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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Livro 1: FASSADE Cap.2




Capítulo 2
Die Prinzessin
(A Princesa)


20 anos depois


- Srta Sharon fique quieta – pedia Anna, a adorável governanta e, mesmo que fosse vergonhoso dizer, babá de Sharon.
- você está me apertando demais – reclamou Sharon – como quer que eu fique quieta?
Anna rio baixinho e dando impulso puxou os dois lados do mariu do espartilho.
- ai – gritou Sharon
- não me culpe Srta – pediu Anna – sabe que seu pai não gosta de vela desarrumada
Sharon revirou os olhos e depois franziu o semblante.
- Anna você conheceu minha mãe? – perguntou ela curiosa
- não senhorita quando comecei a trabalhar aqui você tinha cerca de três dias de vida e sua mãe, como sabe..
- morreu no parto – completou Sharon suspirando – eu só queria saber mais sobre ela.
Anna terminou de amarrar o espartilho de Sharon e agora havia começado a escovar seus cabelos.
- por que não pergunta para seu pai? – perguntou a governanta
Sharon apoiou o queixo nas mãos – porque ele sempre fica bravo quando pergunto.
Anna ficou em silencio por um momento, medindo as palavras
- talvez ele sinta muito a falta dela por isso não gosta de falar sobre o assunto – Anna na verdade não acreditava naquilo, o Conde Heiselmann era um homem frio, assim todos diziam. Ele se quer havia ido ao enterro da Srta Evelyn.
No entanto quando se tratava de Sharon não se podia negar a devoção que o conde sentia pela filha.
- eu me sinto culpada as vezes – disse Sharon baixinho
- não diga isso, querida – Anna terminou de pentear os cabelos de Sharon – ninguém teve culpa, aconteceu.
- mas se eu não tivesse nascido..
- Shhh – interrompeu Anna – você é a coisa mais importante do mundo para seu pai,ele não poderia viver sem você. – Anna piscou para Sharon.
Sharon se levantou e se olhou no espelho. Não podia dizer que não estava bonita. O vestido novo que ganhou do pai era lindo, vinho e preto – as cores preferidas de seu pai. Embora o espartilho machucasse, deixava seu corpo muito bonito.
Anna jogou algumas mexas do cabelo de Sharon sobre seus ombros.
- você esta linda – disse ela.
Sharon sorrio enquanto admirava seu reflexo. Seu cabelo era liso na altura da cintura e preto. Contrastava com a cor de sua pele que era muito branca.
Os olhos castanhos, idênticos aos do pai lhe encaravam com ansiedade.

                                                                          ***

O conde Heiselmann podia ouvir cada palavra sussurrada do quarto de sua filha perfeitamente.
Porque ela persiste neste assunto? Perguntou-se o conde. Já passava das oito da manhã, estava cansado, tivera uma noite longa. E ainda estava faminto.
Porem não podia se retirar para seus aposentos tão cedo. As pessoas desconfiariam, e ele também precisava passar algum tempo com sua filha. O conde suspirou.
Não imaginava que ter uma filha humana seria tão difícil.
Manter uma fachada para os outros era uma coisa, mas esconder a verdade da própria filha era algo completamente diferente. Era exaustivo e terrivelmente doloroso.
O conde se levantou de sua cadeira e lentamente saio do escritório.
A claridade do dia, embora completamente encoberta pelas cortinas escuras que ordenara colocar em todas as janelas do castelo, machucava seus olhos e fazia sua pele arder.
- maldito sol - praguejou o conde.
Odiava sentir dor pois a dor o deixava faminto, no entanto por Sharon ele precisava passar horas acordado durante o dia, sentindo dor durante todo o tempo, oque significava que ele estava sempre faminto.
A fome nunca fora um problema para o conde. Oque nunca lhe faltou era mulheres dispostas a alimentá-lo, mesmo que isso significasse que ele tinha que apagar suas mentes depois.
No entanto era preciso evitar a convivência em longo prazo com um humano, o cheiro era convidativo demais e ele nem sempre podia se alimentar nos momentos que queria.
É obvio que a presença de Sharon mudou as coisas, pensou o conde irônico.
Ele agora temia por sua sanidade a cada vez que sua boca ressecava ao doce cheiro do sangue de sua filha.
Ao atravessar o salão para se dirigir a cozinha, ouviu os risos de Sharon escada acima. Seu coração, a séculos paralisado, sempre se aquecia ao ouvir aquele som. Lentamente um sorriso brincou em seus lábios e ele se esqueceu da ardência em sua pele, da dor em seus olhos e da fome que começava a queimar sua garganta. Jamais me perdoaria se a machucasse.
- Sr conde – cumprimentou Anna enquanto descia as escadas
O conde Heiselmann acenou para ela com um gesto de cabeça rápido e formal
- onde está Sharon? – perguntou
- ela já descerá – respondeu Anna que, com uma reverencia, se retirou.
A passagem de Anna deixou um cheiro doce no ar, sua garganta estava pegando fogo.
Lentamente sentiu suas presas se alongarem, trincou os dentes fechando as mãos em punhos e cerrando os olhos.
- papa – chamou Sharon enquanto descia a escada. Ela correu em sua direção e o agarrou passando os braços por seu pescoço e lhe dando um beijo no rosto.
O conde ficou paralisado, o cheiro de Sharon era um perfume proibido para ele. Prendeu a respiração  e tentando agir naturalmente, sorrio.
- meine prinzessin  – ele pegou em sua mão e a beijou delicadamente. – vinte anos, deixe-me ver você.
Sharon se afastou e deu uma voltinha radiante.
- estou do mesmo jeito que estava ontem – brincou Sharon rindo
O conde sorrio – não estava usando este vestido ontem
- gostou? – perguntou ela  segurando o vestido e fazendo uma reverencia para o pai.
- está linda – disse o conde se permitindo respirar – parece que você gostou dele.
Sharon sorrio – é lindo
O conde Heiselmann sorrio para a filha com alegria. Era estranho que aquela coisinha tão pequena, tão jovem e tão frágil tivesse tanto poder sobre ele.
Uma coisa não podia negar, Sharon mudou sua vida, transformou sua existência e lhe deu uma razão para seguir em frente, uma razão que não fosse sangue.
E quem diria que seria tão prazeroso? Perguntou-se o conde enquanto avaliava Sharon.
- papa porque seus olhos estão vermelhos? – perguntou Sharon tirando-o de seus devaneios.
O conde piscou algumas vezes disfarçando.
Ele não podia dizer a filha que a luz do dia machucava seus olhos, assim como não podia explicar exatamente porque não podia sair a luz do sol.
- não é nada querida, você sabe que  meus olhos são sensíveis a luz – ele sorrio para ela e ela então pegou em sua mão o puxando
- vamos tomar café juntos – pediu ela e foi arrastando-o para a cozinha.
O conde sorrio com o fato de Sharon acreditar tão facilmente em suas mentiras, era um bom mentiroso, não podia negar, as pessoas acreditavam e confiavam cegamente nele e nunca o questionavam pelas razões de não sair de casa a luz do dia, sempre acreditavam quando dizia que sofria de um tipo de doença rara, a qual não permitia que ele andasse a luz do sol. Oque não é ao todo mentira, pensou ele.
Sharon se sentou a cadeira a esquerda de seu pai, que se sentou a frente da mesa como sempre. Se mamãe estivesse viva ela estaria sentada aqui conosco, pensou Sharon com tristeza.
O conde Heiselmann sentiu a oscilação de humor de Sharon, e mesmo que desejasse perguntar a ela o porque não podia. Como explicar a ela que ele podia sentir cada sentimento que ela sentia, como se fosse os seus próprios?
- papa, posso fazer uma pergunta – perguntou Sharon enquanto era servida por duas criadas com leite, chá e algumas fatias de bolo.
O conde suspirou – é claro querida.
- por que você nunca fala da mamãe? – perguntou Sharon timidamente. Ela sabia que o pai sempre se irritava com aquele assunto, mas não podia evitar.
- Sharon eu já pedi que não tocasse nesse assunto – advertiu o conde.
Sharon franziu os lábios – eu só queria saber mais sobre ela, um retrato, qualquer coisa.
- stoppen! – o conde bateu com as mãos na mesa.
Sharon pulou em sua cadeira, assustada. Não era comum que o pai a tratasse daquela forma.
Ela o observou em silencio. O conde sabia que seu desejo era retirar-se da mesa, mas ela sabia que aquilo o irritaria e não gostava de vê-lo irritado.
- coma – pediu o conde ríspido para a filha enquanto dava uma garfada no pedaço de bolo que fora lhe servido por uma das criadas. Levou o pedaço a boca e como sempre teve que se controlar para não fazer uma careta. Lembrava-se de um tempo em que comer era um prazer, mas isso foi a muito tempo. Agora era um sacrifício que fazia pela filha.
Um dos muitos, pensou ele bebendo um gole de chá.
Sharon havia perdido a fome, não entendia porque seu pai se irritava tanto quando perguntava-lhe de sua mãe. Suspirou e então imitando o pai pegou um pedaço do bolo e levou até a boca.
- talheres Sharon – repreendeu o conde.
Sharon pegou o garfo e continuou comendo em silencio sem o menor apetite.
O conde Heiselmann suspirou. Odiava machucar a filha, mas não queria que Sharon conhecesse a mãe, não queria se quer que ela soubesse o nome da mulher. Não havia sentido em revirar o passado. Sharon era sua filha, apenas dele.
- depois que terminar seu café – disse o conde se levantando ao acabar de comer – vá para o salão, você tem muito oque aprender hoje. – o conde se retirou a deixando sozinha com seus pensamentos.
O conde sentia as lágrimas rolarem pelo rosto de Sharon enquanto se afastava, ele sentia cada sentimento oculto em seu coração. Sharon as secou rapidamente com a mão e então o conde pode ler nitidamente seus pensamentos, ao que sempre tentava evitar.
Um dia ele terá que me contar, eu farei ele me contar. Prometeu Sharon a si mesma.
Suspirando o conde seguiu seu caminho até o salão.

                                                                            ***
Sharon seguiu lentamente para o salão. Seus pensamentos estavam vagando em algum lugar bem longe das notas musicas que seu pai fazia tanta questão que aprendesse. Queria saber sobre sua mãe, não era pedir muito. Mas sabia que não deveria dizer mais nada sobre aquele assunto para o pai. Suspirou frustrada.
O som magnífico do piano de seu pai começou a soar, conforme se aproximava do salão. Fechou os olhos se perguntando como seu pai podia tocar tão maravilhosamente bem.
Já havia visto muitos concertos musicas de grandes mestres da musica, mas nenhum tocava tão bem quanto seu pai. Sentiu uma pontada de orgulho.
Não há nada que meu pai não saiba fazer, pensou sorrindo mas o sorriso logo se desmanchou quando se deu conta de que aquilo não era tão bom quanto queria que fosse.
Seu pai  era perfeccionista e como tal exigia dela perfeição e a repreendia sempre que cometia erros e a castigava com horas e horas de prática.
Eu nunca tocarei como ele, refletiu amargamente.
E não era apenas o piano que a assombrava, era o órgão, a harpa. Sharon perdera as contas de quantos instrumentos o pai sabia tocar. Era injusto que ele esperasse que ela também soubesse.
Ah e ainda tem o canto, Sharon suspirou.
O conde Heiselmann além de tocar perfeitamente cada instrumento que Sharon conhecia, também cantava perfeitamente. Sua voz era encantadora.
Sharon se escorou na parede se prendendo aquele pensamento antes de entrar no salão. O piano tocava lindamente em seus ouvidos. Lembrava-se de todas as vezes antes de dormir em que tinha medo e seu pai então a envolvia nos braços e cantava até que dormisse.  Era como ser ninada por um anjo, mas as vezes aquele anjo também a amedrontava.
Sharon suspirou pesadamente e entrou no salão.
Seu pai estava sentado ao piano, absorto na musica que tocava. O salão estava, como sempre, mergulhado na escuridão. Sharon nunca gostou do fato de seu pai manter todas as janelas e portas fechadas e encobertas por cortinas. Cortinas pretas e vinho, refletiu ela irônica.
No entanto sabia que tudo se dava por causa dos problemas que o pai tinha com o sol.
Deve ser tão ruim para ele não poder apreciar o sol. Sharon se sentiu mal pelo pai; a seu ver não existia nada mais bonito do que o sol.
Andando lentamente até seu pai, Sharon se permitiu admirá-lo.
Era um homem bonito. Aquilo não era novidade para ela, tinha a impressão de que todas as mulheres da cidade o admiravam e aquilo a enchia de ciúmes. Sentia-se feliz pelo pai nunca ter se casado novamente, mas ao mesmo tempo se perguntava por quê.
O conde Heiselmann era um homem de  uns 40 anos, alto, magro, com cabelos compridos até a altura dos cotovelos mantidos sempre presos num rabo de cavalo Eram pretos, exceto por uma mecha loura quase branca no topo da cabeça.
Sempre se vestia elegantemente e era com certeza o homem mais culto e inteligente de toda a cidade. E ele quer que eu seja como ele, Sharon se sentiu amargurada. Eu nunca serei igual ele.

                                                                          ***

- Sharon você precisa sentir a musica – disse o conde suspirando. Mas ele não esta mais irritado, refletiu Sharon.
- eu estou tentando – disse ela enquanto deslizava os dedos pelas teclas do lindo piano de calda preto que ficava centralizado no enorme salão de pedra rústica.
O conde rio enquanto observava a filha lutar contra as teclas que para ele eram tão conhecidas e convidativas.
- eu nunca vou tocar como você, papa – resmungou Sharon
- nunca significa muito tempo querida – o conde a repreendeu – garanto que não demorará tanto. Você já está indo muito bem.
Sharon continuou a sua luta diária com o piano que depois se tornou em sua luta diária com o órgão e depois o pai a obrigou cantar o réquiem de Mozart inteirinho duas vezes, sempre a repreendendo quando sua voz caía algumas oitavas ou subia alguns tons fora da partitura.
Mas ao todo não era ruim, a verdade era que Sharon adorava passar as manhas com o pai, mesmo que ele fosse autoritário, ele era a única família que ela tinha, ele era tudo oque ela conhecia. Os familiares de seu pai foram todos mortos na guerra, assim ele havia lhe contado, então os dois eram as suas únicas família.
                                                                           ***

Os olhos do conde Heiselmann estavam doendo muito quando ele finalmente se despediu da filha com o pretexto de que iria trabalhar em seu escritório. Sua garganta queimava mas ele teria que ignorar a sede até a chegada da noite.
O conde entrou em seu escritório e se dirigiu até a prateleira de livros onde secretamente existia uma alavanca que abria uma porta do outro lado da sala, uma porta secreta que levava ao subsolo.
Trancando a porta do escritório, o conde se dirigiu até a porta secreta e se trancou do lado de dentro. Era escuro e a escuridão aos poucos foi acalmando seus olhos. Podia enxergar tudo perfeitamente no escuro, era confortável.
Se dirigiu ao enorme caixão preto que jazia no chão e ali se deitou. Puxando a tampa se prendeu as sombras e conforto que ele lhe proporcionava e se permitiu descansar.









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