Capítulo 2
Sehnsucht
(Saudade)
Sharon entrou pela porta do velho restaurante onde começara a trabalhar faziam duas semanas. Era um restaurante pobre, afastado da parte nobre da cidade, e a cidade era muito grande, ninguém sabia quem ela realmente era ali, por isso o emprego lhe fora tão atraente assim como todos os outros no passado. Não podia viver por muito tempo no mesmo lugar, nem trabalhar por muito tempo no mesmo estabelecimento, pois tinha medo que alguém notasse que os anos passavam por ela sem deixar marcas. Mas no entanto se perguntava se alguém realmente a via naqueles lugares. Limpava o chão, limpava as mesas, servia pratos e bebidas e lavava as louças. Quem notaria alguém como ela? Tão mal vestida, tão mal arrumada? Ela mesma não se reconhecia mais, não era nem a sombra da Sharon que foi um dia. Aquela que um dia fora chamada de princesa e amada incondicionalmente.
O mundo não era mais o mesmo para Sharon e de alguma forma ele continuava o mesmo para todas as pessoas a sua volta. Sua vida era aquela, embora mudasse de casa, de trabalho com freqüência, nada nunca realmente mudava.
No entanto naquela manha algo estava diferente, talvez fosse apenas o seu estado de espírito mas algo estava faltando dentro dela, talvez fosse a força de vontade de continuar, estava perdida, sem rumo e completamente sozinha. Desde que sua avó havia morrido, Sharon tinha estado sozinha, por sua própria conta e risco e aquilo a machucava todos os dias.
Engolindo a bile que lhe subia pela garganta e tentando abafar a dor que queimava em seu peito, Sharon adentrou no restaurante e se deparou com uma cena completamente nova,
o Sr Adalbert, seu patrão estava recebendo um grupo de entregadores que acabavam de posicionar um velho piano no centro do salão de jantar entre as mesas.
- Srta Den Adel – chamou o Sr Adalbert – olha que beleza que acabei de comprar – disse o velho homem animado. – vai atrair muitos clientes.
Sharon tentou sorrir mas a verdade é que a imagem daquele piano em sua frente havia cortado seu coração em mil pedaços. Automaticamente se lembrou das centenas de vezes em que sentou-se ao piano e tocou com seu pai. Tantas noites e dias perfeitos de eterna felicidade.
- Srta Den Adel – chamou o Sr Adalbert – você esta bem? – perguntou o homem.
Sharon sorrio lutando contra as lembranças – estou bem, só estou cansada.
- mas o dia acabou de começar – disse o velho sorrindo animador – coma alguma coisa, vai se sentir melhor.
Sharon se retirou para a cozinha em passos largos e quando se encontrou sozinha apertou os braços contra o peito e se permitiu chorar.
- Warum? – se perguntou ela – porque não consigo te esquecer, papa?
A lembrança do rosto bonito do pai a torturava por trás dos olhos fechados, era como ferro em brasa queimando cada pedaço do seu coração.
- mein herz brennt – sussurrou ela por entre as lagrimas – não posso mais viver assim, ich Kann nicht!
- Sharon - chamou Katrina, a jovem filha do senhor Adalbert – Sharon porque esta chorando? Oque aconteceu? – a moça se aproximou de Sharon preocupada. Era uma garota simpática, desde a primeira vez que se conheceram se deram muito bem.
- eu estou bem – disse Sharon limpando as lagrimas
- não esta não, você esta chorando – disse Katrina ainda preocupada.
Sharon sorrio forçadamente, era estranho que uma garota de 20 anos a estivesse consolando, mas é claro que para os outros Sharon tinha a mesma idade de Katrina.
- você viu o piano que meu pai comprou? É tão lindo – disse a jovem tentando animá-la – eu queria muito saber tocar.
Sharon a encarou por alguns segundos e depois sorrio, não sabia oque dizer.
- meu pai disse que vai contratar alguém para tocar nas noites de sábado, vai ser tão perfeito!
- eu posso tocar – disse Sharon subitamente sem pensar
Katrina a olhou como se duvidasse de sua capacidade – você sabe?
- um pouco – disse Sharon – faz muito tempo que não toco, mas adoraria tentar.
Katrina sorrio – se eu pedir para meu pai deixá-la tocar, você me ensina?
Sharon concordou, não sabia oque estava fazendo, mas a verdade era que o piano a chamava, ela precisava tocar em suas teclas. Uma parte de seu coração lhe disse baixinho que oque realmente queria era voltar a ouvir aquelas velhas musicas que o pai a ensinara tão bem.
***
Era sábado e o restaurante do Sr Adalbert estava lotado como de costume.
Sharon acabara de servir algumas mesas e agora se preparava para sentar ao piano.
Convencera facilmente o Sr Adalbert a deixá-la tocar e o fascinou saber que podia cantar também.
Sharon sentou ao piano e ninguém se quer a notou ali, seus dedos tremiam quando repousou-os pelas teclas gastas do piano velho, o som ecoou pelo salão e todos olharam para ela.
Seu coração pulsou fortemente no peito quando começou tocar as conhecidas notas de uma canção que o pai lhe ensinara.
- você não precisa apertar as teclas com tanta força – censurou o pai sorrindo em algum canto da memória de Sharon, em uma lembrança distante.– só precisa deixar a melodia fluir por entre seus dedos princesa. A musica não deve ser um trabalho árduo e sim um singelo prazer.
Sharon tentou novamente e então a musica fluiu, era linda.
- eu a compus para você, mein prinzessin – disse o pai em seu ouvido – ela se chama
Küssen Den Regen, deixe-a fluir por seus dedos como a água da chuva que cai lentamente.
Lágrimas escorriam pelo rosto de Sharon enquanto tocava no velho restaurante do Sr Adalbert, as lembranças a invadiam uma por uma, dias de ternura, de felicidade extrema.
E a saudade era doentia, uma saudade tão grande quanto se podia imaginar.
Sharon nunca havia realmente conseguido perdoar o pai por tudo oque fizera a ela, mas de alguma forma com o passar dos anos, o ódio se tornara menor do que a saudade que sentia, saudade de todos aqueles dias bonitos, de todos aqueles momentos, dos abraços e beijos do pai.
Papa, ich liebe dich immer noch, pensou Sharon entre as lágrimas enquanto a musica morria lentamente em seus dedos.
Todos aplaudiram Sharon quando terminara de tocar, a trazendo de volta a realidade de onde estava. Ela agradeceu brevemente com um sorriso e voltou ao piano, não sabia oque tocar, então deixou apenas seus dedos correrem pelo teclado, e lentamente uma melodia fora se formando e junto com a melodia palavras veio a sua mente, palavras aquelas que precisavam ser ditas, mas não tinha ninguém para ouvir. Lembrando do que seu pai havia dito a anos atrás, Sharon se permitiu cantar seus sentimentos.
- Neste mundo você tentou não me deixar para trás sozinha. Não há outro jeito, eu rezei para os deuses deixarem você ficar. As lembranças amenizam a dor aqui dentro, agora eu sei porque. Todas as minhas lembranças mantém você próximo, em momentos silenciosos imagino você aqui. Todas as minhas lembranças mantém você próximo, seus sussurros silêncios, suas lágrimas silenciosas. – Sharon cantava palavras tristes que a anos assombravam seu coração, não sabia ao certo a quanto tempo elas estavam presas em sua cabeça, mas agora elas fluíam por seus lábios em tristes sentenças melódicas.
- Me fez prometer que eu tentaria encontrar meu caminho de volta nessa vida. Eu espero que você encontre um meio de me dar um sinal de que esta bem. Me recordo novamente esse é o valor de tudo, então posso continuar seguindo.
- Juntos em todas essas lembranças eu vejo o seu sorriso, todas as lembranças eu guardei tão bem, querido você sabe que eu te amarei até o fim dos tempos. – a melodia morreu lentamente, e junto com os aplausos que se seguiram morreu também qualquer fio de esperança que Sharon poderia ter em esquecer ou parar aquela dor.
Ela estaria para sempre ali, até o fim dos tempos.
***
- minha família sempre foi pobre, camponeses. – a voz de Anne estava tremula, cheia de emoção. Não conseguia entender porque estava contando aquilo para aquele homem desconhecido, mas de alguma forma, e ela não sabia porque, sentia que podia confiar nele.
– Na Finlândia as coisas são diferentes daqui, mais difíceis. Não tínhamos dinheiro, não tínhamos comida as vezes e meu pai, ele bebia muito, nunca cuidou da família. Eu trabalhava na mansão dos Virtanen, eram uma família muito rica. Minha mãe era velha, doente. Eu sustentava a casa com oque ganhava e não era muito.
- não tinha irmãos? – perguntou Tilo. Ele se mantinha em silencio sentado na poltrona perto da lareira, a noite caía lá fora. A terceira noite que passava naquele castelo, com aquele homem.
Ele apenas a observava, interessado em sua historia.
- não, apenas eu.
- continue – pediu ele incitando-a a continuar.
- havia um velho banqueiro na cidade, ele era novo no negócio, mas era muito rico. Não me lembro do nome dele, mas ainda me lembro do seu rosto, ele tinha um cheiro ruim.
- e porque se lembra do cheiro desse homem?
- porque meu pai concedeu a ele minha mãe em casamento e ele me fazia a corte. – os olhos de Anne endureceram, tinha ódio do pai, e se lembrar só fazia o ódio aumentar. – meu pai viu uma possibilidade de se livrar da pobreza, não importava para ele se aquilo custava a minha felicidade. Eu tinha 16 anos.
Tilo permaneceu em silencio, sem nada dizer.
- eu não conseguia aceitar meu destino. E além de tudo estava apaixonada. Apaixonada pelo filho dos Virtanen, seu nome era Ville. Ele havia me prometido que me salvaria do meu terrível destino e eu acreditei nele. Eu.. – Anne sentiu seu rosto corar.
- não precisa me dizer mais do que deseja, não deve nada a mim – Tilo se aproximou e pegou em sua mão. Sorrio para ela.
- Eu me entreguei a ele – Anne suspirou, sabia que não era o tipo de coisa que devia dizer a um homem, ainda mais um homem desconhecido, mas não tinha reputação alguma que precisasse ser mantida mesmo. – ele disse que se casaria comigo, mas os pais dele não aceitaram que seu filho tão bem educado se casa-se com uma criada. Ele não teve forças para lutar contra os pais e então me deixou.
Anne sentiu a dor voltar ao seu peito ao recordar todas aquelas lembranças, todos aqueles momentos, os bons e os ruins, que passou o resto de sua vida tentando esquecer.
- desiludida, enganada, abandonada. Tudo oque me restava era aceitar me casar com o banqueiro. E eu me casei com ele. Mas quando ele descobriu que eu não era mais .. – Anne não terminou a frase, seu rosto estava quente.
- entendo – disse Tilo apenas. Ele era muito cavalheiro, Anne o admirava.
- bem, ele me devolveu para meus pais, obrigando meu pai a devolver o dinheiro que tinha lhe dado como dote. Meu pai enfurecido e envergonhado me jogou na rua.
Os olhos de Anne se encheram de lágrimas. - Eu não tinha para onde ir, eu estava perdida.
Foi quando conheci Laurentiu, ele era simpático, me acolheu e me disse que tinha um trabalho para mim fora da Finlândia, onde eu poderia começar de novo, ninguém saberia meu nome. E então ele me trouxe para a Romênia.
- a quanto tempo exatamente foi isso? – perguntou Tilo, ele mantinha a mão de Anne acolhida entre as suas. Ele tinha mãos frias.
- foi a 13 anos – respondeu Anne. - É claro que as coisas não eram oque pareciam. Quando cheguei aqui Laurentiu me jogou numa masmorra de um velho castelo junto com outras garotas e me obrigou a trabalhar para ele.
- trabalhar como?
- servindo homens – as lagrimas caiam dos olhos de Anne livremente, estava envergonhada.
***
O ódio dominou cada centímetro do ser do conde Heiselmann ao ouvir aquele história. Se perguntava como um homem seria capaz de fazer algo tão terrível com uma jovem tão bonita.
Ele tapou os olhos com as mãos e respirou profundamente algumas vezes para se acalmar.
- vou entender se não me quiser aqui em sua casa – disse Anne – eu posso ir embora..
- oque esta dizendo? – o conde Heiselmann a olhou fixamente nos olhos – eu não seria mais do que esses homens terríveis de sua historia infeliz se a expulsasse de minha casa por um pecado que nunca quis cometer.
Anne o olhou com seus olhos azuis esverdeados com veneração. Só duas mulheres em toda sua existência o olhara assim. Elizabeta e Sharon.
- você passou todos esses 13 anos presa?
Anne assentiu
- como conseguiu fugir?
- eu .. – Anne ficou em silencio
- shau mich an - pediu o conde Heiselmann, Anne o olhou nos olhos – conte-me
- eu seduzi Laurentiu, fiz ele acreditar que eu o amava e passei a dormir apenas com ele. Uma noite quando estava dormindo eu roubei suas chaves e fugi.
O conde Heiselmann não podia acreditar na inteligência e coragem daquela mulher.
- a quanto tempo você fugiu?
- essa noite faz 3 dias. – Anne o olhou com olhos de gratidão – você me acolheu, e eu sei que ninguém me acolheria se soubessem oque eu sou. Dunke Chön.
O conde Heiselmann segurou as mãos de Anne e num movimento rápido, a puxou para seus braços e a abraçou carinhosamente.
- não se envergonhe minha querida – disse ele em seu ouvido – você é uma guerreira.
***
- é muito difícil – queixava-se Katrina para Sharon enquanto lutava contra as teclas do velho piano. Já passavam das seis da tarde, o sol estava se pondo. O restaurante estava fechado, e assim ficaria naquela noite de domingo, pois o pai de Katrina, Sr Adalbert, não estava se sentindo muito bem.
- não é tão difícil quanto parece – disse Sharon se permitindo rir da carranca de Katrina. Era uma garota muito bonita, loura de olhos azuis, vestida sempre muito bem com seus vestidos, que mesmo sendo de tecido barato, eram muito bem feitos.
Com o passar do tempo Sharon teve que se acostumar com roupas de segunda mão, nada de talheres de prata ou ouro, nada de grandes castelos com lindos candelabros. A vida mudou drasticamente mas quando parava para pensar, não sentia tanta falta dessas coisas.
- como você aprendeu a tocar e cantar tão bem? – Katrina agora já não prestava mais atenção nas lições de Sharon, estava especulando.
- meu pai me ensinou – Sharon sentiu as palavras vacilarem por entre seus lábios.
- e onde ele está?
- que tal voltarmos ao piano? – disse Sharon tentando mudar de assunto.
- Nein! – Katrina fez uma careta – eu nunca vou aprender tocar isso.
- foi a sua primeira tentativa! Precisa continuar tentando. – Sharon sorrio para a menina de cachos loiros.
- porque não aproveitamos que meu pai não vai abrir o restaurante para sairmos? – sugeriu Katrina travessa – tem um circo na cidade, dizem que é legal.
- e onde vamos arrumar dinheiro para irmos no circo? – perguntou Sharon desconfiada
- bem, eu tenho as gorjetas que ganhei ontem a noite e você tem oque meu pai te deu por cantar – Katrina sorrio para ela com olhinhos pidões – ich bitte!
- seu pai não vai querer que você saia a noite
- não estou sozinha, estou com você – Katrina se levantou e correu pelo salão – vou trocar de roupa.
Sharon suspirou derrotada. Afinal, talvez não fosse tão ruim sair um pouco.
Precisava esclarecer as idéias, parar de se lamentar tanto. Aproveitar a vida, que ao que parecia, não teria um fim tão cedo.
Katrina voltou dez minutos depois toda arrumada e cheirando a perfume de rosas.
- você vai assim? – perguntou ela para Sharon
Sharon deu de ombros se permitindo olhar para si mesma. O vestido creme que usava era simples, mas pelo menos estava limpo. Os cabelos escuros estavam como sempre lambidos e presos com uma fita.
- tudo bem, você esta linda – disse Katrina enciumada – você esta sempre linda, quer me contar seu segredo?
- não tenho segredo – disse ela sem graça. Oque mais tinha na vida era segredos.
As duas saíram pelas portas dos fundos e se dirigiam pelas ruas.
Berlin era uma cidade grande. Dividida entre classes sociais, claro que antes Sharon não enxergava isso, mas agora era possível ver a distinção perfeitamente. O bairro onde morava e onde ficava seu trabalho era humilde, com pessoas humildes. As ruas eram feias, cheias de becos e era impossível não enxergar que era repleta de marginais.
O sol estava se ponto a oeste, a noite estava fria, Sharon se arrependeu de não pegar um casaco e pela cara de Katrina sabia que pensava o mesmo.
Andaram varias quadras até que pudesse ouvir o som que vinha do circo, pessoas rindo, vendedores, crianças gritando.
Se aproximaram, compraram duas entradas e entraram.
Era um grande barracão de lonas coloridas, iluminados por alguns candelabros velhos e castiçais. Havia vendedores por todos os lados. Katrina comprou uma maça do amor e então se dirigiram até as cadeiras. O espetáculo logo começaria.
Sharon estava inquieta. De repente algo dentro dela dizia que não deveria estar ali.
Geralmente tentava ignorar essas sensações, não era normal sentir tais sentimentos e o pior é que se lembrava que a avó uma vez lhe disse que se sentia assim por causa do que era.
Mas Sharon não aceitava se ver como aquilo que sua avó fora, não era uma bruxa.
Sempre ignorou esses sentimentos, essas premonições. Mas naquela noite, de repente se tornou mais forte, era quase insuportável.
- acho que devíamos ir embora – disse ela a Katrina
- oque? Acabamos de chegar – reclamou Katrina infeliz – eu quero ver o Arlequim.
- quem? – perguntou Sharon tentando se acalmar
- não conhece a história do Arlequim? Katrina a olhou surpresa
- Nein – Sharon suspirou tentando manter a calma. – conte-me
- bem dizem que ele é um homem muito, muito triste que trabalha no circo, ele se veste como um palhaço e faz as pessoas rirem, mas na verdade ele está sempre chorando por de trás da máscara. Ele toca violino todas as noites, uma velha musica que uma vez ele compôs para seu amor perdido esperando que talvez um dia ela o escute tocar e o encontre.
Sharon pensou por um instante – ela morreu?
- dizem que sim – Katrina sorrio – não é uma história de amor linda?
Sharon automaticamente se recordou do pai cantando para o grande amor de sua vida que morrera. – não é bonito, é triste.
- senhoras e senhores – o apresentador do espetáculo chamou a atenção dos espectadores. – daremos inicio a mais um espetáculo. Sejam bem vindos.
***
- ah ele é tão perfeito – Katrina estava encantada com o tal Arlequim.
Sharon por outro lado não estava nenhum pouco impressionada, não era perfeito, era deprimente. Um homem que dedicava a sua vida a fazer as pessoas rirem quando na verdade estava desmoronando por dentro.
- você não gostou do espetáculo – acusou Katrina
- só estou cansada – disse Sharon tentando disfarçar.
Elas andaram pelas ruas em direção ao restaurante.
Quando chegaram Sharon se despediu de Katrina.
- tem certeza que não quer passar a noite aqui? Já esta tão tarde.
- não, esta tudo bem – Sharon se despediu e saiu.
As ruas agora estavam desertas, já passavam das nove da noite, e isso naquele parte da cidade, não era horas de andar sozinha pelas ruas. Mas Sharon não se importava.
Andava lentamente, a cabeça longe. Ver o tal arlequim fez com que pensasse em seu pai de alguma forma. As historias eram parecidas. Mesmo que seu pai estivesse infeliz, ele dedicou parte de sua vida à fazer Sharon sorrir, e por muito tempo foi assim.
No fim fui eu quem o desapontou, pensou ela. Era uma realidade que Sharon se sentia culpada pela dor que causou ao pai. No entanto nunca o perdôo por tudo oque fez a ela.
Os anos passaram mas as lembranças e a dor continuava.
Sharon caminhava pelas ruas desertas absorta em seus pensamentos. Uma vez que se deixava pensar no passado era arrastada para um poço de lamentação que parecia se estender e ela não conseguia ver o fim. Preocupava-se com seu pai, com oque acontecera a ele desde que foi embora. A noticia de que havia deixado a cidade se espalhou rapidamente por Berlin, Sharon se perguntava para onde fora. Muitas vezes agradeceu por não saber a resposta pois acreditava que se soubesse, depois que sua avó morreu, teria ido procurá-lo.
Mas para que? Se perguntou. Ele provavelmente deve achar que estou morta, nem deve mais se lembrar de mim.
De repente um vulto que se moveu rapidamente a sua frente fez seus pensamentos infelizes se dissiparem. Seu coração se acelerou ao notar que a figura a frente se movia em sua direção agora com passos lentos. Olhou em volta nervosamente, não havia ninguém mais na rua.
Amaldiçoou a si mesmo por estar vagando sozinha tão tarde e respirando fundo deu meia volta e apertou o passo.
- porque está fugindo senhorita? – ouviu uma voz masculina incrivelmente atraente. Estava falando com ela? É claro, não tem mais ninguém alem de você andando a essa hora na rua.
Percebeu que o homem agora andava atrás dela à passos largos.
Seu coração se acelerou. Olhou para trás, mas não pode ver o rosto do homem, estava escuro, mas pode perceber que estava bem vestido. Não era um dos marginais habituais daquela parte da cidade. No entanto isso não a acalmou, pelo contrário a deixou ainda mais nervosa.
Se colocou a correr, a casa do senhor Adalberto não estava tão longe, andara devagar, não tinha se distanciado tanto. Se corresse rápido conseguiria se abrigar lá.
Sharon ouviu um gargalhar atrás dela – não tenha medo.
Voltou sua cabeça para trás para olhar o homem estranho enquanto corria, mas ele não estava mais lá. Assustada olhou para frente e com um grito se chocou com o homem parado a sua frente. Caiu no chão. O homem a olhava com um sorriso nos lábios, seu rosto pouco iluminado pelas lamparinas da rua estava despreocupado, como se achasse graça daquilo tudo.
Como ele veio parar aqui? Todos os instintos de Sharon estavam gritando, sabia que não deveria ter saído da casa do Sr Adalberto naquela noite, sentiu-se mal antes no circo.
Então porque insistiu em ir embora sozinha? Claro, queria esclarecer as idéias. Agora lhe parecia uma péssima idéia.
Levantou-se rapidamente – oque você quer?
Toda sua coragem estava sendo mantida a prova, mas Sharon nunca foi de demonstrar medo.
O homem riu e a segurou pelos braços – a sua companhia.
O homem então aproximou seu nariz do pescoço de Sharon e inspirou profundamente.
Quando voltou a encará-la estava um tanto confuso – oque você é?
Sharon não respondeu, estava aterrorizada demais encarando os olhos do homem, eram claros, embora não pudesse ver de que cor eram, mas havia algo estranho neles, as pupilas estavam dilatadas e pareciam brilhar sutilmente.
Com um suspiro arquejante Sharon se recordou dos olhos de seu pai na noite em que a atacou a tantos anos atrás. Tinham aquele mesmo brilho, embora os olhos de seu pai fossem castanhos, e as pupilas também estavam dilatadas daquela mesma forma.
Meu Deus! Sharon não podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ela, de novo.
O homem não parecia notar a estranha compreensão que atingiu Sharon, ele a fitava com olhos alucinados e um tanto confusos, outra vez colocou as narinas perto de seu pescoço sentindo seu aroma e quando a encarou parecia até mesmo preocupado.
Sharon tentou se soltar do aperto férreo de sua mão, mas ele não parecia se importar, num movimento rápido a jogou contra a parede a prendendo entre os tijolos e seu próprio corpo.
- não importa – disse ele – estou faminto
Sharon visualizou as presas se alongando diante de seus olhos tal como fora com seu pai e quando tentou gritar ele tapou sua boca.
Vou morrer, pensou ela aterrorizada e como uma brincadeira do destino ia morrer pelas mãos de um monstro como seu pai. Fechou os olhos e esperou o pior.
Papa! Gritou Sharon dentro de sua cabeça sem ser capaz de pronunciar a palavra.
***
- Sharon! – O conde Heiselmann se levantou de seu caixão num rompante.
Atravessou rapidamente o cômodo escuro e subindo as escadas abriu as portas que davam para seus aposentos. E então gritou de dor quando a luz do sol que emanava das janelas abertas queimaram sua pele como o fogo do inferno.
Protegendo os olhos com as mãos se empurrou de volta para a parede no escuro.
Estava preso, preso em sua própria casa!
Não lhe passou pela cabeça o motivo pelo qual aquelas malditas janelas estavam abertas.
Tudo em que conseguia pensar era no grito de Sharon ecoando em sua cabeça.
Sua filha o chamava com medo, era um pedido de socorro.
Mas como podia ser? Teria sido um sonho? Não, nenhum sonho era tão vivido.
Lembrou-se que uma vez quando Sharon tinha 8 anos de idade, caiu no rio que rodeava o castelo, ela estava se afogando e clamou por seu pai. Estava de dia, o conde Heiselmann estava repousando, muito longe para que pudesse ouvir sua voz. No entanto escutou a voz de sua filha como se estivesse dentro da sua cabeça e naquela ocasião arriscara sua vida atravessando o sol para salvá-la. Lembrava-se de ser obrigado a apagar a mente aterrorizada da filha ao vê-lo machucado pelas feridas causadas pelo sol.
Nunca antes havia pensado no assunto, mas agora ele se perguntava se Sharon não estaria em perigo novamente.
Mein Prinzessin! Lamentou-se o conde com desespero. Se quer sabia onde estava, e mesmo que soubesse estava muito longe para poder ajudá-la.
- Sharon! – gritou o conde em desespero
***
- Solte-a – Sharon ouviu uma outra voz masculina ao longe
O homem tirara os lábios do pescoço de Sharon – mas meu senhor estou faminto!
- afaste-se dela – ordenou o homem que se aproximou dos dois numa velocidade surreal.
Sharon tinha as pernas bambas e mal podia se agüentar em pé, quando o homem a largou seus joelhos falharam. O segundo homem a segurou a mantendo de pé.
- Não matamos pessoas – disse o homem àquele que tentara segundos antes se alimentar de Sharon. Essa é uma regra simples se você quiser me seguir, alimente-se apenas daqueles que estão dispostos a alimentá-lo.
O homem pareceu perplexo – mas como..
- Stille! – ordenou o homem – se não está disposto a obedecer minhas regras terá que partir dessa cidade. Não matamos pessoas!
Sharon estava assustada demais para conseguir compreender oque os homens diziam. Seus ouvidos zumbiam e suas pernas não podiam carregá-las, aos poucos, sem conseguir lutar contra o torpor em sua cabeça, sentiu-se arrastar por uma escuridão acolhedora e mergulhou na escuridão.
***
O dia se arrastava lentamente, o conde Heiselmann andava de um lado para outro do quarto escuro, escondido da cruel luz do dia que tomava seus aposentos.
- verfluchen! – gritou ele.
Estava preso ali, impotente.
Porque não pensei nessa possibilidade antes? Lamentou-se o conde. Ter uma humana dentro de seu castelo nunca fora uma tarefa fácil antes. Porque pensou que seria agora?
Ela não agiu de má fé, pensou o conde tentando se acalmar. Ela não sabe sobre você, provavelmente pensou que o castelo precisasse de um pouco de ar.
O conde suspirou tentando se acalmar.
Sharon! Seus pensamentos vagavam para a pergunta mais angustiante que seu cérebro podia formular: Ainda está viva?
Por todos os anos que se seguiram desde a desastrosa noite do baile de Sharon, desde o momento em que abandonou Berlin, tudo oque mais quis foi voltar a vê-la, foi poder abraçá-la, tê-la de novo em seus braços e saber que estava segura.
Ninguém nunca a protegeria como eu, pensou o conde infeliz. Somente eu poderia dar a ela a segurança que precisava.
No entanto ele nunca voltou atrás. Manteve sua promessa e mesmo que seu coração gritasse pedindo pela filha, ele se mostrou firme sem jamais voltar a Alemanha.
Depois de algum tempo convenceu-se de que fora o melhor.
Mas ela está em perigo!
O coração do conde Heiselmann o alertava de que sua filha precisava de sua proteção.
Mas usando seu raciocínio frio e calculista ele sabia que as chances de encontrá-la seriam quase nulas mesmo que tentasse.
A maldita bruxa deve tê-la enfeitiçado contra mim!
Ele sabia muito bem que havia formas da velha Wiccana escondê-la dele, com magia semelhante aquela que usou para afastá-lo da campina.
Mesmo que eu a procurasse eu não conseguiria encontrá-la.
- Sharon está morta agora – o conde apertou o dedo indicador e o polegar sobre a ponte do nariz numa tentativa de clarear suas idéias.
Mas porque sinto que está viva?
- Sharon onde você está?
***
Anne estava se perguntando onde Tilo estava.
O sol estava se pondo e não o tinha visto durante todo o dia.
Talvez esteja trabalhando, pensou ela. Mas não fazia idéia do que o homem bonito e misterioso fazia da vida.
Deve ser importante, olhe só esse castelo!
No entanto embora o castelo fosse enorme e deslumbrante, estava sujo, empoeirado como se ninguém vivesse ali à anos. Oque era estranho.
Possuía um estranho cheiro de mofo e as cortinas vinhos estavam marrons de tanta poeira.
Talvez ele tenha se mudado à pouco tempo.
Anne pensou que como estava morando ali de favor, poderia ajudar limpando o castelo como podia. Era muito grande, mas faria oque conseguisse, não tinha nada mais para fazer mesmo.
Tomou a liberdade de subir aos aposentos de Tilo e trocar a roupa de cama, aproveitou para abrir as janelas e tentou, da melhor maneira que pode, tirar o pó das cortinas. As manteve abertas para iluminar e arejar o quarto.
Aqui é tudo tão escuro!
Agora, se ocupava ascendendo o fogão de lenha e cozinhando o jantar.
Tilo havia trazido comida para casa e Anne gostava de cozinhar.
Deve fazer muito tempo que ele não come uma comida descente, pensou ela sorrindo enquanto mexia nas panelas.
***