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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Livro 2: INFERNO Cap. 2




Capítulo 2

Sehnsucht
(Saudade)

Sharon entrou pela porta do velho restaurante onde começara a trabalhar faziam duas semanas. Era um restaurante pobre, afastado da parte nobre da cidade, e a cidade era muito grande, ninguém sabia quem ela realmente era ali, por isso o emprego lhe fora tão atraente assim como todos os outros no passado. Não podia viver por muito tempo no mesmo lugar, nem trabalhar por muito tempo no mesmo estabelecimento, pois tinha medo que alguém notasse que os anos passavam por ela sem deixar marcas. Mas no entanto se perguntava se alguém realmente a via naqueles lugares. Limpava o chão, limpava as mesas, servia pratos e bebidas e lavava as louças. Quem notaria alguém como ela? Tão mal vestida, tão mal arrumada? Ela mesma não se reconhecia mais, não era nem a sombra da Sharon que foi um dia. Aquela que um dia fora chamada de princesa e amada incondicionalmente.
O mundo não era mais o mesmo para Sharon e de alguma forma ele continuava o mesmo para todas as pessoas a sua volta. Sua vida era aquela, embora mudasse de casa, de trabalho com freqüência, nada nunca realmente mudava.
No entanto naquela manha algo estava diferente, talvez fosse apenas o seu estado de espírito mas algo estava faltando dentro dela, talvez fosse a força de vontade de continuar, estava perdida, sem rumo e completamente sozinha. Desde que sua avó havia morrido, Sharon tinha estado sozinha, por sua própria conta e risco e aquilo a machucava todos os dias.
Engolindo a bile que lhe subia pela garganta e tentando abafar a dor que queimava em seu peito, Sharon adentrou no restaurante e se deparou com uma cena completamente nova,
o Sr Adalbert, seu patrão estava recebendo um grupo de entregadores que acabavam de posicionar um velho piano no centro do salão de jantar entre as mesas.
- Srta Den Adel – chamou o Sr Adalbert – olha que beleza que acabei de comprar – disse o velho homem animado. – vai atrair muitos clientes.
Sharon tentou sorrir mas a verdade é que a imagem daquele piano em sua frente havia cortado seu coração em mil pedaços. Automaticamente se lembrou das centenas de vezes em que sentou-se ao piano e tocou com seu pai. Tantas noites e dias perfeitos de eterna felicidade.
- Srta Den Adel – chamou o Sr Adalbert – você esta bem? – perguntou o homem.
Sharon sorrio lutando contra as lembranças – estou bem, só estou cansada.
- mas o dia acabou de começar – disse o velho sorrindo animador – coma alguma coisa, vai se sentir melhor.
Sharon se retirou para a cozinha em passos largos e quando se encontrou sozinha apertou os braços contra o peito e se permitiu chorar.
- Warum? – se perguntou ela – porque não consigo te esquecer, papa?
A lembrança do rosto bonito do pai a torturava por trás dos olhos fechados, era como ferro em brasa queimando cada pedaço do seu coração.
- mein herz brennt – sussurrou ela por entre as lagrimas – não posso mais viver assim, ich Kann nicht!
- Sharon -  chamou Katrina, a jovem filha do senhor Adalbert – Sharon porque esta chorando? Oque aconteceu? – a moça se aproximou de Sharon preocupada. Era uma garota simpática, desde a primeira vez que se conheceram se deram muito bem.
- eu estou bem – disse Sharon limpando as lagrimas
- não esta não, você esta chorando – disse Katrina ainda preocupada.
Sharon sorrio forçadamente, era estranho que uma garota de 20 anos a estivesse consolando, mas é claro que para os outros Sharon tinha a mesma idade de Katrina.
- você viu o piano que meu pai comprou? É tão lindo – disse a jovem tentando animá-la – eu queria muito saber tocar.
Sharon a encarou por alguns segundos e depois sorrio, não sabia oque dizer.
- meu pai disse que vai contratar alguém para tocar nas noites de sábado, vai ser tão perfeito!
- eu posso tocar – disse Sharon subitamente sem pensar
Katrina a olhou como se duvidasse de sua capacidade – você sabe?
- um pouco – disse Sharon – faz muito tempo que não toco, mas adoraria tentar.
Katrina sorrio – se eu pedir para meu pai deixá-la tocar, você me ensina?
Sharon concordou, não sabia oque estava fazendo, mas a verdade era que o piano a chamava, ela precisava tocar em suas teclas. Uma parte de seu coração lhe disse baixinho que oque realmente queria era voltar a ouvir aquelas velhas musicas que o pai a ensinara tão bem.
                                                                        ***


Era sábado e o restaurante do Sr Adalbert estava lotado como de costume.
Sharon acabara de servir algumas mesas e agora se preparava para sentar ao piano.
Convencera facilmente o Sr Adalbert a deixá-la tocar e o fascinou saber que podia cantar também.
Sharon sentou ao piano e ninguém se quer a notou ali, seus dedos tremiam quando repousou-os pelas teclas gastas do piano velho, o som ecoou pelo salão e todos olharam para ela.
Seu coração pulsou fortemente no peito quando começou tocar as conhecidas notas de uma canção que o pai lhe ensinara.
- você não precisa apertar as teclas com tanta força – censurou o pai sorrindo em algum canto da memória de Sharon, em uma lembrança distante.– só precisa deixar a melodia fluir por entre seus dedos princesa. A musica não deve ser um trabalho árduo e sim um singelo prazer.
Sharon tentou novamente e então a musica fluiu, era linda.
- eu a compus para você, mein prinzessin – disse o pai em seu ouvido – ela se chama
Küssen Den Regen, deixe-a fluir por seus dedos como a água da chuva que cai lentamente.
Lágrimas escorriam pelo rosto de Sharon enquanto tocava no velho restaurante do Sr Adalbert, as lembranças a invadiam uma por uma, dias de ternura, de felicidade extrema.
E a saudade era doentia, uma saudade tão grande quanto se podia imaginar.
Sharon nunca havia realmente conseguido perdoar o pai por tudo oque fizera a ela, mas de alguma forma com o passar dos anos, o ódio se tornara menor do que a saudade que sentia, saudade de todos aqueles dias bonitos, de todos aqueles momentos, dos abraços e beijos do pai.
Papa, ich liebe dich immer noch, pensou Sharon entre as lágrimas enquanto a musica morria lentamente em seus dedos.
Todos aplaudiram Sharon quando terminara de tocar, a trazendo de volta a realidade de onde estava. Ela agradeceu brevemente com um sorriso e voltou ao piano, não sabia oque tocar, então deixou apenas seus dedos correrem pelo teclado, e lentamente uma melodia fora se formando e junto com a melodia palavras veio a sua mente, palavras aquelas que precisavam ser ditas, mas não tinha ninguém para ouvir. Lembrando do que seu pai havia dito a anos atrás, Sharon se permitiu cantar seus sentimentos.
- Neste mundo você tentou não me deixar para trás sozinha. Não há outro jeito, eu rezei para os deuses deixarem você ficar. As lembranças amenizam a dor aqui dentro, agora eu sei porque. Todas as minhas lembranças mantém você próximo, em momentos silenciosos imagino você aqui. Todas as minhas lembranças mantém você próximo, seus sussurros silêncios, suas lágrimas silenciosas.  – Sharon cantava palavras tristes que a anos assombravam seu coração, não sabia ao certo a quanto tempo elas estavam presas em sua cabeça, mas agora elas fluíam por seus lábios em tristes sentenças melódicas.
- Me fez prometer que eu tentaria encontrar meu caminho de volta nessa vida. Eu espero que você encontre um meio de me dar um sinal de que esta bem. Me recordo novamente esse é o valor de tudo, então posso continuar seguindo.
- Juntos em todas essas lembranças eu vejo o seu sorriso, todas as lembranças eu guardei tão bem, querido você sabe que eu te amarei até o fim dos tempos. – a melodia morreu lentamente, e junto com os aplausos que se seguiram morreu também qualquer fio de esperança que Sharon poderia ter em esquecer ou parar aquela dor.
Ela estaria para sempre ali, até o fim dos tempos.
                                                                          ***

- minha família sempre foi pobre, camponeses. – a voz de Anne estava tremula, cheia de emoção. Não conseguia entender porque estava contando aquilo para aquele homem desconhecido, mas de alguma forma, e ela não sabia porque, sentia que podia confiar nele.
– Na Finlândia as coisas são diferentes daqui, mais difíceis. Não tínhamos dinheiro, não tínhamos comida as vezes e meu pai, ele bebia muito, nunca cuidou da família. Eu trabalhava na mansão dos Virtanen, eram uma família muito rica. Minha mãe era velha, doente. Eu sustentava a casa com oque ganhava e não era muito.
- não tinha irmãos? – perguntou Tilo. Ele se mantinha em silencio sentado na poltrona perto da lareira, a noite caía lá fora. A terceira noite que passava naquele castelo, com aquele homem.
Ele apenas a observava, interessado em sua historia.
- não, apenas eu.
- continue – pediu ele incitando-a a continuar.
- havia um velho banqueiro na cidade, ele era novo no negócio, mas era muito rico. Não me lembro do nome dele, mas ainda me lembro do seu rosto, ele tinha um cheiro ruim.
- e porque se lembra do cheiro desse homem?
- porque meu pai concedeu a ele minha mãe em casamento e ele me fazia a corte. – os olhos de Anne endureceram, tinha ódio do pai, e se lembrar só fazia o ódio aumentar. – meu pai viu uma possibilidade de se livrar da pobreza, não importava para ele se aquilo custava a minha felicidade. Eu tinha 16 anos.
Tilo permaneceu em silencio, sem nada dizer.
- eu não conseguia aceitar meu destino. E além de tudo estava apaixonada. Apaixonada pelo filho dos Virtanen, seu nome era Ville. Ele havia me prometido que me salvaria do meu terrível destino e eu acreditei nele. Eu.. – Anne sentiu seu rosto corar.
- não precisa me dizer mais do que deseja, não deve nada a mim – Tilo se aproximou e pegou em sua mão. Sorrio para ela.
- Eu me entreguei a ele – Anne suspirou, sabia que não era o tipo de coisa que devia dizer a um homem, ainda mais um homem desconhecido, mas não tinha reputação alguma que precisasse ser mantida mesmo. – ele disse que se casaria comigo, mas os pais dele não aceitaram que seu filho tão bem educado se casa-se com uma criada. Ele não teve forças para lutar contra os pais e então me deixou.
Anne sentiu a dor voltar ao seu peito ao recordar todas aquelas lembranças, todos aqueles momentos, os bons e os ruins, que passou o resto de sua vida tentando esquecer.
- desiludida, enganada, abandonada. Tudo oque me restava era aceitar me casar com o banqueiro. E eu me casei com ele. Mas quando ele descobriu que eu não era mais .. – Anne não terminou a frase, seu rosto estava quente.
- entendo – disse Tilo apenas. Ele era muito cavalheiro, Anne o admirava.
- bem, ele me devolveu para meus pais, obrigando meu pai a devolver o dinheiro que tinha lhe dado como dote. Meu pai enfurecido e envergonhado me jogou na rua.
Os olhos de Anne se encheram de lágrimas. - Eu não tinha para onde ir, eu estava perdida.
Foi quando conheci Laurentiu, ele era simpático, me acolheu e me disse que tinha um trabalho para mim fora da Finlândia, onde eu poderia começar de novo, ninguém saberia meu nome. E então ele me trouxe para a Romênia.
- a quanto tempo exatamente foi isso? – perguntou Tilo, ele mantinha a mão de Anne acolhida entre as suas. Ele tinha mãos frias.
- foi a 13 anos – respondeu Anne. - É claro que as coisas não eram oque pareciam. Quando cheguei aqui Laurentiu me jogou numa masmorra de um velho castelo junto com outras garotas e me obrigou a trabalhar para ele.
- trabalhar como?
- servindo homens – as lagrimas caiam dos olhos de Anne livremente, estava envergonhada.
                                                                         ***

O ódio dominou cada centímetro do ser do conde Heiselmann ao ouvir aquele história. Se perguntava como um homem seria capaz de fazer algo tão terrível com uma jovem tão bonita.
Ele tapou os olhos com as mãos e respirou profundamente algumas vezes para se acalmar.
- vou entender se não me quiser aqui em sua casa – disse Anne – eu posso ir embora..
- oque esta dizendo? – o conde Heiselmann a olhou fixamente nos olhos – eu não seria mais do que esses homens terríveis de sua historia infeliz se a expulsasse de minha casa por um pecado que nunca quis cometer.
Anne o olhou com seus olhos azuis esverdeados com veneração. Só duas mulheres em toda sua existência o olhara assim. Elizabeta e Sharon.
- você passou todos esses 13 anos presa?
Anne assentiu
- como conseguiu fugir?
- eu .. – Anne ficou em silencio
- shau mich an  - pediu o conde Heiselmann, Anne o olhou nos olhos – conte-me
- eu seduzi Laurentiu, fiz ele acreditar que eu o amava e passei a dormir apenas com ele. Uma noite quando estava dormindo eu roubei suas chaves e fugi.
O conde Heiselmann não podia acreditar na inteligência e coragem daquela mulher.
- a quanto tempo você fugiu?
- essa noite faz 3 dias. – Anne o olhou  com olhos de gratidão – você me acolheu, e eu sei que ninguém me acolheria se soubessem oque eu sou. Dunke Chön.
O conde Heiselmann segurou as mãos de Anne e num movimento rápido, a puxou para seus braços e a abraçou carinhosamente.
- não se envergonhe minha querida – disse ele em seu ouvido – você é uma guerreira.
                                                                            ***

- é muito difícil – queixava-se Katrina para Sharon enquanto lutava contra as teclas do velho piano. Já passavam das seis da tarde, o sol estava se pondo. O restaurante estava fechado, e assim ficaria naquela noite de domingo, pois o pai de Katrina, Sr Adalbert, não estava se sentindo muito bem.
- não é tão difícil quanto parece – disse Sharon se permitindo rir da carranca de Katrina. Era uma garota muito bonita, loura de olhos azuis, vestida sempre muito bem com seus vestidos, que mesmo sendo de tecido barato, eram muito bem feitos.
Com o passar do tempo Sharon teve que se acostumar com roupas de segunda mão, nada de talheres de prata ou ouro, nada de grandes castelos com lindos candelabros. A vida mudou drasticamente mas quando parava para pensar, não sentia tanta falta dessas coisas.
- como você aprendeu a tocar e cantar tão bem? – Katrina agora já não prestava mais atenção nas lições de Sharon, estava especulando.
- meu pai me ensinou – Sharon sentiu as palavras vacilarem por entre seus lábios.
- e onde ele está?
- que tal voltarmos ao piano? – disse Sharon tentando mudar de assunto.
- Nein! – Katrina fez uma careta – eu nunca vou aprender tocar isso.
- foi a sua primeira tentativa! Precisa continuar tentando. – Sharon sorrio para a menina de cachos loiros.
- porque não aproveitamos que meu pai não vai abrir o restaurante para sairmos? – sugeriu Katrina travessa – tem um circo na cidade, dizem que é legal.
- e onde vamos arrumar dinheiro para irmos no circo? – perguntou Sharon desconfiada
- bem, eu tenho as gorjetas que ganhei ontem a noite e você tem oque meu pai te deu por cantar – Katrina sorrio para ela com olhinhos pidões – ich bitte!
- seu pai não vai querer que você saia a noite
- não estou sozinha, estou com você – Katrina se levantou e correu pelo salão – vou trocar de roupa.
Sharon suspirou derrotada.  Afinal, talvez não fosse tão ruim sair um pouco.
Precisava esclarecer as idéias, parar de se lamentar tanto. Aproveitar a vida, que ao que parecia, não teria um fim tão cedo.
Katrina voltou dez minutos depois toda arrumada e cheirando a perfume de rosas.
- você vai assim? – perguntou ela para Sharon
Sharon deu de ombros se permitindo olhar para si mesma. O vestido creme que usava era simples, mas pelo menos estava limpo. Os cabelos escuros estavam como sempre lambidos e presos com uma fita.
- tudo bem, você esta linda – disse Katrina enciumada – você esta sempre linda, quer me contar seu segredo?
- não tenho segredo – disse ela sem graça. Oque mais tinha na vida era segredos.
As duas saíram pelas portas dos fundos e se dirigiam pelas ruas.
Berlin era uma cidade grande. Dividida entre classes sociais, claro que antes Sharon não enxergava isso, mas agora era possível ver a distinção perfeitamente. O bairro onde morava e onde ficava seu trabalho era humilde, com pessoas humildes. As ruas eram feias, cheias de becos e era impossível não enxergar que era repleta de marginais.
O sol estava se ponto a oeste, a noite estava fria, Sharon se arrependeu de não pegar um casaco e pela cara de Katrina sabia que pensava o mesmo.
Andaram varias quadras até que pudesse ouvir o som que vinha do circo, pessoas rindo, vendedores, crianças gritando.
Se aproximaram, compraram duas entradas e entraram.
Era um grande barracão de lonas coloridas, iluminados por alguns candelabros velhos e castiçais. Havia vendedores por todos os lados. Katrina comprou uma maça do amor  e então se dirigiram até as cadeiras. O espetáculo logo começaria.
Sharon estava inquieta. De repente algo dentro dela dizia que não deveria estar ali.
Geralmente tentava ignorar essas sensações, não era normal sentir tais sentimentos e o pior é que se lembrava que a avó uma vez lhe disse que se sentia assim por causa do que era.
Mas Sharon não aceitava se ver como aquilo que sua avó fora, não era uma bruxa.
Sempre ignorou esses sentimentos, essas premonições. Mas naquela noite, de repente se tornou mais forte, era quase insuportável.
- acho que devíamos ir embora – disse ela a Katrina
- oque? Acabamos de chegar – reclamou Katrina infeliz – eu quero ver o Arlequim.
- quem? – perguntou Sharon tentando se acalmar
- não conhece a história do Arlequim? Katrina a olhou surpresa
- Nein – Sharon suspirou tentando manter a calma. – conte-me
- bem dizem que ele é um homem muito, muito triste que trabalha no circo, ele se veste como um palhaço e faz as pessoas rirem, mas na verdade ele está sempre chorando por de trás da máscara. Ele toca violino todas as noites, uma velha musica que uma vez ele compôs para seu amor perdido esperando que talvez um dia ela o escute tocar e o encontre.
Sharon pensou por um instante – ela morreu?
- dizem que sim – Katrina sorrio – não é uma história de amor linda?
Sharon automaticamente se recordou do pai cantando para o grande amor de sua vida que morrera. – não é bonito, é triste.
- senhoras e senhores – o apresentador do espetáculo chamou a atenção dos espectadores. – daremos inicio a mais um espetáculo. Sejam bem vindos.
                                                                        ***

- ah ele é tão perfeito – Katrina estava encantada com o tal Arlequim.
Sharon por outro lado não estava nenhum pouco impressionada, não era perfeito, era deprimente. Um homem que dedicava a sua vida a fazer as pessoas rirem quando na verdade estava desmoronando por dentro.
- você não gostou do espetáculo – acusou Katrina
- só estou cansada – disse Sharon tentando disfarçar.
Elas andaram pelas ruas em direção ao restaurante.
Quando chegaram Sharon se despediu de Katrina.
- tem certeza que não quer passar a noite aqui? Já esta tão tarde.
- não, esta tudo bem – Sharon se despediu e saiu.
As ruas agora estavam desertas, já passavam das nove da noite, e isso naquele parte da cidade, não era horas de andar sozinha pelas ruas. Mas Sharon não se importava.
Andava lentamente, a cabeça longe. Ver o tal arlequim fez com que pensasse em seu pai de alguma forma. As historias eram parecidas. Mesmo que seu pai estivesse infeliz, ele dedicou parte de sua vida à fazer Sharon sorrir, e por muito tempo foi assim.
No fim fui eu quem o desapontou, pensou ela. Era uma realidade que Sharon se sentia culpada pela dor que causou ao pai. No entanto nunca o perdôo por tudo oque fez a ela.
Os anos passaram mas as lembranças e a dor continuava.
Sharon caminhava pelas ruas desertas absorta em seus pensamentos. Uma vez que se deixava pensar no passado era arrastada para um poço de lamentação que parecia se estender e ela não conseguia ver o fim. Preocupava-se com seu pai, com oque acontecera a ele desde que foi embora. A noticia de que havia deixado a cidade se espalhou rapidamente por Berlin, Sharon se perguntava para onde fora. Muitas vezes agradeceu por não saber a resposta pois acreditava que se soubesse, depois que sua avó morreu, teria ido procurá-lo.
Mas para que? Se perguntou. Ele provavelmente deve achar que estou morta, nem deve mais se lembrar de mim.
De repente um vulto que se moveu rapidamente a sua frente fez seus pensamentos infelizes se dissiparem. Seu coração se acelerou ao notar que a figura a frente se movia em sua direção agora com passos lentos. Olhou em volta nervosamente, não havia ninguém mais na rua.
Amaldiçoou a si mesmo por estar vagando sozinha tão tarde e respirando fundo deu meia volta e apertou o passo.
- porque está fugindo senhorita? – ouviu uma voz masculina incrivelmente atraente. Estava falando com ela? É claro, não tem mais ninguém alem de você andando a essa hora na rua.
Percebeu que o homem agora andava atrás dela à passos largos.
Seu coração se acelerou. Olhou para trás, mas não pode ver o rosto do homem, estava escuro, mas pode perceber que estava bem vestido. Não era um dos marginais habituais daquela parte da cidade.  No entanto isso não a acalmou, pelo contrário a deixou ainda mais nervosa.
Se colocou a correr, a casa do senhor Adalberto não estava tão longe, andara devagar, não tinha se distanciado tanto.  Se corresse rápido conseguiria se abrigar lá.
Sharon ouviu um gargalhar atrás dela – não tenha medo.
Voltou sua cabeça para trás para olhar o homem estranho enquanto corria, mas ele não estava mais lá. Assustada olhou para frente e com um grito se chocou com o homem parado a sua frente. Caiu no chão. O homem a olhava com um sorriso nos lábios, seu rosto pouco iluminado pelas lamparinas da rua estava despreocupado, como se achasse graça daquilo tudo.
Como ele veio parar aqui?  Todos os instintos de Sharon estavam gritando, sabia que não deveria ter saído da casa do Sr Adalberto naquela noite, sentiu-se mal antes no circo.
Então porque insistiu em ir embora sozinha? Claro, queria esclarecer as idéias. Agora lhe parecia uma péssima idéia.
Levantou-se rapidamente – oque você quer?
Toda sua coragem estava sendo mantida a prova, mas Sharon nunca foi de demonstrar medo.
O homem riu e a segurou pelos braços – a sua companhia.
O homem então aproximou seu nariz do pescoço de Sharon e inspirou profundamente.
Quando voltou a encará-la estava um tanto confuso – oque você é?
Sharon não respondeu, estava aterrorizada demais encarando os olhos do homem, eram claros, embora não pudesse ver de que cor eram, mas havia algo estranho neles, as pupilas estavam dilatadas e pareciam brilhar sutilmente.
Com um suspiro arquejante Sharon se recordou dos olhos de seu pai na noite em que a atacou a tantos anos atrás. Tinham aquele mesmo brilho, embora os olhos de seu pai fossem castanhos, e as pupilas também estavam dilatadas daquela mesma forma.
Meu Deus! Sharon não podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ela, de novo.
O homem não parecia notar a estranha compreensão que atingiu Sharon, ele a fitava com olhos alucinados e um tanto confusos, outra vez colocou as narinas perto de seu pescoço sentindo seu aroma e quando a encarou parecia até mesmo preocupado.
Sharon tentou se soltar do aperto férreo de sua mão, mas ele não parecia se importar, num movimento rápido a jogou contra a parede a prendendo entre os tijolos e seu próprio corpo.
- não importa – disse ele – estou faminto
Sharon visualizou as presas se alongando diante de seus olhos tal como fora com seu pai e quando tentou gritar ele tapou sua boca.
Vou morrer, pensou ela aterrorizada e como uma brincadeira do destino ia morrer pelas mãos de um monstro como seu pai. Fechou os olhos e esperou o pior.
Papa! Gritou Sharon dentro de sua cabeça sem ser capaz de pronunciar a palavra.
                                                                         ***

- Sharon! – O conde Heiselmann se levantou de seu caixão num rompante.
Atravessou rapidamente o cômodo escuro e subindo as escadas abriu as portas que davam para seus aposentos. E então gritou de dor quando a luz do sol que emanava das janelas abertas queimaram sua pele como o fogo do inferno.
Protegendo os olhos com as mãos se empurrou de volta para a parede no escuro.
Estava preso, preso em sua própria casa!
Não lhe passou pela cabeça o motivo pelo qual aquelas malditas janelas estavam abertas.
Tudo em que conseguia pensar era no grito de Sharon ecoando em sua cabeça.
Sua filha o chamava com medo, era um pedido de socorro.
Mas como podia ser? Teria sido um sonho? Não, nenhum sonho era tão vivido.
Lembrou-se que uma vez quando Sharon tinha 8 anos de idade, caiu no rio que rodeava o castelo, ela estava se afogando e clamou por seu pai. Estava de dia, o conde Heiselmann estava repousando, muito longe para que pudesse ouvir sua voz. No entanto escutou a voz de sua filha como se estivesse dentro da sua cabeça e naquela ocasião arriscara sua vida atravessando o sol para salvá-la. Lembrava-se de ser obrigado a apagar a mente aterrorizada da filha ao vê-lo machucado pelas feridas causadas pelo sol.
Nunca antes havia pensado no assunto, mas agora ele se perguntava se Sharon não estaria em perigo novamente.
Mein Prinzessin! Lamentou-se o conde com desespero. Se quer sabia onde estava, e mesmo que soubesse estava muito longe para poder ajudá-la.
- Sharon! – gritou o conde em desespero
                                                                          ***


- Solte-a – Sharon ouviu uma outra voz masculina ao longe
O homem tirara os lábios do pescoço de Sharon – mas meu senhor estou faminto!
- afaste-se dela – ordenou o homem que se aproximou dos dois numa velocidade surreal.
Sharon tinha as pernas bambas e mal podia se agüentar em pé, quando o homem a largou seus joelhos falharam. O segundo homem a segurou a mantendo de pé.
- Não matamos pessoas – disse o homem àquele que tentara segundos antes se alimentar de Sharon. Essa é uma regra simples se você quiser me seguir, alimente-se apenas daqueles que estão dispostos a alimentá-lo.
O homem pareceu perplexo – mas como..
- Stille! – ordenou o homem – se não está disposto a obedecer minhas regras terá que partir dessa cidade. Não matamos pessoas!
Sharon estava assustada demais para conseguir compreender oque os homens diziam. Seus ouvidos zumbiam e suas pernas não podiam carregá-las, aos poucos, sem conseguir lutar contra o torpor em sua cabeça, sentiu-se arrastar por uma escuridão acolhedora e mergulhou na escuridão.
                                                                           ***



O dia se arrastava lentamente, o conde Heiselmann andava de um lado para outro do quarto escuro, escondido da cruel luz do dia que tomava seus aposentos.
- verfluchen! – gritou ele.
Estava preso ali, impotente.
Porque não pensei nessa possibilidade antes? Lamentou-se o conde. Ter uma humana dentro de seu castelo nunca fora uma tarefa fácil antes. Porque pensou que seria agora?
Ela não agiu de má fé, pensou o conde tentando se acalmar. Ela não sabe sobre você, provavelmente pensou que o castelo precisasse de um pouco de ar.
O conde suspirou tentando se acalmar.
Sharon! Seus pensamentos vagavam para a pergunta mais angustiante que seu cérebro podia formular: Ainda está viva?
Por todos os anos que se seguiram desde a desastrosa noite do baile de Sharon, desde o momento em que abandonou Berlin, tudo oque mais quis foi voltar a vê-la, foi poder abraçá-la, tê-la de novo em seus braços e saber que estava segura.
Ninguém nunca a protegeria como eu, pensou o conde infeliz. Somente eu poderia dar a ela a segurança que precisava.
No entanto ele nunca voltou atrás. Manteve sua promessa e mesmo que seu coração gritasse pedindo pela filha, ele se mostrou firme sem jamais voltar a Alemanha.
Depois de algum tempo convenceu-se de que fora o melhor.
Mas ela está em perigo!
O coração do conde Heiselmann o alertava de que sua filha precisava de sua proteção.
Mas usando seu raciocínio frio e calculista ele sabia que as chances de encontrá-la seriam quase nulas mesmo que tentasse.
A maldita bruxa deve tê-la enfeitiçado contra mim!
Ele sabia muito bem que havia formas da velha Wiccana escondê-la dele, com magia semelhante aquela que usou para afastá-lo da campina.
Mesmo que eu a procurasse eu não conseguiria encontrá-la.
- Sharon está morta agora – o conde apertou o dedo indicador e o polegar sobre a ponte do nariz numa tentativa de clarear suas idéias.
Mas porque sinto que está viva?
- Sharon onde você está?
                                                                         ***


Anne estava se perguntando onde Tilo estava.
O sol estava se pondo e não o tinha visto durante todo o dia.
Talvez esteja trabalhando, pensou ela. Mas não fazia idéia do que o homem bonito e misterioso fazia da vida.
Deve ser importante, olhe só esse castelo!
No entanto embora o castelo fosse enorme e deslumbrante, estava sujo, empoeirado como se ninguém vivesse ali à anos. Oque era estranho.
Possuía um estranho cheiro de mofo e as cortinas vinhos estavam marrons de tanta poeira.
Talvez ele tenha se mudado à pouco tempo.
Anne pensou que como estava morando ali de favor, poderia ajudar limpando o castelo como podia. Era muito grande, mas faria oque conseguisse, não tinha nada mais para fazer mesmo.
Tomou a liberdade de subir aos aposentos de Tilo e trocar a roupa de cama, aproveitou para abrir as janelas e tentou, da melhor maneira que pode, tirar o pó das cortinas. As manteve abertas para iluminar e arejar o quarto.
Aqui é tudo tão escuro!
Agora, se ocupava ascendendo o fogão de lenha e cozinhando o jantar.
Tilo havia trazido comida para casa e Anne gostava de cozinhar.
Deve fazer muito tempo que ele não come uma comida descente, pensou ela sorrindo enquanto mexia nas panelas.
                                                                         ***

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Livro 2 : INFERNO Cap.1




Capítulo 1
Ein Engel im Sturm
(Um Anjo na Tempestade)

A chuva caia aos baldes sobre o castelo de Stirbei. Uma tempestade tão forte quanto aquela que atingiu Berlin no dia do nascimento de Sharon.
O conde Heiselmann apertou o copo de whisky em sua mão relembrando da noite em que Sharon nasceu, fora uma noite sombria que terminara com Evelyn morta e um bebê em seus braços iluminando seu coração a séculos escurecido pelo dor e desgraça.
Por vinte anos vivera ao lado de sua filha imaginando como seria quando não precisasse mais fingir ser oque não era, quando pudesse ser real com ela e dar-lhe a imortalidade.
- Sharon oque você fez? – sussurrou o conde baixinho para si mesmo.
Naquela maldita noite o conde Heiselmann perdeu sua vida, e a dor o acompanhara durante todos os anos seguintes sem nunca desaparecer.
- essa dor não vai desaparecer – o copo de cristal estourou nas mãos do conde, os cacos cortaram sua mão, o sangue escorria pingando no tapete da enorme sala de estar do castelo vazio. Lá fora um trovão ressoou ainda mais alto que o barulho da chuva caindo sobre o teto.
A leve dor em sua mão fez o conde rir, afinal a dor era a única coisa agora que o fazia se sentir vivo. Ele levantou a mão e examinou o corte, o sangue aos poucos fora cessando e o corte lentamente se fechou perante seus olhos.
Fazia quarenta anos que deixara  Neuschwanstein e desde então mergulhara na escuridão de seu antigo lar, afundando nas lembranças de tempos melhores quando Elizabeta aquecia seus dias, mas tais lembranças apenas o feriam. Não eram suficientes para apagar a dor da perda de sua filha, nada que  fizesse, pessoas que conhecia, mulheres que envolvia em seus braços, nada era capaz de apagar a terrível visão que o assombrava toda vez que fechava os olhos.
A confusão nos olhos de Sharon o assombrava dia após dia, e a dúvida o consumia.
Teria sua filha o perdoado se ele não tivesse ido embora? Se não tivesse desistido dela como fez, se não tivesse fugido como um covarde da dor que sentia, o tempo faria com que sua filha o perdoasse? Não havia resposta para aquela pergunta e agora era tarde demais.
O tempo que por ele passava imutável, havia mudado Sharon, não a reconheceria agora se não fosse pelo gosto de seu sangue que ficara impregnado em seu consciente desde o momento em que a mordeu, o cheiro o faria reconhecê-la. Mas agora Sharon não era mais sua princesa,estava velha, consumida pelo tempo, toda a educação que lhe deu, tudo que lhe ensinou destruído pela maldita Wiccana e seus ensinamentos profanos.
- Nein – O conde se levantou de súbito de sua poltrona, caminhou até a janela e encarou a escuridão e a tempestade. – mein tochter ist tot
Contudo havia um lugar em que Sharon estava perfeitamente viva, neste lugar ele ainda podia ouvir seu riso, sentir seu abraço, seu olhar. A lembrança de Sharon era oque vivia dentro de seu coração, e aquela lembrança era o único pedaço de humanidade que ainda existia em si. Como uma chama ao vento, o conde não sabia por quanto tempo essa lembrança seria capaz de iluminar seu coração e impedi-lo de se tornar apenas nada.
O conde caminhou pelos corredores do castelo escuro iluminado apenas por fracas luzes de velas, por fim se rendeu ao velho piano em seu quarto, aquele que durante todos aqueles anos fora seu único confidente, seu único amigo. Deixou que seus dedos tocassem as teclas lentamente sem se importar com a melodia que faziam, o som era sombrio e junto com os trovões e o barulho da chuva tornava aquela uma melodia suave a seus ouvidos, visto que a escuridão quando o envolvia lhe trazia a paz que a luz jamais lhe trouxe.
- Mutação do espírito, conversão da sua força. Mutação do seu poder, conversão da sua alma.
O conde cantava palavras confusas, mas eram aquelas que assombravam seu coração, que precisavam ser cantadas ou ao contrário o sufocariam.
- Desmanchando em testes da mente tal como um livro que era proibido de ser lido, do qual se roubou algumas páginas, colou-se a capa. Mudou-se o nome, tirou-lhe o ar de ser respirado.
 E era exatamente daquela forma que o conde Heiselmann se sentia, confuso, perdido em sua própria confusão, em sombras, escuridão e desgraça. Sua melodia confusa o preenchia com medo e dor mas era necessária, pois quando não era mais possível guardar tais sentimentos consigo eles saiam de sua boca e por entre seus dedos em forma de tristes melodias.
- Escondido em uma caixa, colado com outra vida, amarrado, encoberto. Envolvido no próprio medo, esqueceu de se defender. Como ser humano despido demais, como vítima ainda não despido o suficiente.
Seus dedos continuavam a tocar aquela melodia sombria e lá fora a chuva continuava a cair como se refletisse as lágrimas que por seu rosto escorriam.
Foi em meio ao som do piano e da chuva que o conde ouviu batidas na porta da frente e gritos. A voz era de uma mulher, ela gritava por socorro implorando que a deixassem entrar. O conde desceu as escadas num rompante. Os gritos se tornaram mais altos.
A voz da mulher chamava pelo pai, mas não falava em alemão.
O conde abriu a porta e avistou a mulher completamente encharcada que tremia de frio, estava vestida apenas com roupas de baixo e uma camisola rasgada. Seus olhos estavam vazios, e quando ele se aproximou ela desmaiou em seus braços.
O conde surpreso a pegou no colo e com um olhar rápido para a noite tempestuosa certificou-se de que não havia ninguém por perto. Entrou batendo a porta atrás de si e voou pelas escadas, levando a mulher para seus aposentos, ele a deitou em sua cama e só então permitiu-se admirar seu rosto.
Era uma mulher jovem, mas não tão jovem quanto Sharon era na ultima vez que a viu. Deveria ter uns 30 anos, tinha a pele branca como a neve, cabelos lisos, pretos e compridos que caiam na altura da cintura. Seus olhos, mesmo agora estando fechados, podia ver que eram grandes e puxados nos cantos, não sabia a cor deles, não houve tempo para notar.
A julgar pela forma como se vestia o conde não podia dizer que era uma moça de boa família, seu rosto o fazia duvidar até mesmo que fosse romena. Ela o intrigava.
Intrigava-o o fato de uma mulher estar sozinha naquela situação correndo numa tempestade como aquela, e porque fora bater em sua porta? Geralmente as pessoas corriam para o lado oposto de seu castelo. O medo os mantinham afastados de Heiselmann mesmo que eles não soubessem o motivo.  No entanto aquela mulher correu diretamente para ele e mesmo que tê-la ali em sua cama, totalmente desprotegida o deixava com uma sede abrasadora, ele não teve vontade de se alimentar dela, talvez porque não tivesse coragem de machucá-la.
Ali em sua cama, enquanto repousava em trapos brancos, totalmente indefesa, a mulher lhe parecia um anjo.
- wer bist du? – perguntou o conde Heiselmann para si mesmo
A mulher acordou algumas horas depois, já passavam das 4 da madrugada. O conde Heiselmann ficara ali em sua cabeceira aguardando durante horas, admirando a mulher indefesa em sua cama, o monstro dentro dele fazia sua boca salivar com o cheiro que emanava dela, mas ele não podia machucá-la, algo dentro de si dizia que precisava salvá-la.
Ela abriu seus grandes olhos azuis esverdeados e o encarou por alguns segundos e então se sentou de súbito na cama se protegendo com o lençol totalmente aterrorizada.
- não vou machucá-la – disse ele baixinho
A mulher não respondeu, tampouco relaxou.
- entende oque estou dizendo? – perguntou ele lentamente – você fala minha língua?
- Missä olen? – perguntou a mulher aos sussurros. O conde sorrio ao ouvir o som de sua voz.
- Está na minha casa – disse ele – consegue falar minha língua?
Ela pensou por alguns instantes – Ja, ich kann – respondeu ela em alemão mas com um forte sotaque.
O conde suspirou. – qual o seu nome?
- Porque estou aqui? – perguntou a mulher ainda assustada.
- você estava lá fora, bateu na minha porta e pediu para entrar, não se lembra?
Ela franziu o semblante tentando se lembrar e então tampou o rosto com as mãos
- es tut mir leid – se desculpou ela – eu não sei mais para onde ir
- não se preocupe, eu não sei do que você esta fugindo, mas esta a salva aqui.
Ela o encarou com seus olhos esverdeados como quem tenta se convencer de que esta segura, mas ainda estava agitada, nervosa e amedrontada.
- kiitos – agradeceu ela e então corando respondeu – dunke chön
O conde sorrio fascinado para ela – qual o seu nome?
A mulher pensou por algum tempo antes de responder e então suspirou
- Anne, Anne Nivyeska
O conde suspirou – Finlandesa?
Ela assentiu cabisbaixa.
- oque esta fazendo aqui na Romênia? – perguntou ele curioso, tudo naquela mulher o interessava. Ela era estranha para ele.
- não quero falar sobre isso – pediu ela choramingando
- tudo bem  - ele se aproximou dela e lentamente ergueu a mão para tocá-la. Ela se afastou com medo – keine angst – ele a tranqüilizou e então tocou seu rosto lentamente.
Sua pele estava quente demais, estava febril talvez fosse pela chuva que havia tomado. Ela se afastou de seu toque gelado mas quando ele a tocou novamente ela nada fez, apenas o observou em silencio.
- meu nome é Tilo – disse ele sorrindo tranqüilizador para ela – Tilo Heiselmann Wolff.
Ela assentiu e seus olhos piscaram pesarosos, o cansaço a dominava.
- schlafen – pediu ele – precisa descansar
Quando ele se levantou ela o segurou pelo braço
- não me deixe sozinha – pediu ela atordoada – ich bitte
Ele assentiu e se sentou novamente
- ficarei aqui ao seu lado – respondeu ele sorrindo.
Passaram-se horas desde que a estranha mulher havia adormecido. O conde Heiselmann continuava olhando para ela sem piscar, encantado com sua beleza e coragem.
- do que você esta fugindo? – perguntou-se o conde num sussurro baixo.
No entanto a presença da mulher em sua casa, pior em sua cama, não lhe era nada confortável, houve um tempo em que se sentiria atraído apenas pelo corpo de uma mulher, mas agora o desejo por sangue sempre encobria qualquer desejo carnal.
O cheiro que recendia dos cabelos da mulher desfalecida era-lhe tentador, queimava sua garganta e para piorar ele não havia se alimentado naquele dia.
Quando a boca ficou seca e as presas começaram a se alongarem sozinha o conde Heiselmann se levantou num rompante e se retirou do quarto. Não podia se imaginar tocando aquela mulher que ao que parecia já havia sofrido tanto.
Desceu as escadas e se apressou em achar uma garrafa de whisky, não se preocupou em pegar um copo, virou-a na boca bebendo incessantemente. A bebida era a única coisa que aplacava a sede por sangue, o único antídoto para a sua maldição.
Por muito tempo ajudou-o na convivência com Sharon, sabia que ajudaria agora.
Por fim sentou-se em sua habitual poltrona e esperou que a jovem acordasse.
                                                                              ***

Anne acordou e sua cabeça doía, abriu os olhos e não reconheceu o quarto bonito e luxuoso onde se encontrava. Mas estava tão escuro, não podia ainda ser noite, sentia como se tivesse dormido por horas. Notou então as grossas cortinas que cobriam todas as janelas. Deu graças a Deus por estar abrigada e longe da terrível tempestade que a perseguiu durante toda a noite. Tentou se recordar de como foi parar ali, se levantou devagar se sentando na cama, encarou a cadeira ao lado da cabeceira e lembrou-se vagamente de que havia um homem ali, um homem gentil que a acolheu da tempestade e lhe deu abrigo.
Mas onde ele estava? Quem era ele?
Lentamente toda a paz de espírito foi abandonando sua mente, e se ele não fosse confiável?
e se conhecesse os homens que a perseguiram por toda a noite? E se ele a entregasse a eles? Não podia se sentir segura na casa de um estranho, não fazia sentido.
Levantou-se num rompante e só então se deu conta de que estava completamente despida, apenas uma velha camisola velha, rasgada e encardida cobria seu corpo. Não houve muito tempo para fazer as malas, achou que jamais conseguiria fugir, por um tempo acreditou que morreria naquele lugar, até que a oportunidade surgiu. Não foi uma fuga fácil e não tinha certeza de que havia acabado. E se aquele homem misterioso fosse um deles?  Como fugiria?
Alguém bateu na porta e o coração de Anne foi a boca, pegou a primeira coisa que viu na frente para se defender, um castiçal de ouro e pesado.
A porta se abriu devagar e Anne se preparou para atacar, foi então que o viu. O homem que a salvou, que a abrigou, e ele era lindo. Seu coração oscilou mais suas mãos continuaram a sua frente defendendo-se com o castiçal como se fosse uma arma perigosa.
O homem olhou para ela dos pés a cabeça, parando os olhos em suas mãos e então levantou as próprias mãos para cima mostrando que estava desarmado, num gesto de rendição.
- não vou machucar você – disse ele e sua voz era como veludo, doce e suave, era alemão, pode notar rapidamente, nenhum outro poderia falar um alemão tão perfeito.
- quem é você? – perguntou Anne, a voz tremula.
- acho que sou eu quem deveria fazer essa pergunta – respondeu ele com um sorriso simpático e divertido no rosto. Ele deu um passo para frente, oque não passou despercebido por ela.
- fique longe de mim – gritou ela – não se aproxime.
Ele parou sorrindo – tudo bem. Mas se eu quisesse machucá-la não acha que eu já o teria feito enquanto dormia indefesa em minha cama?
Anne arfou cogitando a idéia, como pode ser tão descuidada?
- porque não me diz do que está fugindo? Assim quem sabe eu possa ajudá-la?
O homem se aproximou de Anne sorrateiramente e quase como num piscar de olhos ele tirou-lhe o castiçal das mãos.
- como vou saber se não é um dos clientes de Laurentiu? – perguntou Anne
- não sei quem é Laurentiu, não sou um dos clientes dele
- como posso acreditar em você? – perguntou ela amedrontada
Ele sorrio e os olhos dele brilharam como estrelas para ela.
- diga-me do que está fugindo Anne
Ela se surpreendeu ao ouvi-lo chamá-la pelo nome.
- como sabe meu nome?
- você me disse ontem a noite antes de adormecer, não se lembra?
Ele a encarou por alguns segundos, seus olhos escuros eram tão lindos, ela desviou o olhar para as mãos e negou com a cabeça.
- então não se lembra de mim?
Ela o olhou – lembro-me que estava sentado ao meu lado.
- eu fiquei ao seu lado por horas, esperando que acordasse e que me contasse o porque de ter batido em meu castelo numa tempestade no meio da noite.
- eu não sei oque dizer – disse ela – eu estava fugindo.
Ele se aproximou ainda mais e a tocou levemente o rosto, suas mãos eram extremamente frias, mas eram também macias.
- não precisa me contar nada agora Anne – ele sorrio – só precisa saber que está segura aqui e que não vou fazer mal algum a você.
Ela não sabia dizer por que mas acreditou nas palavras daqueles homem estranho.
- porque não toma um banho? – ofereceu ele – não tenho roupas para lhe oferecer a menos que aceite as minhas, não ficarão tão bem em você mas acredito que ficará melhor do que está camisola imunda que está usando.
Anne sentiu seu rosto esquentar – dunke chön
- Trarei a água em alguns minutos, não tenho criados então você terá que se ajeitar sozinha. O banheiro fica na terceira porta a esquerda no corredor, deixarei a água lá junto com uma muda de roupas. Quando terminar desça, arrumarei algo para você comer.
Ele se virou e estava se retirando quando Anne o chamou.
-  qual é o seu nome?
Ele sorrio – Tilo
- apenas Tilo?
- apenas Tilo.
Anne ficou parada por alguns segundos tentando compreender os motivos que levava aquele homem estranho a ser tão bondoso com ela. Fazia muito tempo que alguém tinha se importado com ela, cuidado dela ou até mesmo olhado para ela como aquele homem fez.
Sorrio para o quarto estranho a sua volta e mesmo que seu coração ainda estivesse amedrontado, se sentiu melhor. Um pequeno fio de esperança se alojou em seu peito e ela sabia que era ridículo se sentir daquela forma, pois logo teria que partir e enfrentar as ruas frias e sombrias como fizera na noite anterior. O sorriso desapareceu de sua face.
Suspirou profundamente e saiu do quarto seguindo a direção que o homem havia lhe dito.
Entrou no enorme banheiro luxuoso e encontrou esperando por ela uma banheira cheia, a fumaça que subia da água fazia com que o banho fosse tentador. Fechou a porta e despiu-se dos trapos velhos que usava e permitiu-se entrar na banheira. A água morna abraçou seu corpo quando se deitou, seus nervos relaxaram e ela se sentiu muito melhor.
                                                                             ***

O conde Heiselmann se encontrava ao piano mais uma vez, o dia estava finalmente amanhecendo, fora uma longa noite. Não o incomodava o raiar do dia, o sol não o incomodava ali, com portas, janelas e cortinas fechadas. Estava protegido e pela primeira vez em muito tempo se sentia menos infeliz, menos sozinho, de alguma forma.
Talvez fosse aquela mulher misteriosa que se banhava em seu banheiro que causou-lhe tal estado de espírito, mas havia em seu coração um fio de luz, o qual a muito tempo havia sido encoberto pela dor e tristeza desde que abandonara sua princesa a 40 anos atrás.
- Anne – sussurrou o conde baixinho – quem é você?
O conde podia ouvir cada respirar dos pulmões de Anne, cada gota de água que escorria por seu belo corpo e mais ainda, podia ouvi-la cantando baixinho enquanto se banhava.
Nossa, como a voz de Anne era bonita, o conde se sentiu anestesiado por aquela voz, era firme, decidida, mas ainda conservava um fio de inocência e medo.
Cantava uma canção triste em sua língua natal, uma canção sombria e extremamente melancólica. O conde apurou os ouvidos para captar cada palavra que dizia e surpreendeu-se com o fato de a mulher cantar seus sentimentos tão bem, o surpreendeu ainda mais que tais sentimentos fossem tão semelhantes com os dele.
- Meus pensamentos estão me perseguindo, são como ecos atrás de mim – cantava Anne em finlandês com uma voz suave e ao mesmo tempo firme – o fluxo corrente do meu sangue é a minha fonte de inspiração que me leva até você. Abandonando toda a esperança para trás, estou cercada. Estou presa pela liberdade, entorpecida e separada de mim.”
A canção sombria morreu lentamente na voz bonita de Anne e o conde Heiselmann pode ouvir o respirar ofegante e o leve som de gotas caindo na água. Anne estava chorando.
                                                                                 ***

Anne terminou de se banhar, passou a mão molhada pelo rosto limpando as lágrimas frias que em seus olhos estavam alojadas. Levantou-se da banheira e caminhou até um pequeno monte de roupas colocadas cuidadosamente numa cadeira. Em cima das roupas havia uma toalha branca, se enxugou e se vestiu rapidamente. Secou os cabelos com a toalha e com a mão na fechadura da porta exitou.  Estava terrivelmente envergonhada por abusar tanto da boa vontade daquele homem tão bondoso.
Suspirando abriu a porta e caminhou pelo corredor, desceu o enorme lance de escada que a levou a um enorme salão vazio. Olhou em volta mas não viu ninguém, apenas pode ouvir o som de um piano sendo tocado ao longe. Seguindo o som do piano atravessou o salão escuro e numa parte pequena de seu cérebro perguntou porque todas as cortinas estavam fechadas. Lhe faltava o ar ali dentro daquele castelo estranho, como alguém podia viver daquela forma?
Seguiu por outro corredor, e depois outro que a levou até outro salão ainda maior encontrando o estranho homem sentado à um velho piano negro, tocando distraidamente.
Pigarreou para ser ouvida e o som do piano cessou quando o homem se levantou e se virou para ela. Ele a olhava com olhos alegres, sorrio para ela examinando-a de cima a baixo.
Anne sentiu seu rosto corar, não estava acostumada com aquele tipo de olhar.
- devo dizer que minhas roupas lhe caíram muito bem – disse o homem sorrindo, Anne forçou-se a lembrar o nome dele. Tilo, ele se chamava Tilo.
- Dunke – disse ela baixinho encabulada. A calça preta que usava ficara folgada em seu corpo, as barras tiveram que ser dobradas quase dois palmos para que não arrastassem no chão. O mesmo podia dizer das mangas da camisa branca que vestira, era grande e um pouco transparente, Anne jogara o cabelo para frente para que cobrisse qualquer parte do seu corpo que ficasse evidente por causa dessa falha de suas vestes.
- esta com fome? – perguntou Tilo a ela ainda com aquele sorriso bonito no rosto. Envergonhada fez que sim com a cabeça, ela sorrio para ela e então fez sinal com a mão para que ela o seguisse. Ela obedeceu voltando pelo corredor de onde viera, andaram alguns metros e então virarão em uma porta a esquerda que os levaram a uma grande sala de jantar, mas estava completamente vazia, sem pratos ou qualquer coisa que indicasse que alguém comeria ali. Passaram reto adentrando numa segunda porta, esta menor, e então chegaram ao que parecia ser a cozinha. Não havia nenhum tipo de panela do fogão a lenha, nenhum prato, nada. Tilo sorrio para ela como se lesse seus pensamentos e então se dirigiu a uma segunda outra porta, voltando com um grande pedaço de pão caseiro, e uma jarra com leite, um copo e uma faca. Ele colocou em cima da mesa.
- peço desculpas mas cheguei a cidade a pouco e ainda não tive tempo de fazer comprar, isso é tudo oque tenho no momento.
Anne sorrio para ele agradecida, não via um pedaço de pão e uma jarra de leite a tanto tempo que lhes pareciam um belo de um banquete.
- sente-se – pediu Tilo se sentando – sirva-se, você deve estar faminta.
E ela estava, seu estomago doía de fome. Ela se sentou e sem se dar conta pegou o pão e rasgou um pedaço com as próprias mãos. Colocou um grande pedaço na boca e estava saboreando-o quando notou que Tilo a observava rindo.
- ich leid – desculpou-se ela dando conta do quão mal educada estava sendo.
- não se preocupe, coma – disse ele.
                                                                            ***

- porque não me diz quem é Laurentiu? – pediu o conde Heiselmann.
Anne o encarou assustada parando de comer imediatamente, como se o nome que pronunciara fosse uma ameaça.
- estou tentando ajudar – apressou-se em dizer o conde.
Anne o encarou por alguns segundos e depois desviou o olhar para as mãos que ainda segurava um pedaço de pão. Não disse nada.
O conde Heiselmann rio baixinho – ich leid – desculpou-se ele – não é da minha conta.
Anne terminou de comer em silencio.
- pode me dizer ao menos onde mora? Para que eu a leve para casa – pediu o conde.
Anne tornou a olhá-lo assustada e depois corou – eu.. eu não tenho para onde ir.
O conde Heiselmann a olhou surpreso – como não? De onde você veio? Onde esta sua família?
- na Finlândia – respondeu Anne baixinho, o conde pode ver lágrimas se formando em seus olhos. Ele suspirou.
- e oque você esta fazendo aqui na Romênia?
Anne não respondeu.
O conde se levantou e caminhou vagarosamente na direção da mulher assustada, ela não olhava para ele, estava envergonhada. Ele pegou em sua mão que repousava em seu colo e a puxou para que se levanta-se. Anne não o olhou nos olhos, ele tocou seu rosto levantando-o a medida que os olhos de Anne encontrasse os seus.
- sinta-se bem vinda para ficar o tempo que precisar – disse o conde sorrindo.
Anne o encarou surpresa – eu não quero incomodá-lo
- me incomodaria saber que uma mulher tão bonita está vagando sem destino pelas ruas, seria imperdoável de minha parte se a deixasse sair daqui sem um teto onde se abrigar.
Os olhos de Anne se encheram de lágrimas – dunke chön – agradeceu ela com um enorme sorriso nos lábios e lágrimas rolando por sua face – dunke chön – Subitamente o conde foi surpreendido pelos braços de Anne que o envolveram em um abraço apertado. A mulher repousou sua cabeça em seu peito e permitiu-se chorar.
O conde Heiselmann ainda surpreso prendeu a respiração e lentamente envolveu a mulher em seus braços com ternura. De alguma forma ela o recordou de sua filha, e a saudade o inundou como uma inundação, ele apertou Anne nos braços recordando do rosto de Sharon e uma lágrima caiu de seus olhos.

Livro 1: FASSADE Cap. 10




Capítulo 10
Hexe
(Bruxa)

- minha mãe era uma.. – Sharon exitou por alguns segundos
- uma bruxa – disse Demetra – ou Wiccana se preferir dizer assim.
- isso é estranho – disse Sharon olhando para as mãos
- não é oque você esta pensando querida – disse Demetra tranqüilizando Sharon – não é como as pessoas dizem, não fazemos o mal apenas protegemos.
- mas existem tantas histórias sobre bruxas – Sharon suspirou – a alguns dias descobri que meu pai era um.. – Sharon parou por um instante – bem você sabe, e agora você vem me dizer que minha mãe era uma bruxa, que você é uma bruxa.. isso é tão estranho.
Demetra assentiu – entendo. Mas veja bem, sua mãe nunca quis ser uma bruxa ela nunca terminou o treinamento e nunca fez nenhum feitiço, se isso tranqüiliza você.
- mas e quanto a você? Oque você fez aquela noite, você não deixou meu pai atravessar a campina. – Sharon sentiu um aperto no coração se lembrando do que aconteceu naquela noite, da forma como seu coração desejou estar com seu pai.
- sou uma Wiccana Sharon, assim como minha mãe era, e a mãe dela também foi – Demetra sorrio para Sharon – assim como você também é.
Sharon arregalou os olhos – não eu não sou, não posso ser.
- esta no seu sangue querida, não pode fugir disso
- então eu não posso fugir do que meu pai é, meu sangue é o sangue dele. Devo acreditar que sou um mostro como meu pai também?
Demetra suspirou pesarosamente – você não é uma vampira Sharon, se fosse não teria cruzado aquela barreira na campina. Mas não nego que o sangue de seu pai corra em suas veias. E não vou dizer que sei oque isso quer dizer, porque eu nunca conheci alguém como você.
- alguém como eu? – Sharon se sentiu confusa
- alguém que fora gerado por um humano e um vampiro
Sharon sentiu seu estomago revirar. Não gostava de pensar em si mesma como uma aberração.
- há outros como meu pai?
- muitos – disse Demetra – e eu já cruzei com eles, são perigosos, traiçoeiros e acima de tudo sedentos de sangue.
- e nunca nenhum deles teve um filho com um humano?
- não que eu saiba – Demetra suspirou – um humano comum não sobreviveria a gravidez, seria impossível.
- eu não estou entendo, não pode ser impossível, eu estou bem aqui na sua frente.
- querida sua mãe não era um ser humano comum, ela era uma Wiccana, e isso faz dela um ser humano mais forte, protegido pela natureza. Acredito que foi isso que salvou você e sua mãe.
Sharon suspirou – é muita coisa para digerir
- eu sei, por isso esperei todos esses dias para lhe contar. Você precisava saber a verdade querida.
- a verdade?
- sim, sobre quem você realmente é.
- eu não quero ser uma bruxa – disse Sharon – eu só quero ser eu mesma.
Demetra sorrio para ela – então seja você mesma querida. Você tem o direito de recomeçar a sua vida da forma como achar melhor. Eu só quero que você seja feliz.
                                                                         ***


Romênia, Bucareste

O Conde Heiselmann chegou a cidade de Bucareste por volta das oito da noite. Havia sido uma viajem longa. Detestava viajar pois precisava ficar tempo demais com os humanos e não podia descansar devidamente, visto que não tinha como carregar seu caixão consigo.
Passava os dias trancado em seus aposentos no imenso navio, saia apenas a noite quando a fome batia e se alimentava com cautela, sempre de mulheres que se agraciavam com sua presença. Sempre apagava as memórias de suas mentes depois.
A carruagem parou em frente a sua antiga residência. O castelo de Stirbei fora construído no século XIV e pertencera a grandes homens de posses do passado. Um deles era o pai de Elizabeta, um grande conde chamado Dragus Heiselmann II.
O conde sorrio irônico. Não foi nada difícil para ele usurpar a identidade do pai de Elizabeta, quando todos estavam mortos. Dessa forma obteve seu status e posses e jamais voltou a usar seu verdadeiro sobrenome, este de linhagem pobre e sem peso social.
Wolff não existe à mais de quatro séculos – pensou o conde que pegava sua pequena bagagem da carruagem e com um gesto seco com a cabeça se despediu do cocheiro que pareceu feliz em sair da presença do estranho homem.
O portão rangeu quando foi aberto, o quintal estava todo tomado pelo mato, ninguém cuidava daquele lugar à anos. Buscou uma chave no bolso do paletó e abriu a porta de entrada.
Seus passos ecoaram pelos corredores vazios. Fazia mais de 50 anos que não entrava naquele lugar e também tinha certeza que ninguém entrara ali. Estava tudo coberto de poeira e escuridão. Tal como seu coração.
Aqui, novamente sozinho – pensou o conde – oque é reservado para mim nestas noites solitárias?
O conde foi até a adega, sabia que encontraria bons vinhos. E ficava feliz pelo fato dos anos apenas deixá-los ainda mais saborosos. Abriu uma garrafa empoeirada, pegou uma taça e serviu-se. Sentou-se numa poltrona velha comida por traças, cruzou as pernas e ascendeu um charuto. Olhando para o nada a sua volta tomou um gole de vinho.
                                                                              ***

Alemanha, Berlin
Século XIX, 1803
40 anos depois..
Sharon se olhava no espelho, procurava qualquer sinal de envelhecimento, talvez uma ruga, um traço que fosse, mas seu rosto continuava tão jovem quanto sempre foi.
40 anos se passaram desde os acontecimentos terríveis da noite do baile de seu aniversário. Hoje Sharon estava completando 60 anos. Afinal a maldição de seu pai de alguma forma fora passada para ela. Não era natural que não envelhecesse, não era natural que nunca adoecesse, e dessa forma não se sentia normal.
Durante todos aqueles anos Sharon viveu com sua avó mas Demetra havia morrido tinha oito meses. Sharon viveu alguns anos com a avó na cabana e depois a convenceu de ir morar na cidade, perto da civilização. Com as economias de Demetra compraram uma casa modesta, Demetra vendia as verduras e legumes que plantava na floresta como sempre fez e Sharon conseguiu um trabalho numa pensão perto da estrada. Vivendo longe da auto sociedade, ninguém notava Sharon e muito menos a reconheciam. Mas o tempo passava por Sharon sem deixar marcas e assim ela era obrigada a mudar de trabalho, algumas vezes precisou mudar-se, vendo sua casa e comprando outra, sempre por menos do que valia. Fugindo da maldição que a assombrava e lutando para conseguir uma vida normal.
E dessa forma, vivendo cada dia como se fosse o único, tentando não se recordar da vida que tinha antes, Sharon seguiu em frente reunindo os pedaços de seu coração e se tornando forte para a vida que ao que parecia não teria um fim para ela.
Demetra estava certa quando disse que Sharon não era uma pessoa comum, as coisas simplesmente aconteciam com ela. Os animais se curvavam para ela, as flores floresciam..
Sharon era uma Wiccana e durante toda a sua vida sua avó lhe ensinou a respeitar a natureza e a usá-la como proteção contra qualquer coisa que a tentasse feri-la.
Eu não sou uma bruxa – pensou Sharon enquanto admirava seu rosto no espelho – mas também não sou uma vampira. Oque eu sou?
Estava na hora de começar a viver normalmente, e se aceitar como uma bruxa não era o caminho certo para esse fim. Precisava deixar para trás essa parte de sua vida tanto quanto a quarenta anos atrás havia deixado para trás a vida que tinha com o pai. Os ensinamentos de sua avó foram importantes para que Sharon entendesse quem era, e o que poderia se tornar, mas ela não queria aquilo para si. Não queria viver fazendo rituais e encantamentos, queria ser normal. Aos seus olhos ser uma bruxa era tão assustador quanto ser uma vampira.
Vampiros. Passou parte de sua vida tentando entender oque eram, por que existiam e se seria possível que alguns deles não fossem tão cruéis quanto nas histórias que a avó lhe contava.
Nunca encontrara nada além de mais perguntas. Desejou em algum momento conhecer um, fazer perguntas, tinha medo que em algum momento de sua vida a sede por sangue nascesse dentro de si, medo de se tornar um monstro como seu pai. Nunca encontrou ninguém, ou talvez nunca soube reconhecê-los, afinal não vivera com seu pai por vinte anos acreditando que fosse tão humano quanto ela? Sharon riu irônica.
Será mesmo que sou humana?, perguntou-se. Existe mesmo algo humano em mim?
Existe algo humano em meu pai?. Sharon suspirou pesadamente. Não sabia a resposta para estas perguntas. Na maior parte do tempo tentava não pensar, mas as vezes era impossível.
- papa – sussurrou Sharon. Fazia quarenta anos que não via seu pai e durante todo esse tempo não houve um dia se quer em que não pensou nele. Fantasiou conversas em sua mente para que soubesse oque diria quando o reencontrasse, desejou secretamente que ele fosse procurá-la, mas tal coisa nunca aconteceu. – você me esqueceu.
Uma lágrima caiu dos olhos castanhos de Sharon, os mesmos olhos de seu pai a olhavam com pena. A saudade não diminuiu durante o passar dos anos, tampouco o ódio que sentia.
A traição ainda queimava em seu coração, mas daria qualquer coisa para poder vê-lo de novo.
E as lembranças.. elas queimavam dentro de sua memória. As vezes na calada da noite Sharon se prendia as lembranças de seu pai, a imagem de seu rosto, sua voz que cantava sussurrando para ela canções de ninar e naqueles momentos ela quase podia sentir seu toque.
- você é um fantasma assombrando meu coração – sussurrou Sharon para o espelho e o quarto vazio. – toda a minha vida eu dei a você e você me traiu.
Subitamente uma lembrança agarrou a mente de Sharon e a fez tremer.
Fora a quarenta e cinco anos atrás, num dia frio e chuvoso. Estudava com o pai em seu quarto.
Países da Ásia, já haviam estudados vários países mas finalmente chegara naquele que mais gostava. Rússia.
- quero conhecer a Rússia papa – disse Sharon enquanto anotava os nomes dos estados em seu caderno.
- e porque tanto interesse na Rússia? – perguntou ele curioso
- não sei, gosto do nome, e das coisas que você fala sobre ela – respondeu Sharon
O pai sorrio – você sabia que tecnicamente a Rússia também faz parte da nossa Europa?
Sharon balançou a cabeça negando – não faz não, aqui diz que fica na Ásia.
O conde riu. – ela fica nos dois. Portanto quem mora lá são parte Europeus como nós, e parte Asiáticos como os chineses.
- ah – Sharon não sabia oque responder.
- como sabe tanta coisa papa? Você já esteve lá?
- Eu estudo bastante, todos os dias exatamente como quero que faça. E sim eu já estive lá.
- é bonito? – perguntou Sharon curiosa e entusiasmada
Sim é um lugar muito bonito. Mas tem uma cidade em particular que me encanta, é fantástica.
- e qual é?
- Ekaterinodar – o pai riu quando viu a cara de Sharon ao ouvir o nome – sim é um nome complicado. Mas a cidade é maravilhosa, cheia de montanhas, é fria, bastante neve e sol quase sempre esta coberto por lá com nuvens e por isso posso sair durante o dia e aproveitar a paisagem.
- por que nunca me levou lá papa? – perguntou Sharon
- você quer conhecer?
Sharon balançou a cabeça assentindo entusiasmada
- pois então iremos.
- quando?
- nas férias – respondeu o pai que foi em seguida surpreendido com um abraço caloroso de Sharon que em seguida se jogou em seu colo o beijando o rosto com carinho.
Sharon suspirou e travou o queixo tentando não se entregar as lágrimas, mas a lembrança era forte demais. Se lembrava com perfeição daquela viajem, de como foi passar um mês sozinha com o pai em Ekaterinodar, uma cidade tão linda quanto ele havia dito.
Sharon limpou as lágrimas e olhou no relógio que marcava oito da manhã, terminou de se aprontar e saiu para mais um dia de trabalho num restaurante perto de sua nova casa.
Embora  o castelo de Neuschwanstein permanecesse fechado e esperando pelo retorno de sua herdeira, Sharon não mais se sentia como parte daquele lugar. Mesmo que dissesse que era a herdeira do conde Heiselmann quem acreditaria? Ela deveria aparentar ter 60 anos agora e seu rosto continuava tão jovem quanto o da garota de 20 anos que uma vez fugiu a cavalo daquele castelo. Não, ela não podia voltar. Não era mais uma Heiselmann.
Sharon Den Adel era seu nome agora, o mesmo de sua mãe, e tudo oque ficara para trás ficara para trás.