o rosto dela deslizando os dedos pelos lábios. Os lábios de Elizabeta o enlouquecia.
- Ich liebe dich, Tilo – disse ela e então o beijou docemente nos lábios.
 O conde Heiselmann afastou as lágrimas que ameaçavam cair por seus olhos.
Olhando no espelho viu seu rosto se tornar impassível, o ódio dominando-o.
Tudo oque eu mais amei na minha vida foi tirado de mim, pensou o conde, mas um dia eu a terei de volta. Eu esperei séculos por isso e esperarei milênios se for preciso.
A raiva aumentava sua fome, suas presas doíam.
Uma batida na porta o fez se virar, como um predador ele esperou em silencio. Quando a porta foi fechada ele atacou, pegando a jovem despercebida por trás, tapando sua boa e cravando os dentes em seu pescoço.
                                                                       ***

Sharon girava pelo salão de dança, fazendo piruetas e rindo. A senhorita Krumm tocava uma musica alegre no piano, a aula estava quase no fim e aquilo a deixava feliz. Estava cansada.
- acho que está bom por hoje – disse a senhorita Krumm terminando de tocar a ultima música – você precisa descansar para estar bem disponha a noite.
- só mais uma música – pediu Sharon sorrindo – quero tentar esse passo mais uma vez, vou mostrá-lo para meu pai essa noite, vai ser uma surpresa.
A senhorita Krumm sorrio e voltou a tocar o piano animadamente
Sharon voltou de onde parou, com as pontas dos dedos ela girava pela sala, se sentia livre e bonita quando dançava, mesmo que não gostasse da obrigação de ter que praticar, mas naquele dia estava muito feliz.
- que tal tentar o ultimo salto? – pediu a professora
Sharon sorrio, pegou impulso e com uma pirueta saltou no ar girando. Mas quando voltou os pés no chão, sentiu-o deslizar sob suas sapatilhas e caiu.
- Sharon – gritou a senhorita Krumm indo na direção de Sharon.
Sharon se sentia boba, havia batido a cabeça no chão – eu estou bem
- vamos eu ajudo você a levantar – a professora a segurou pelo braço e Sharon se levantou devagar.
- ai – gritou ela
- oque foi? – perguntou a senhorita Krumm preocupada
- meu pé – disse Sharon se desesperando – esta doendo muito, acho que quebrei meu pé.
- vou pedir ajuda – disse a senhorita Krumm saindo correndo do salão aos berros.
                                                                           ***

A jovem loira estava desfalecida sobre a cama como o conde Heiselmann sempre deixava as jovens que usava para se alimentar. O ferimento em seu pescoço se curaria rapidamente por conta do próprio sangue que ele esfregou sobre os furos das presas. Ela não se lembraria de nada, como nenhuma outra jamais lembrou.
O conde vestiu o casaco e o chapéu e então se retirou.
Estava entrando  em casa quando a criada Anna o abordou com olhos preocupantes
- oque aconteceu? – perguntou ele
- é a senhorita Sharon – disse Anna – ela caiu enquanto praticava com a senhorita Krumm e..
- onde ela esta? – perguntou o conde
- no quarto dela. Eu pedi que fossem chamar o doutor Fritz
Mas ele já não estava ouvindo. Subiu correndo pelas escadas e voou pelos corredores chegando ao quarto da filha.
Bateu na porta e a senhorita Krumm a abriu.
- como ela esta? – perguntou o conde tentando ser educado
- eu não posso afirmar, mas acho que ela quebrou o pé – disse a professora remorsiada.
- deixe-me a sós com ela – pediu o conde sorrindo com gentileza
A senhorita Krumm sorrio para Sharon e depois se retirou.
O conde fechou a porta e se sentou ao lado de Sharon na cama.
- mein prinzessin  oque houve? – perguntou ele carinhoso
- eu cai – Sharon estava afogada em lágrimas – não vou poder dançar no baile, eu estraguei tudo papa.
- shhhh, não chorei – pediu o conde puxando a filha para o seu colo – vai ficar tudo bem
- não, não vai – Sharon se agarrou ao pescoço do pai chorando
- shhhh, não chore mein liebe – pediu o pai – deixe-me ver
Sharon sentou-se na cama e colocou o pé ferido sobre o colo do pai.
Estava inchado e levemente arroxeado.
- não esta tão feio – disse o conde sorrindo para a filha – não esta quebrado.
- mas eu não vou poder dançar – disse Sharon reprimindo o choro
- olhe para mim – pediu o conde
Sharon olhou para o pai com olhos cheios de lágrimas
O  conde sorrio para a filha com ternura a tranqüilizando e então capturando seu olhar no dele incitou-a a se manter calma e em silencio. Quando Sharon estava  entregue aos poderes do pai, o conde com um gesto rápido das mãos colocou os ossos dos pés da filha no lugar. Sharon se contorceu de dor mas se manteve em silencio o olhar preso nos olhos do pai.  O conde acariciou o pé da filha por alguns minutos e quando teve certeza que a dor havia passado, sorrio para Sharon  a liberando de seu encanto.
- é claro que você vai dançar essa noite – disse o conde continuando a conversa normalmente
- e você será a dançarina mais linda daquele salão, sabe porque?
- porque? – perguntou Sharon, um leve sorriso brincando em seus lábios
- porque você é minha princesa – disse o conde abraçando a filha – meine tochter
Sharon abraçou o pai e então deu um grito – não esta mais doendo
- não? – o conde fingiu surpresa ao olhar o pé da filha
- não, eu estou bem – disse Sharon confusa – mas estava doendo dois segundos atrás
- talvez você estivesse assustada com a queda e estivesse exagerando um pouquinho – disse o conde sorrindo – oque importa é que você vai poder dançar esta noite, certo?
- aham , eu acho que vou me levantar – Sharon fez menção de se levantar e o conde a segurou na cama.
- nada disso – repreendeu ele – quero você descansando
Sharon sorrio – tudo bem – ela puxou o pai num abraço apertado – mein vater liebte
O conde riu e então se desvencilhando do abraço da filha, segurou seu rosto com as duas mãos.
- Sharon preciso que você saiba de uma coisa
- oque? – perguntou ela apreensiva
- você é a coisa mais importante na minha vida, eu não sou nada sem você
O conde suspirou – nunca se esqueça disso. Certo?
Sharon assentiu
- nunca me deixe tochter – pediu o conde - prometa para mim
- eu prometo – Sharon estava assustada com a intensidade das palavras do pai
- jure! – sussurrou o conde
- eu juro.






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