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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Livro1: FASSADE Cap.9




Capítulo 9
Ein Neuer Anfang
(Um Novo Começo)

Sharon ouviu o barulho de pratos e talheres sendo postos a mesa e por um segundo pensou que pudesse estar em casa. Abriu os olhos lentamente e olhou a sua volta. Não fazia idéia de onde estava.
- finalmente acordou – disse uma voz de mulher a sua esquerda e Sharon deu um pulo se levantando em sobressalto.
- Calma menina, não vou te fazer mal – Sharon olhou para a mulher a sua frente. Era alta e magricela, devia ter uns 50 anos, talvez menos. Vestia-se muito mal, toda esfarrapada e o cabelo era louro amarelado todo desgrenhado. Usava um óculos muito grande.
- onde estou? – perguntou Sharon. Seu corpo todo doía.
- esta na floresta, na minha casa – disse a mulher sorrindo gentil para ela – venha, preparei algo para você comer, deve estar faminta. Dormiu a tarde toda.
A tarde toda? Por quanto tempo havia dormido?
- por que está me ajudando?
A mulher não olhou para Sharon. Colocou um pouco de sopa num prato e puxou um banco para que se sentasse.
- achei que precisasse de ajuda – disse ela enquanto se sentava e se servia – estava errada?
- não, mas.. – Sharon se sentou e pegou a colher, estava realmente faminta. – como me trouxe para cá?
- o alazão me ajudou – disse a mulher enquanto tomava sua sopa fazendo barulho.
- Schatten? – perguntou Sharon preocupada – onde ele está?
- o cavalão branco? Está amarrado lá fora, já dei água e o alimentei, não se preocupe.
Sharon suspirou. – Dunke chön
A mulher sorrio para ela e continuou comendo em silêncio.
- posso saber seu nome? – perguntou Sharon quando terminou de comer.
- talvez, se me disser o seu.
Sharon sorrio. Apreciava a companhia daquela mulher estranha.
- meu nome é Sharon.. – ela parou por um segundo lembrando-se do nome que lera no diário de seu pai. O nome de sua mãe. – Sharon Den Adel.
A mulher a olhou fixamente por um segundo – Demetra, só Demetra.
Sharon assentiu.
A mulher terminou de comer, se levantou e começou a recolher os pratos.
- posso ajudar? – pediu Sharon
- não com isso – disse Demetra – tenho que colher alguns legumes da minha horta. Pode me ajudar com isso?
Sharon assentiu embora não fizesse idéia de como fazê-lo.
A mulher lavou os pratos numa bacia d’água e então se virou para Sharon.
- você por acaso não tem uma trouxa de roupas escondida em algum lugar aí não é?
Sharon negou. Demetra suspirou.
- teremos que dar um jeito nisso.
A mulher foi até oque poderia ser seu quarto. Era difícil de dizer. Vivia em uma cabana feita com madeira. Cheia de badulacas e plantas e coisas que Sharon não sabia nomear. Voltou com um vestido marrom velho e desbotado.
- É tudo oque tenho que deve servir em você. Pela camisola que esta vestindo sei que é acostumada com tecidos caros, mas isso é tudo oque tenho.
Sharon pegou o vestido corando – Dunke.
 - venha – pediu Demetra quando Sharon tinha terminado de colocar o vestido
Sharon a seguiu para fora da cabana. E viu-se no meio da floresta escura. Mas não tinha nada de escura nela, era iluminada, verde. Linda.
- você mora aqui? – perguntou ela admirada – no meio da floresta?
Demetra assentiu e seguiu contornando a cabana. Sharon a seguiu até a horta onde havia muitos legumes e verduras plantados. Ao olhar percebeu que tinha mais hortas, espalhadas por toda a planície onde não havia arvores. Era como uma pequena campina.
Ao longe avistou Schatten. Correu até ele que relinchou quando a viu.
Sharon abraçou seu cavalo com força, ele era a única coisa de sua vida que ainda permanecia.
Passou alguns minutos ali parada ao lado de seu cavalo, lembrou-se do dia que o pai o dera a ela, era seu aniversário, ficara tão feliz, Uma lágrima caiu de seus olhos. Limpou-a rapidamente e foi surpreendida com um pequeno pássaro que sobrevoou ao seu lado pousando em seu braço.
- oque você está fazendo aqui? – perguntou Sharon ao pequeno rouxinol que havia adotado alguns dias atrás. – como me achou?
O pássaro assoviou para ela em resposta e bicou com carinho sua mão.
- você parece se dar muito bem com os animais, eles gostam de você – disse Demetra ao longe - isso é bom. Venha querida – chamou Demetra.
Sharon caminhou até a mulher e agachou-se ao lado dela imitando-a desajeitada enquanto recolhia alguns tomates e colocava-os numa cesta. O rouxinol agora repousava em seu ombro.
Demetra sorrio para ela – você não é acostumada com esse tipo de dever não é menina?
Sharon fez que não com a cabeça.
- diga-me oque uma moça como você está fazendo perdida na floresta? – Demetra continuava com os olhos em seu dever.
Sharon disfarçou a vergonha que sentia – como assim uma moça como eu?
- olha, eu sei reconhecer uma gran fina quando vejo uma.    
Sharon suspirou – eu estou fugindo.
Demetra a encarou preocupada – do que você está fugindo minha querida?
- do meu pai – disse Sharon sentindo as lágrimas se formando em seus olhos.
Demetra se sentou no chão largando a cesta e encarou Sharon.
- porque está fugindo do seu pai?
- se eu contasse você não acreditaria – disse Sharon ainda com os olhos nos tomates que colhia.
- experimente – pediu Demetra.
- é uma longa história.
Demetra sorrio para Sharon – como ele se chama?
- Tilo – respondeu ela e então suspirou. – Tilo Heiselmann – respondeu Sharon
Demetra se pôs em pé num sobressalto – como você disse?
Sharon também se levantou agora assustada com a reação da mulher a menção do nome de seu pai.
- qual o problema? – perguntou Sharon.
- você é a filha do Conde?
Sharon assentiu e alguma coisa, talvez o medo que via nos olhos da mulher, lhe dizia que a mulher sabia sobre seu pai. mas como seria possível? Ninguém sabia.
- ele está atrás de você? – perguntou Demetra – diga-me!
Ahn, eu não sei. Acho que não - mentiu Sharon sabendo que se dissesse a verdade. Que provavelmente o pai estava procurando-a, a mulher não a ajudaria mais, e não tinha para onde ir.
- tem certeza disso? – perguntou a mulher
- ele me deixou partir – disse Sharon tentando convencer a si mesma – ele não vai me procurar.
A mulher olhou para Sharon com receio – você é a filha de Evelyn não é?
Sharon assentiu.
- conheceu minha mãe? – perguntou Sharon surpresa
- Evelyn era minha filha – disse a mulher agora com lágrimas nos olhos.
                                                                          ***
 

Quando a noite caiu o Conde Heiselmann arrastou os corpos dos criados até a fronteira da florestas e ali os enterrara. Ninguém daria por falta deles. Eram criados, pobres, sem família. Ninguém se importaria.  Agora sentado em sua poltrona no imenso salão onde na noite anterior havia dançado com a filha, bebia uma dose de whisky e fumava um charuto. Beber e fumar eram os únicos prazeres humanos que lhe restara, nada mais era saciável a ele, mesmo o corpo de uma bela mulher não lhe era suficiente. Talvez fosse porque o único corpo que desejava era aquele que nunca chegou possuir. Fechou os olhos relembrando do rosto de sua Elizabeta.
Tão linda, tão pura. Ele nunca chegou tocá-la.
O castelo estava vazio e silencioso, estava feliz por não ter que aturar os barulhos dos criados. Não se arrependeu de matá-los sequer por um momento. Se não tinha mais sua filha, não tinha mais motivos para continuar fingindo que era humano.
Estava sozinho como sempre esteve desde que ganhara a imortalidade. Os anos ao lado de Sharon foram a única coisa capaz de iluminá-lo mas agora que se fora, nada restava.
Milhares de vezes naquele dia que acabara ele, sem conseguir dormir, amaldiçoou o sol e ainda assim o cobiçou. Desejara colocar um fim em sua existência mas não o fez. O sol era a única forma que conhecia de acabar com sua vida. Agora vislumbrando o salão vazio desejava ter a coragem necessária. Não havia mais razões e nem significados.
Sua mente ágil buscava soluções. Milhares de vezes quis procurar por Sharon. Seu coração de pai se perguntava onde estava, se estava bem, se estava abrigada. A noite estava particularmente fria, temia por sua saúde. Mas não o fez. Não suportava a idéia de vê-la olhá-lo de novo com aqueles olhos de ódio e medo. Sabia que a tinha perdido e que nunca mais voltaria a vê-la.
Tentou convencer-se de procurar pelos seus. Ele não era o único, embora não sabia se fora o primeiro. Havia mais como ele, embora todos os que encontrou durante seus séculos de vida eram muito diferentes dele. Criaturas irracionais que viviam a caça e a morte apenas. Sem pensamento ou sentimento. Se perguntou naquele momento se era naquilo que se tornaria se cedesse aos seus instintos como fizera na noite anterior. Matar era o único prazer que lhe restara.
Em fim decidiu que não poderia mais viver naquele castelo, não sem Sharon. E além do mais fazia décadas que desejava a Romênia e visitar o túmulo de Elizabeta. Se este ainda existir – pensou o conde pesaroso. Faziam quatrocentos anos desde que sua amada havia morrido, e nunca houve em todo esse tempo um dia em que não pensou em seu rosto ou sentiu falta de sua voz.  Por fim levantou-se e subiu as escadas se direcionando para seus aposentos, onde fez uma pequena mala com oque lhe era necessário. Desceu ao seu escritório e escreveu rapidamente uma carta ao tabelião de Berlin na qual dizia que precisara viajar por motivos pessoais e que não sabia quando voltava. Escreveu que tomaria conta de seus negócios a distancia e que ficaria agradecido se aquilo fosse mantido em segredo pelo maior tempo possível. Por fim lacrou a carta com seu selo e um grande T. H.
Tomou um banho, vestiu-se e estava descendo quando se permitiu ceder aos desejos de seu coração entrando no quarto de Sharon. O cheiro doce da filha exalava dos lençóis. Olhou para a cadeira ao lado da cama onde repousava o vestido que lhe dera na noite anterior. Era um vestido tão bonito, ela ficara tão linda dentro dele. Aproximou-se abaixando-se e permitiu levar o nariz até a saia do vestido cheirando o perfume de Sharon. Uma lágrima caiu dos seus olhos.
- oque você fez Sharon? – perguntou o conde ao quarto vazio.
Por fim suspirou levantando-se e foi até a penteadeira, ao encontrar oque buscava guardou-o no bolso e com um ultimo olhar para o quarto fechou a porta e desceu as escadas.
Pegando um casaco e seu chapéu atrás da porta saiu pelos fundos, se dirigiu ao celeiro, selou seu cavalo, amarrando com cuidado sua mala para que não se soltasse, montando-o partiu na noite sem olhar para trás se infiltrando na floresta.
A floresta era escura e sua presença ali deixava os animais inquietos. O próprio cavalo que montava não o obedecia perfeitamente tamanho seu medo. Não lhe era estranho essa reação, os animais reconheciam seus predadores, eram muito mais inteligentes do que os humanos.
Porém mesmo naquela escuridão seus olhos enxergavam perfeitamente bem os rastros deixados pelos cascos de Schatten, ele os seguiu.
Algum tempo depois, o conde se preocupou dando-se conta de que a filha havia se infiltrado demais na floresta e que poderia estar perdida. Apurou os ouvidos tentando ouvi-la mas nada escutou. Farejou-a como um predador, era mais fácil caçá-la agora que havia provado seu sangue, ele podia sentir seus instintos procurando pela presa. Mas o cheiro de Sharon era fraco e estava encoberto de alguma forma, como algum tipo de feitiço ele não conseguia dizer de onde o cheiro vinha.
Atiçando o cavalo ele mergulhou ainda mais na floresta, procurando, caçando a filha até que chegou a uma campina. Sabia exatamente que lugar era aquele e também sabia que não poderia atravessá-lo. Respirou profundamente sentindo o ar levar o cheiro de Sharon até seus pulmões. Sim, ela estava lá na velha cabana da maldita Wiccana.
Irado, atiçou o cavalo e correu para a cabana mas foi atingido por uma barreira invisível, o cavalo empinou relinchando, ele deu meia volta, tentou novamente, não conseguiu passar.
- verdammte hexe – gritou ele para a noite. Não conseguiria passar, aquela barreira era impenetrável. – Sharon verzeih mir – gritou o conde sabendo que a filha estava na maldita cabana e que podia ouvi-lo –  ich bitte tochter, Komm Zu Mir!
O som de sua voz ecoava na floresta mas não houve resposta. Ele sabia que ela não iria respondê-lo, por fim levou a mão ao bolso e pegou o medalhão que lhe dera no dia seguinte de seu nascimento, segurou-o com força.
- ich werde sie für die ewigkeit lieben – sussurrou o conde levando o medalhão a boca e beijando-o. O cavalo empinou novamente virando em volta, seus gritou havia assustado o animal, o conde suspirou e então lançou o medalhão com toda sua força. Com lágrimas no rosto o conde Heiselmann cavalgou pela floresta de volta a estrada, abandonando sua filha.
                                                                       ***

Sharon ainda tremia nos braços de sua avó. Seu coração lhe pregara muitas peças ao desejar correr para os braços de seu pai, mas teve medo, medo do que ele era.
- ele se foi – sussurrou ela para Demetra
- sim querida, ele se foi
Sharon se entregou as lágrimas, sabia de alguma forma que o pai havia partido e que não voltaria mais. Sabia que não o voltaria a vê-lo nunca mais e aquilo a enlouquecia.
- porque ele não veio se sabia que estou aqui?
- porque ele não pode atravessar a campina – disse-lhe a avó que mantinha Sharon em seus braços.
Sharon se desvencilhou dos braços de Demetra – preciso falar com ele – correu para fora da casa mas a avó a impediu.
- você não pode – disse Demetra pegando-a pelo braço – ele vai matá-la querida como fez com sua mãe.
- não, ele não vai – disse Sharon – ele poderia ter feito isso noite passada e não o fez, ele não vai me machucar – Sharon puxou o braço tentando se soltar
- não posso deixá-la ir – disse Demetra – acabei de encontrar você, não posso deixá-la ir com ele.
- ele é meu pai – gritou Sharon
- ele é um monstro, ele tentou te matar foi você mesma quem me disse
- eu preciso ao menos vê-lo mais uma vez – porém Sharon cedeu parando de lutar.
A noite estava fria e escura, tudo estava no mais completo silencio e por fim Sharon entendeu que não encontraria seu pai mesmo se quisesse. Ele já havia se perdido na noite.
- nunca mais voltarei a vê-lo – disse ela se sentando no chão – ele se foi
Demetra caminhou alguns metros para frente observando para ter certeza de que ele realmente havia desaparecido e foi então que viu algo brilhando na grama, abaixou-se e pegou um medalhão prateado.
- acho que isso é seu querida – disse Demetra entregando o medalhão nas mãos de Sharon.
Sharon encarou o medalhão e então o abriu, dentro dele havia um retrato seu de quando era apenas um bebê feito pelas próprias mãos do pai, ao lado gravado na prata a frase:
“ich werde sie für die ewigkeit lieben” – Eu te amarei para toda a eternidade – leu Sharon em voz alta – ele prometeu que me amaria e que me protegeria, ele prometeu.
Sharon colocou o medalhão em seu pescoço e se entregando as lágrimas envolveu-se com os braços para se proteger do frio, do medo e da dor.


                                                                     




Livro 1: FASSADE Cap. 8




Capítulo 8
Ganz Allein
(Completamente Sozinhos)


Sharon cavalgava na noite fria e silenciosa. As lágrimas eram incontroláveis. Tudo em que  acreditava, tudo oque mais amou na vida era uma mentira. Fora enganada, amedrontada e violentada pelo pai de uma forma que nunca imaginou que fosse possível.
As imagens do rosto do pai vinham a sua cabeça, os olhos assustadores, as presas terríveis.
Enquanto cavalgava sem destino pelas estradas escuras tudo oque conseguia pensar era que aquilo deveria ser um pesadelo, fechava os olhos pedindo a deus para acordar em sua cama macia ao som do piano que o pai tocava tão bem.  Mas era verdade.
A dor em seu pescoço e o sangue que escorria de sua ferida eram provas disso.
Porque?, perguntava-se Sharon, porque o destino teve que fazê-la sofrer tanto?
O cavalo corria velozmente, Schatten, era o seu nome. Seu pai o deu a Sharon de presente quando completou 15 anos. Ao contrário do que o nome dizia, era um belo cavalo branco. Agora ele a levava para o mais longe possível de sua casa, o som dos cascos batendo no chão era a única coisa que Sharon podia ouvir além de seu próprio choro.
Sharon direcionou Schatten para que a levasse  para o mais longe do castelo possível. Seguiu o único caminho que veio-lhe a mente. A floresta. Não sabia para onde ir. Não tinha dinheiro, não tinha comida, não tinha se quer uma muda de roupa. Mas nada disso importava agora. Tudo oque queria era se afastar daquela maldita cidade, daquele maldito castelo e daquele que um dia chamou de pai.
                                                                          ***

O Conde Heiselmann continuava parado, imóvel. Toda e qualquer emoção que pudesse sentir naquele momento estava entorpecida pela raiva e o ódio que sentia de si mesmo.
Seus pensamentos eram um turbilhão, fracassara em tudo em sua existência. Perdera o amor de sua vida, perdera sua humanidade tentando reencontrá-la e agora perdera sua amada filha.
Aquela deveria ser uma noite para a eternidade, a noite em que transformaria Sharon e juntos viveriam para sempre. Deveria ser perfeito mas o maldito destino destruiu todos os seus planos. Cada pensamento, cada momento que desperdiçou planejando aquela noite foram em vão, nada sobrou além do medo e da dor.
Lágrimas caiam de seus olhos ao se lembrar do que fora capaz de fazer para não perder sua filha, o ódio caia sobre si ao lembrar da expressão de medo nos olhos de Sharon. O sangue de sua filha ainda estava em seus lábios, o grito de dor ainda ecoava em sua mente.
Porque o destino teve que lhes fazer sofrer tanto? Oque restava para ele agora que sua princesa se fora? Viveria a eternidade sozinho? Quem agora o faria lembrar de sua humanidade?
A lembrança de Sharon com seu diário nas mãos queimava em sua cabeça, lembrava-se perfeitamente do momento em que deixou a maldita chave em cima da mesa, se pudesse voltar no tempo queimaria aquele maldito diário, mas esse poder não lhe fora ofertado.
- Sharon oque você fez? – lamentou-se o conde
                                                                           ***

A noite se estendia vagarosamente, Sharon estava cansada, tinha frio e já não sabia mais para onde estava indo. A estrada a sua frente era escura, não havia nenhum abrigo avista apenas nada. Continuou cavalgando mesmo sem saber para onde ir, o medo a fazia continuar em frente, medo de que o pai viesse atrás dela, que mudasse de idéia e a perseguisse.
Cavalgou por horas a fio e quando estava certa de que não podia mais continuar, adentrou a floresta que se estendia a sua direita e procurou abrigo entre as árvores.
O frio a torturava, a camisola fria que vestia não era suficiente para aquecê-la. Desceu do cavalo e o amarrou ao galho do enorme carvalho a sua frente. Sentou-se sob suas raízes.
A floresta estava escura e silenciosa, exceto pela luz do luar e dos sons dos pássaros noturnos que cantavam. Embora estivesse sozinha e perdida naquela floresta sombria, Sharon se sentia protegida. Não era um sentimento racional, mas sentia-se confortável entre as arvores.
Lentamente o medo foi se esvaindo de sua mente, e tudo oque restou foi um sentimento de perda que jamais tinha sentido. Perdera aquele que mais amou em sua vida, seu pai, seu amigo, seu protetor. Estava sozinha, por conta própria e não sabia para onde ir ou oque fazer.
Levou a mão até o pescoço que doía e sangrava. Acreditava que jamais poderia tirar aquela lembrança da cabeça, a lembrança do pai a mordendo, a machucando, a violentando.
No entanto uma lembrança conseguia superar as outras, e atormentava sua mente.
A expressão de dor no rosto de seu pai, as lágrimas em sua face quando libertou-a.
Não conseguia entender como podia-se sentir culpada mesmo depois de tudo oque aquele homem fez para ela, mas se sentia. Culpada por fazê-lo sofrer quando tudo oque ele lhe deu em sua vida fora amor e carinho.
- eu prometi a ele – disse Sharon baixinho – eu prometi que nunca iria deixá-lo
As lágrimas eram incontroláveis, não conseguia entender porque se sentia daquela forma, mas se sentia culpada, se sentia uma traidora.
- mas foi ele quem me traiu, foi ele quem mentiu, quem me machucou
As palavras saiam de sua boca como uma acusação, dizia tudo oque não teve coragem de dizer naquele momento antes de partir.
- você matou minha mãe – sussurrou Sharon – você me machucou, eu não posso perdoá-lo.
Desesperada Sharon se entregou ao choro, chorava sem controle toda a dor de seu coração, chorava pelo medo, pela dor, pela incerteza, pela culpa e acima de tudo pela perda.
- warum? – gritou Sharon para o céu noturno – warum vater?
Lentamente o cansaço a derrotou e deitando-se sobre as folhas mortas no chão, adormeceu.
                                                                          ***

O conde Heiselmann se mantinha imóvel ainda olhando pela janela do quarto de Sharon. A dor que sentia era tão intensa que o imobilizava. Pensou uma vez que jamais voltaria a se machucar tanto como quando perdeu sua Elizabeta, estava terrivelmente enganado.
Novamente a vida tirara dele tudo oque mais amava e o deixava com absolutamente nada além da dor cruel e do ódio que fazia sua garganta arder.
Transtornado pensou milhares de vezes em persegui-la, afinal ela era dele, ela pertencia a ele.
Mas ao lembrar do rosto assustado de Sharon o encarando, da terrível confusão em seus olhos ele desistiu. Desistiu da pessoa que mais amou na vida, depois de sua Elizabeta.
O ódio queimava em suas veias, ódio de si mesmo por ter sido tão estúpido a ponto de não trancar a maldita gaveta. Ódio por ter escritos aquelas coisas um dia.
E o ódio aumentava sua sede. O gosto do sangue de Sharon ainda estava doce em seus lábios. Arrependimento queimava em sua mente e quando a dor se tornou insuportável ele cedeu aos seus instintos mais primitivos, desligando os últimos traços de humanidade que ainda existia em seu coração e se tornando aquilo que nascera para ser. Um monstro.
Exatamente como a filha o havia chamado.
Como uma tempestade de fúria ele correu pelo castelo matando cada humano que ali repousava, bebendo seu sangue com desespero, alimentando sua sede. Seus serviçais não tiveram tempo de lutar, se quer tempo de entender oque estava acontecendo. Se movia rápido demais arrancando-os de suas camas e tapando suas bocas, cravando os dentes em seus pescoços e drenando-os até a morte.
Anna foi a última, a criada que sempre cuidou de sua filha. Não haveria mais razões para ela estar ali. Com ódio ele perfurou suas veias e quando a última gota de seus sangue fora drenada, ele jogou seu corpo no chão e limpou os lábios na manga da camisa.
O castelo agora era um cemitério de corpos destruídos for sua fúria. Inocentes pagaram pela sua dor, pela sua ira e por seu desespero.
O conde finalmente saciado agora andava pelo caminho da destruição que se tornara seu castelo. Caminhou até o órgão que agora juntamente com o piano, o violino e todos os outros instrumentos musicais espalhados pelo castelo, eram seus únicos companheiros.
Suas mãos ainda sujas de sangue tocavam incessantemente os acordes sombrios de uma música estranha e com olhos fechados ele se permitiu cantar tudo aquilo que seu coração gélido já não conseguia mais guardar.
- Eu vou adorá-la, estou crucificado no seio do amor. O sangue de cristo em minhas lágrimas. Assista-me implorar-lhe. Oh! Ouça minhas súplicas, complete-me com amor. Eu quero senti-la.
Com toda minha confiança eu me renderei a você, eu depositarei meu coração em seus pés.
Meu pequeno coração, você o quer?
Lágrimas frias escorriam pelos olhos do conde, sua voz era firme mais continha algo vazio nela.
- Seja meu anjo, seja meu pecado, seja meu sol, seja minha fúria, seja minha musa, seja minha luxúria. Para demorar-me dentro de você. Me ame, me abrace. Para sempre, guia-me para seu mundo. Pegue-me para seu reino. Dentro de sua aura, dentro do seu espírito, dentro da sua alma, dentro da sua carne. Agora dê sua dor para mim, vamos dividir nossas feridas, dividir nossos prazeres. Seja parte de mim. Eu te amo.
O conde então se calou. Se era para Elizabeta ou para Sharon que cantava, não sabia dizer. Talvez fosse para as duas. As duas mulheres de sua vida. As duas o deixara. E ele as amava tanto.
- Ich liebe dich – sussurrou o conde para as sombras de seu castelo quando os acordes de sua musica sombria foram morrendo lentamente até mergulharem no mais profundo silencio.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Livro 1: FASSADE Cap. 7



 

Capítulo 7
  Der Verlust
  (A Perda)


Sharon se encontrava em seu quarto, custava-lhe a idéia de retirar o belo vestido. Mas a noite havia terminado, uma noite não bonita quanto imaginava que seria.
Lentamente com a ajuda da criada Anna despiu-se e se vestiu com uma camisola macia e confortável. O silencio havia mergulhado novamente no castelo.
Sharon se sentia mais feliz do que já se sentiu a vida toda, o pai prometera que permitiria que agora tomasse suas próprias escolhas. Finalmente se sentia adulta para escolher viver.
- foi uma noite linda – disse baixinho para si mesma
- precisa dormir senhorita Sharon – pediu a criada que acabara de preparar sua cama.
Sharon sorrio – preciso dar boa noite ao meu pai
Ela saiu do quarto e desceu as escadas a procura do pai. O salão agora estava vazio e escuro.
Ele deve estar no escritório – disse a si mesma enquanto de dirigia para o escritório do pai.
Mas ao chegar lá encontrou a sala vazia, Sharon estava saindo quando avistou algo brilhando em cima da mesa. Uma chave. Perguntou-se oque a chave abria e se aproximou da mesa para averiguar. Era uma chave pequena, não podia ser de uma porta.  Notou então a gaveta fechada a sua direita. Porque meu pai tem uma gaveta trancada?, perguntou-se e cedendo a sua curiosidade testou a chave. Talvez aqui tenha algo sobre minha mãe, alegrou-se.
A gaveta foi destrancada e Sharon olhou dentro, não havia nada alem de um livro de capa preta de couro. Parecia muito velho. Oque é isso?
Sharon abriu o livro e leu a nota na primeira página:

Rumänien, 1223:
Ich weiß nicht, wer ich bin, da verließ Elizabeta alles verloren ist.
Nichts übrig, als diesen Wunsch, sie wieder zu haben.
Ich würde alles tun ..
                           T.H.W.

(Romênia, 1223: Não sei mais quem sou, desde que Elizabeta partiu tudo esta perdido. Nada restou além desse desejo de tê-la de volta. Eu faria qualquer coisa.)

Sharon reconheceu a assinatura do pai, mas havia uma letra a mais nela. No entanto não era aquilo que a atormentava, era a data. 1223? O pai só podia ter escrito a data errada.
Tampouco se lembrava do pai ter algum dia mencionado que já esteve na  Romênia.
Sharon revirou as folhas sem ler, apenas vendo as datas, elas eram umas distantes das outras, anos de distancia. No entanto ainda não podiam estar certas. Sharon leu-as novamente aos sussurros: - 1247, 1312, 1398, 1411 – sua mente não conseguia achar uma explicação para aquelas datas, e não fazia sentindo acreditar que as datas foram escritas erradas. Percebeu que muitas folhas foram arrancadas daquele diário, oque era estranho. Não podia ter sido escrito por seu pai, não naquelas datas, mas também não podia dizer que foram escritas por outra pessoa, Sharon conhecia perfeitamente bem a caligrafia do pai – 1497, 1548, 1687,  – Sharon virava as folhas nervosamente até parar na pagina onde encontrava a data de seu nascimento, 1774.
Respirando com dificuldade permitiu-se ler a  nota ali escrita:
Berlin, 12 Juli 1774:
Evelyn Den Adel gebar ein Mädchen. Alles Bedeutung verloren
Ich fühle mich betrogen, was werde ich mit einem Mädchen zu tun?
Menschen wertlos, sollte bei der Geburt gestorben sind
                                            T.H.W

(Berlin, 12 de Julho de 1774: Evelyn Den Adel deu a luz a uma menina. Todo o significado se perdeu. Sinto-me traído, oque farei com uma menina? Deveria ter morrido no parto)

Lágrimas caíram dos olhos de Sharon ao ler tais palavras, nunca imaginou que seu pai pudesse dizer tais coisas a seu respeito. Virou a pagina e leu a nota a seguir
Berlin, 13 Juli 1774.
Evelyn Den Adel ist tot, ich tötete sie.
Ein Kind liegt in der Wiege, war alles nicht so schlimm
ist ein schönes Mädchen, gab ihr den Namen Sharon, ein Name, fit für eine Prinzessin, Mein prinzessin. wird sie mich in alle Ewigkeit begleiten und ich will nicht mehr allein sein. Nimmermehr
                                                T.H.W
(Berlin, 13 de Julho de 1774: Evelyn Den Adel está morta, eu a matei. A criança repousa em seu berço. De todo não foi tão ruim. É uma linda menina, dei-lhe o nome de Sharon. Um nome digno de uma princesa. Minha princesa. Ela me acompanhará através da eternidade e não estarei mais sozinho, nunca mais.)

- Sharon was tun sie?– a voz do pai a assustou, Sharon tentou esconder o livro atrás das costas mas o derrubou no chão.
O conde Heiselmann o olhou assustado. Sharon abaixou-se pegou o livro e colocou-o sobre a mesa.
- este é o seu diário? – perguntou ela a voz tremula
                                                                           ***

-Was tun si? – gritou o conde Heiselmann se entregando ao desespero
O conde estava imóvel, não deveria ser daquela forma. Sharon não deveria ler aquelas palavras. Rapidamente vasculhou a mente da filha na esperança de não encontrar nada que o incriminasse perante ela, mas lá estavam todos os pensamentos que nunca quis encontrar na mente de Sharon.
- tochter, deixe-me explicar – pediu o conde, as duas mãos unidas em uma suplica
- você matou minha mãe – acusou Sharon aos berros – você se quer me queria, me renunciou por ter nascido mulher, e a matou por isso.
O conde Heiselmann sentia seu desespero crescer, Sharon nunca deveria saber sobre aquilo.
- Sharon deixe-me explicar, ich bitte – o conde tentou se aproximar da filha
- nein! – gritou Sharon – não chegue perto de mim
- Sharon oque você fez? – perguntou o pai novamente – não deveria ter lido isto. Deixe- me explicar, eu te peço.
- Warum? Para que possa mentir para mim como tem feito todos esses anos?
O conde negou – eu nunca menti para você tochter
- sim você mentiu – Sharon gritava destilando acusações por entre lágrimas – você disse que minha mãe tinha morrido no parto. Lüge! Você disse que me amou desde o momento que eu nasci. Lüge! Alles lüge!
O conde se aproximou de Sharon e a segurou pelos braços. Sharon tentou se desvencilhar do aperto do pai, mas suas mãos eram fortes.
- schau mich an – gritou o conde, porém Sharon manteve os olhos no chão – eu menti sobre sua mãe para poupá-la de um erro que cometi, não queria que sofresse. Mas eu nunca menti sobre o amor que sinto por você
Sharon chorava com a cabeça baixa.
- eu não entendo – disse ela agora se entregando completamente as lágrimas, o pai a soltou. Ela pegou o diário do pai abrindo na primeira página – essa assinatura é sua?
O conde olhou rapidamente assentindo, sabia exatamente aonde aquilo os levaria. Sempre temeu aquela conversa e definitivamente nunca desejou que começasse dessa forma.
- você está falando da mulher que morreu não é? Aquela de quem me contou?
O conde assentiu
- então porque esta data? – Sharon apontou para a data que dizia 1223 – porque estas datas? – Sharon virava as folhas rapidamente mostrando as datas ao pai
- Sharon ich bitte – o conde pegou o livro das mãos de Sharon o fechando – não é assim que deveríamos começar essa conversa. Eu sinto muito se machuquei você, eu sempre quis o melhor para você mein prinzessin.
- Não me chame assim! – gritou Sharon – você matou minha mãe, como isso pode ser o melhor?
O conde não respondeu
- porque você escreveu essas datas? – perguntou Sharon novamente – ich will die wahrheit!
O conde Heiselmann suspirou – porque são as datas de quando escrevi
O conde sentiu o coração de Sharon oscilar
- oque você disse? – perguntou Sharon
- essas são as datas de quando escrevi essas notas – respondeu o conde
- eu não entendo – disse Sharon largando o diário sobre a mesa e olhando para o pai.
O conde sentiu o próprio coração despedaçar com o olhar da filha, ele pode ver o brilho que sempre esteve presente nos olhos de Sharon uma ultima vez antes dele desaparecer.
Ele viu a desilusão nos olhos de sua princesa, sua terrível confusão.
- eu vou lhe explicar Sharon, eu vou explicar tudo se me permitir
                                                                          ***

Sharon não sentia mais o chão sob seus pés, estava fria, entorpecida. Se sentia traída, enganada e confusa.
- deixe-me explicar- pediu o pai pela décima vez – Sharon não tinha mais forças para gritar, ou negar. Assentiu enquanto as lágrimas incontroláveis caiam de seus olhos.
O pai a puxou e a fez sentar-se na cadeira à mesa, ajoelhou-se ao seu lado.
- Lembra-se quando lhe contei sobre Elizabeta? – Sharon assentiu – eu a conheci e estávamos noivos mas ela ficou doente e morreu.
Sharon via os olhos do pai se encherem de lágrimas enquanto contava sua história, lembrou-se da noite em que o viu tocando piano.
- quando ela morreu me senti perdido, estava sozinho e me senti traído. Não aceitava o fato de Deus tê-la tirado de mim – o pai parou, seu rosto ficou sombrio – eu me revoltei contra Deus e o mundo, eu..
- oque? – perguntou Sharon aos sussurros
- eu fiz um trato, pedi que pudesse viver para poder reencontrá-la um dia. – o conde olhou para a filha e sussurrou de volta – Ewigkeit
Sharon não respondeu, permaneceu em silêncio. Toda a lógica tinha abandonado sua cabeça, tinha abandonado aquela conversa.
- eu pretendia contar isso a você um dia, nunca desejei que fosse assim – o conde pegou o diário de cima da mesa – oque você fez Sharon? – não era uma pergunta.
Sharon não conseguia controlar as lágrimas, sua cabeça estava rodando
- eu não entendo – disse ela
- sou muito mais velho do que você pensa filha – o conde olhou nos olhos de Sharon, Sharon viu um brilho nos olhos do pai como nunca antes tinha visto. De repente sentiu medo, como se o protetor que sempre cuidou dela pudesse machucá-la. Levantou-se da cadeira rapidamente e se afastou do pai.
- oque você está dizendo? – perguntou Sharon
O conde Heiselmann não se moveu ou tentou se aproximar de Sharon, mantinha a cabeça baixa  - eu não sou oque você acha que sou filha, existe uma maldição em mim.
Sharon teve medo das palavras do pai mesmo que não as compreendesse.
- quando ganhei eternidade, fui condenado a pagar de alguma forma – confessou o conde – nunca quis que você soubesse sobre isso, não quero que tenha medo de mim.
O conde se levantou e foi de encontro a Sharon, Sharon se esquivou do toque do pai
- eu estive todo esse tempo lutando por ter alguém para abraçar – disse o conde – não me rejeite Sharon.
Sharon suspirou limpando as lágrimas – oque você é?
O conde vacilou com a pergunta da filha – ich bin dein vater
- Sharon negou com a cabeça – die wahrheit
- Nosferatu – respondeu o conde
Sharon arfou com a resposta. Conhecia muito bem a história de Nosferatu, um conto de terror que narrava a história de um homem amaldiçoado, condenado a viver a eternidade bebendo sangue humano. Não conseguia acreditar nas palavras do pai, embora aquilo começasse a dar sentido em peculiaridades que sempre encontrou no pai. como o fato de o pai quase não comer, o fato do pai se negar a andar na luz do sol.
                                                                            ***
   A verdade atingiu Sharon como uma punhalada nas costas.
O conde Heiselmann nunca antes havia visto a filha tão confusa, tão desesperada.
Mas o pior ainda estava nos seus olhos, não havia mais luz neles, e aos poucos ele pode sentir o cheiro do medo que recendia dela. O mesmo medo que suas vitimas sentiam, agora estava no coração de Sharon. A dor o atingiu quando percebeu que a filha o temia.
- Sharon me perdoe – pediu o conde – perdoe-me por mentir para você, por esconder a verdade. Eu não queria que você sofresse.
- você matou minha mãe simplesmente – começou Sharon – ou se alimentou dela também?
O conde suspirou, não podia contar a verdade. Sim ele era um monstro que matava sem restrições, mas Sharon não precisava saber disso.
- eu a matei apenas – respondeu o conde mentindo – entenda, sei que esse foi um erro horrível, me arrependo do que fiz, mas isso nada tem a ver com oque sou.
Sharon o olhou com ódio – como pode esperar que eu o perdoe depois de tudo isso?
- porque você é minha filha e eu sou o seu pai  - disse o conde segurando o rosto da filha
Sharon empurrou suas mãos e se afastou – você não é meu pai, você é um monstro.
Sharon saiu do escritório correndo, subiu as escadas aos soluços.
O conde continuou ali parado, congelado. Aquelas palavras o tinham machucado como nenhuma outra jamais o fez. Seu coração paralisado pelo tempo estava aos pedaços.
Ouviu o barulho dos passos apressados da filha que girava de um lado a outro em seu quarto, batendo portas.  Sabia exatamente oque ela estava fazendo e não podia permitir.
O conde Heiselmann subiu as escadas correndo e num rompante entrou no quarto da filha.
Sharon fazia as malas, e não se deteve quando avistou o pai.
O conde foi até a filha e tirou as roupas que carregava de suas mãos.
- você não vai me deixar – disse ele tentando manter a calma
- então tente me impedir – ameaçou a filha
O conde jogou as malas no chão – não me ameace – gritou ele
Sharon se encolheu com medo do pai. O conde não podia evitar, sentia o ódio o dominando, a idéia de perder a filha era insuportável. Não permitiria que a filha o deixasse.
- Du bist mein – gritou o pai – e eu não vou perdê-la
Sharon agachou-se  no chão pegando as roupas espalhadas e voltou-as na mala
O conde Heiselmann tomou a mala das mãos da filha a jogando pela janela – stoppen.
O conde podia ver o medo nos olhos da filha, e aquilo apenas o deixava com mais raiva. O medo de perdê-la  o tornava violento, ele não podia se conter.
- eu pretendia fazer isso com calma – começou o conde enquanto se aproximava de Sharon que se encontrava agachada no chão – eu queria que fosse fácil, não deveria ser assim.
Ele puxou Sharon pelo braço, ela tentava se soltar do aperto do pai mas não tinha forças suficientes. – o tempo fará você entender, e quando entender você me perdoará
                                                                         ***

Sharon sentia medo das palavras do pai, todos os seus instintos a mandavam correr mas não tinha como fugir. Suas mãos eram demasiadas fortes. O rosto do Conde Heiselmann estava contorcido pelo ódio e mais alguma coisa que Sharon não pode compreender.
- me solte! – gritou Sharon
- nein! – rosnou o pai em resposta
E Sharon compreendeu oque o pai ia fazer, pode ver a transformação acontecer em frente aos seus olhos. As pupilas dos olhos do conde Heiselmann se delataram, seus lábios foram repuxados pelas presas que cresciam diante dos olhos de Sharon.
- vater, ich bitte – implorou Sharon.
O conde Heiselmann avançou sobre o pescoço de Sharon e a mordeu.
A dor nauseante a fez gritar quando as presas do pai rasgaram sua carne e o sangue foi drenado violentamente.
- vater, ich bitte – implorou Sharon – eu não quero morrer
O conde se afastou rapidamente da filha , seus olhos agora estavam confusos, as presas desapareceram, de sua boca pingava o sangue de Sharon. Ele cambaleou para trás.
- eu nunca a machucaria – disse ele, mas parecia que estava dizendo a si mesmo – eu só estou lutando para ter alguém para abraçar.
Sharon cobriu a ferida em seu pescoço com as mãos, lágrimas corriam por seu rosto.
- me deixe ir – pediu Sharon – ich bitte vater, lass mich gehen
O conde olhou nos olhos de Sharon, lágrimas caiam de seus olhos
                                                                            ***

O gosto do sangue de Sharon era doce, mas o sabor que ele trazia era tão amargo quanto a idéia de perdê-la. Não conseguia acreditar no que tinha acabado de fazer. Prometera nunca machucar a filha e agora ela sangrava na sua frente por sua culpa.
Agora entendia que jamais seria capaz de transformá-la no que ele era.
Sharon era pura, não podia se transformar num mostro sedento de sangue como ele.
- eu não quero perdê-la – respondeu o conde a filha – não quero ficar sozinho
Sharon o olhou com medo, medo era o único sentimento que podia sentir no coração de sua amada filha agora. Nenhum amor, nenhuma piedade, nenhuma esperança.
Custava-lhe aceitar que perdera a filha que amava, pois mesmo que a prendesse naquele castelo, mesmo se a condenasse a viver a eternidade ao seu lado, ela jamais voltaria a enxergá-lo como antes, e jamais voltaria a amá-lo como amou.
- ich bitte – implorou Sharon novamente
O conde Heiselmann jogou a cabeça para trás urrando de dor, lágrimas frias caiam de seus olhos.
- gehen – sussurrou o conde – eu a liberto
Sharon saiu correndo. O conde Heiselmann podia ouvir seus passos apressados descendo as escadas. Pode ouvir a porta do castelo sendo aberta, e imóvel esperou até que ouviu o som do galopar do cavalo de Sharon que corria rapidamente atravessando a ponte, se distanciando lentamente.



                                                                 



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Livro 1 FASSADE Cap.6




Capítulo 6
Eine Nacht Für Die Ewigkeit
(Uma Noite Para A Eternidade)

Sharon estava parada na frente do espelho, o vestido que escolheu para aquela noite contornava seu corpo perfeitamente e a fazia parecer uma princesa, exatamente como o pai sempre fazia questão de chamá-la. O pé não doía mais, pelo oque ficou muito grata.
Lá embaixo no salão a música havia começado, podia ouvir o barulho de vozes.
O pai havia convidado metade da cidade, talvez mais. Todos estavam esperando por ela.
Finalmente havia chegado a noite que esperou a vida toda. A maioridade.
Era adulta agora para decidir sua vida por conta própria, porem se perguntava se algum dia
poderia viver sem o auxilio e os conselhos do pai.  A idéia lhe parecia impossível.
Enquanto se olhava no espelho, Sharon se deu conta de que tudo na sua vida era confuso, nada fazia muito sentido. A vida que levava embora fosse cheia de jóias e vestidos caros, era também incompleta. Sentia falta de amigos, amigos de verdade. Sentia falta de uma mãe.
Ela culpava o pai por não lhe falar sobre a mãe, mas não era culpa dele que ela tivesse morrido, as coisas simplesmente aconteceram. Foi um acidente.
Sharon suspirou, não queria chorar. Não podia borrar a maquiagem.
Passou a mão pela saia do lindo vestido e olhou em volta para o enorme quarto.
O rouxinol repousava sobre o beiral da janela. Sharon sorrio admirando-o e ali sozinha fez uma promessa para si mesma.
Tudo mudaria. iria para a faculdade, faria amigos e quem sabe talvez até se apaixonasse.
Ela sorrio para sua imagem no espelho, a idéia parecia muito atraente.
Já estava na hora de assumir o controle de sua vida, estava na hora de começar a viver por conta própria e se libertar da super proteção sufocante do pai.
- mas porque tenho tanto medo? – perguntou-se baixinho
Talvez fosse porque era normal aos seres humanos sentir medo do desconhecido.
E todo o seu futuro a partir daquela noite era desconhecido. Todos os sonhos e planos agora pertenciam ao desconhecido e Sharon pedia a Deus que tudo desse certo, que tudo se realizasse.
Uma batida na porta a pegou de surpresa
- entre – pediu com a voz rouca, a emoção tomando conta de seu corpo
O pai entrou e Sharon surpresa protestou
- nein! – disse ela contrariada – não era para o senhor me ver agora.
O conde sorrio
- verzeih mir – pediu o pai – mas algo me diz que você terá outra surpresa para mim, visto que esta eu estraguei.
Sharon sorriu olhando para o pacote em cima da cama. O vestido rosa.
- se me permite dizer, está deslumbrante – disse o conde
Sharon sorrio – dunke chön
- mas falta uma coisa – disse o pai segurando o braço de Sharon e virando-a para o espelho.
O conde então abriu uma caixinha que trazia no bolso e Sharon não podia ver oque continha.
- feche os olhos – pediu o pai
Sharon fechou os olhos com o coração pulsando e então sentiu as mãos frias do pai envolta do seu pescoço. Passou alguns segundos
- abra – a voz do pai estava rouca, emocionada.
Ao abrir os olhos Sharon sorrio entre as lágrimas que ameaçavam cair de seus olhos.
- é tão lindo – disse ela admirando a gargantilha que o pai havia colocado em seu pescoço.
Não era uma simples gargantilha, não era feita de ouro ou prata. Era feita de cetim branco ornamentado por pequenas pedras de diamantes com algumas pedras maiores caindo em pontas por seu pescoço.
- nunca vi nada assim antes – disse ela
- é uma jóia digna de uma princesa – disse o pai
Sharon se virou para o pai abraçando-o e se entregando as lágrimas.
- Shhh não quero ver você chorando querida – disse o conde – está noite é sua, quero que seja a mulher mais linda e mais feliz do mundo esta noite. Keine tränen.
Sharon suspirou e sorrio para o pai que secou suas lágrimas com os dedos.
- será que virá alguém? – perguntou Sharon pesarosa – nossa casa é tão afastada da cidade.
O conde Heiselmann sorrio – não se preocupe com isso, todos virão.
Sharon não se convenceu.
- tenho que ir – disse ele – desça quando estiver pronta.
                                                                           ***

- As terras da fazenda Kraft são extremamente férteis e preciosas – dizia o barão Brachmann, um velho gordo, bigodudo e impertinentemente intrometido – definitivamente o senhor conde fez um ótimo negócio comprando-as.
- Dunke chön – agradeceu o conde com um sorriso enquanto se deleitava com outro gole de whisky. O álcool era o único alimento humano – por assim dizer – que ainda podia apreciar.
O gosto embora um tanto diferente do que se lembrava de sua vida humana ainda era familiar e confortável. A bebida era sua aliada na maior parte do tempo, quando estar com humanos se tornava difícil e não havia maneira de escapar, o álcool ajudava a saciar a sede que sentia, sem no entanto privá-lo de seus sentidos, como acontece com os humanos.
- dessa forma – começou o coronel Reinke – o conde aumentou suas posses se tornando um dos homens mais poderosos de Berlin. Foi uma compra e tanto, não podemos deixar de parabenizá-lo – o homem levantou sua taça de champanhe – faça-mos um brinde.
- ao grande conde Heiselmann – celebrou o Sr Mohler, um grande comerciante e nome de grandes posses da cidade – cuja amizade nos é de grande valia e como tal nos alegra ver suas infinitas realizações.
O conde Heiselmann levantou seu copo brindando.
A noite estava agradável, todos os convidados compareceram, com oque o conde não se surpreendeu. Eram todos homens de negócios e como tal não poderiam perder a chance de prestigiar o homem de maior poder da cidade com suas falsas amizades e interesses.
Era um jogo interessante, quando todos achavam que poderiam de alguma forma tirar proveito do sucesso do grande conde Heiselmann enquanto fingiam ser amigos, mas a verdade é que não havia humano naquele salão que conseguisse enganá-lo.
O conde Heiselmann não se importava com as falsas lisonjas, pelo contrário achava interessante observar enquanto os homens da cidade, um a um, caiam a seus pés.
- e quando sua preciosa filha irá nos honrar com sua presença? – perguntou o barão Brachmann enquanto bebia e comia feito o porco gordo que era.
O conde Heiselmann sorrio – quando estiver pronta – disse ele, quando a vi estava em dúvida com qual vestido usar
- mulheres – rio o Sr Mohler – não importa a idade são todas iguais
- por falar em sua filha mi lorde – começou o coronel Reinke – algum pretendente a vista? Imagino que esteja interessado em casá-la com um rapaz de posses aumentando assim suas influencias.
O conde Heiselmann suspirou pesadamente. A idéia de usar Sharon para aumentar seus poderes sociais o deixava indignado, a própria idéia era absurda.
- não estou interessado em fazer negócios usando minha filha para alcançar meus objetivos – disse o conde fingindo um sorrindo e voltando a dar um gole em seu whisky.
- me perdoe se o ofendi de alguma forma – desculpou-se o coronel – apenas é de conhecimento do povo da cidade que sua filha completou a maioridade e sendo uma jovem bonita, imagino que vá querer casá-la com um bom partido.
- não vejo razões para pensar nesses assuntos – disse o conde – minha filha ainda é muito jovem e creio que nenhum jovem dessa cidade seja suficientemente bom para ela, não querendo ofender os bons jovens de Berlin. Mas minha filha foi criada por professores ingleses e franceses, é uma jovem muito inteligente e ainda tem muito para aprender, não acho que casamento seja algo com o qual devo me preocupar no memento, muito menos ela.
Os senhores se olharam e sem nenhuma sutileza, passaram para assuntos que nada mais diziam sobre Sharon.
O conde Heiselmann olhava no relógio de bolso à cada cinco minutos, a festa que preparou para a filha, embora deleitava-se em mais completo sucesso, parecia sem brilho na ausência de sua princesa. Uma musica alegre era tocada pelos músicos contratados. Não eram tão bons quanto o conde gostaria, mas confessava a si mesmo que não era justo pedir de homens de trinta e cinquenta anos de vida a perfeição que adquiriu através de séculos.
- a expectativa se torna cada vez maior devido a falta de noticias que se tem – o barão Brachmann continuava a fazer seu discurso sobre o desaparecimento dos soldados que partiram para batalha em Leipzig, porem o conde não estava mais prestando atenção. Seus olhos estavam presos a criatura divina que descia as escadas graciosamente.
Vestida com um vestido branco que descia em camadas até o chão, o cabelo preto liso caindo-lhe soltos sobre as costas, uma tiara prata sobre a testa e a gargantilha que o conde encomendou de joalheiros franceses especialmente para a filha, sua princesa mais parecia um anjo.
- se os senhores me dão licença. – o conde Heiselmann se encaminhou até o pé da escada onde postado com um dos braços as costas, como o perfeito cavalheiro que era esperou para segurar a mão da mulher de sua existência.
                                                                        ***

Sharon suspirou enquanto descia os últimos degraus e seguia de encontro com seu pai.
O conde Heiselmann estava incrivelmente elegante. Vestia calças, sapatos e colete pretos, a gravata elegante era preta também e o casaco era de um tom dourado opaco. Os cabelos estavam como de costume presos a um rabo de cavalo . era com certeza o homem mais lindo daquele salão, Sharon nunca sentiu mais orgulho do pai.
Sharon sabia que todos os olhos do salão estavam voltados para ela, a idéia a assustava um pouco mas a deixava feliz também, esperou por aquele momento por muitos anos.
Quando se aproximou do pai fez uma pequena reverencia e estendeu-lha a mão.
O conde a beijou sorrindo – Meine schöne prinzessin
Sharon se sentiu corar ao ouvir o apelido tão conhecido pelo o qual o pai a chamava. – vater.
O conde conduziu Sharon ate o meio do salão.
Uma música suave começou a tocar
- dança comigo papai? – pediu Sharon sorrindo
- será que eu poderia tirar a sua filha para uma dança, mi lorde? – Sharon se virou para avistar o jovem que tivera tal atrevimento. Não o reconheceu, embora não pudesse negar que era um homem bonito.
- Sr Milch – o pai sorrio para o jovem entregando a mão da filha ao rapaz desconhecido.
Mas não antes de sussurrar em seu ouvido – mais tarde.
Sharon sorrio enquanto o pai se afastava.
- Srta Heiselmann – disse o Sr Milch puxando-a para uma dança lenta – nunca tive a honra de conhecê-la, seu pai parece escondê-la como um tesouro, agora entendo por que.
Sharon corou e sorrio sem graça, não estava acostumada com elogios masculinos.
                                                                           ***

Tudo estava correndo perfeitamente bem, Sharon rodopiava pelo salão dançando com jovens que não conhecia, todos interessados em fazer-lhe a corte.
Não era uma idéia que agradasse o conde Heiselmann, não conseguia imaginar a idéia de alguém, quem quer que fosse, colocando as mãos em sua filha.
Sharon pertencia a ele, apenas a ele e isso ficaria claro mais cedo ou mais tarde.
No entanto naquela noite Sharon tinha o direito de se sentir como qualquer outra garota em seu baile de maioridade. A noite era dela e o conde não a privaria dos privilégios.
Todos pareciam se divertir, aproveitando a música e boa bebida e comida que eram ofertados de graça. Se havia algo que o conde Heiselmann aprendeu durante seus muitos anos de vida, era que não importava o quão ricas as pessoas podiam ser, elas jamais desperdiçavam a chance de beber e comer de graça.
O conde se arrastava de um lado para o outro do salão, tentando dar atenção a todos que chamavam por seu nome, sócios, parceiros de jogos, companheiros de caça, amigos da alta sociedade, todos estavam presentes na casa do conde naquela noite, tal como suas esposas e filhas. De fato o salão estava repleto de belas mulheres, que dançavam, riam e algumas que o admiravam secretamente.
O conde Heiselmann estava acostumado a ser admirado pelas mulheres, algo nele o fazia sedutor para as humanas e aquilo era agradável quando precisava se alimentar mas nunca sentiu qualquer vontade de estar com aquelas mulheres, nunca se sentiu capaz de viver qualquer romance que fosse, nenhuma delas era capaz de fazê-lo esquecer de sua Elizabeta e a culpa por estar com outra mulher que não fosse sua amada o atormentava sempre que cogitava a idéia ou as vezes quando cedia aos caprichos e desejos de seu corpo.
                                                                        ***

- você está tão linda querida, e a noite está muito agradável – dizia a senhorita Krumm
- obrigado – disse Sharon sorridente. A noite estava perfeita, de fato. Seu pai tinha cuidado de cada detalhe, desde a música a comida, tudo era farto e belo.
- precisa se retirar para trocar de vestido – sussurrou Anna ao seu ouvido, a puxando pelo braço.
- já? – perguntou Sharon. Anna sorrio assentindo.
Sharon subiu as escadas e adentrou em seu quarto onde o belo vestido rosa a aguardava, havia esperado a noite toda por aquele momento.
                                                                         ***

O conde Heiselmann bateu com a colher lentamente na taça duas vezes. A música cessou e todos se calaram olhando para ele. Sorrindo naturalmente - já estava acostumado a ser o centro das atenções.
- meus amigos – começou o conde subindo alguns degraus da escada para se fazer ver por todos – não posso expressar em palavras o quanto estou feliz esta noite. Como devem saber esse baile festeja a maioridade de minha filha Sharon, se me permitem dizer, o tesouro mais precioso que tenho em minha vida, o qual estimo em demasia.
Todos olhavam para o conde, alguns sorriam, outros cochichavam entre si.
- fico incrivelmente alegre que vocês estejam aqui esta noite para nos ajudar a festejar essa data tão maravilhosa. Muito obrigado a todos.
Houve um murmúrio em resposta ao qual o conde não prestou atenção.
- gostaria de fazer um brinde – o conde levantou a taça de champanhe e todos imitaram o seu gesto – que as lembranças dessa coisa sejam tão agradáveis quanto os momentos que estamos presenciando agora, que seja uma noite de eternidade.
Um turbilhão de concordância veio em resposta, e então o conde virou a taça, bebendo rapidamente e os convidados fizeram o mesmo.
- obrigado mais uma vez – o conde sorrio agora e sua voz tremeu com a emoção – agora seguindo a tradição, convidarei a vocês para acompanharem minha filha e a mim em uma valsa. Oque me dizem?
Todos assentiram e os músicos começaram a tocar uma valsa lenta.
O conde se virou e ansioso esperou que Sharon descesse e lá estava ela, vindo de encontro a ele com aquele vestido que ele mesmo havia escolhido para aquela ocasião.
E nenhum ser humano na terra podia ser mais lindo do que sua filha naquele vestido.
Não era como se fosse humana, mais parecia um anjo descendo as escadas.
O conde se posicionou com um dos braços atrás das costas e foi em direção a filha, pegando em sua mão e a beijando, como fizera antes. No entanto aquele momento era muito mais simbólico do que o anterior, aquele vestido representava a beleza interior de Sharon, representava sua inocência e amor imensos.
O conde Heiselmann a conduziu até o meio do salão em meio a aplausos dos convidados.
Sentia o coração da filha bater violentamente, sabia que estava nervosa, ele também estava.
Beijando a mão da filha mais uma vez, acomodou a sua mão em sua cintura e sorrindo para ela conduziu-a pelo salão ao som da música que se tornava cada vez mais alta.
A filha dançava graciosamente bem, era leve como uma pluma e se deixava ser conduzida pelos passos rápidos do pai que girava inúmeras vezes ao redor do salão.
Lentamente os convidados se juntaram aos dois e logo o salão estava repleto de cores que giravam ao som da musica belíssima que o próprio conde havia composto para aquele momento tão especial.
Quando a música cessou, pai e filha foram alvejados com aplausos.
O conde Heiselmann reverenciou a filha formalmente e Sharon retribuiu o reverenciando.
- obrigado por essa dança maravilhosa filha – agradeceu o conde
- ich liebe dich vater

Livro 1: FASSADE Cap.5



Capítulo 5
 Ein Regnerischer Tag
  (Um Dia Chuvoso)

Estava chovendo, pelo oque o conde Heiselmann ficou muito grato. As nuvens escuras e pesadas escondiam o sol e por conta disso podia andar livremente pela casa. Oque era uma dádiva visto que aquele dia seria tumultuado.
Finalmente chegara o dia do Baile que havia planejado com tanto carinho por conta do aniversário da filha. Ele rezaria para que tudo desse certo, mas não acreditava que Deus lhe ouviria sendo ele oque era, uma abominação da natureza, um assassino, um monstro.
No entanto talvez devesse pensar em pedir perdão, mas a idéia era ridícula. Afinal oque ele fez de errado para que Deus levasse sua amada Elizabeta? Não ele não pediria perdão pela escolha que o trouxe a vida que levava.
Se eu fosse pedir perdão seria pelo oque estou prestes a fazer, - escreveu o conde em seu diário.
Não era exatamente um livro pequeno. Fazia muitos anos que não escrevia naquele livro, desde que Sharon nasceu na verdade.  Desde então não sentia mais vontade de esconder seus sentimentos naquelas páginas, mas devido aos acontecimentos trágicos ocorrido à algumas noites, achou que seria melhor voltar aos velhos hábitos.
Trancado em seu escritório o conde podia ouvir perfeitamente o entre sai dos entregadores em sua casa, podia ouvir as faxineiras fofocando enquanto limpavam cada centímetro do salão de festas, podia ouvir a chuva que caia melancolicamente e os pássaros que piavam encurralados em algum galho dos enormes carvalhos que rodeavam o castelo.
Mas apenas um som era importante para ele. O riso de Sharon.
Ela estava a mais de uma hora trancada no quarto com a madame Straube e a criada Anna provando os inúmeros vestidos que o pai havia pedido para que a costureira fizesse para ela usar naquela data tão especial. No entanto ao que parecia Sharon estava tendo problemas em escolher um.
O conde sorrio e continuou rabiscando rapidamente em seu diário os planos para aquela noite.
Havia esperado vinte anos e finalmente o dia tinha chegado, se seu coração ainda batesse estaria pulsando violentamente, mas há muitos séculos ele estava adormecido.
Depois desta noite tudo vai mudar, - completou o conde fechando o diário e o guardando numa gaveta. Trancou-a e estava guardando a chave quando ouviu o barulho de algo quebrando. Irritado jogou a chave sobre a mesa e saiu do escritório.
                                                                              ***
- Sharon você precisa se decidir – apressou Anna inquieta – a sua professora de balé deve estar quase chegando.
Sharon olhou mais uma vez no espelho, o vestido branco que vestia era lindo, mas o azul também era, o verde também e todos os outros.
- vou ficar com esse – disse ela com um grande sorriso porém ainda em dúvida
- ótima escolha – disse a madame Straube – venha aqui para eu poder  terminar os ajustes.
A madame Straube era uma senhora de uns sessenta anos, era baixinha e tinha os cabelos grisalhos sempre preso num coque. Óculos pequenos contornavam seus olhos. Era a melhor costureira de Berlin.  Por aquele motivo o pai a havia escolhido para costurar para Sharon.
Uma batida na porta fez o coração de Sharon sair pela boca
- não deixe meu pai entrar – pediu a Anna – não quero que ele me veja antes da hora.
Anna assentiu e foi abrir a porta.
-  é a senhorita Krumm – disse Anna, seu tom era de advertência – ela esta meio atrasada senhorita Krumm.
A senhorita Krumm entrou no quarto de Sharon – se esse é o motivo então esta perdoada – disse a mulher loira sorrindo e se sentando no futton de Sharon, próximo a cama.
- Obrigada senhorita Krumm – agradeceu Sharon – já estou quase terminando.
- Sharon não seja mal educada – repreendeu Anna – você não vai apresentá-las?
Sharon rio alto – me desculpe. Madame Straube essa é a minha professora de balé, a senhorita Krumm. Senhorita Krumm, está é a melhor costureira do mundo, Madame Straube.
As duas sorriram e deram as mãos.
- então esta noite será o grande baile da senhorita Sharon Heiselmann – disse a senhorita Krumm – a cidade toda esta comentando.
Sharon sorrio reluzente enquanto despia o vestido que precisava ser passado para ser usado a noite.
- você virá não é? – pediu Sharon
- é claro, não perderia por nada nesse mundo.
- você também Madame Straube – pediu Sharon
A senhora Straube assentiu e então foi até a cama onde abriu uma caixa enorme.
- falta experimentar um Sharon – disse ela sorrindo e tirando o vestido da caixa.
- Mein Gott – Sharon deu um grito saltitando – porque não me mostrou esse antes?
- porque este vestido foi seu pai quem escolheu, ele será usado na hora da valsa.
Sharon olhou o vestido que Madame Straube segurava. Era branco, ou seria rosa?
Era lindo, com um corpete maravilhoso e a saia era rodada e farta, era imenso, lindo.
- ela esta sem palavras – disse a senhorita Krumm rindo – também, o vestido é deslumbrante.
- foi um desafio fazê-lo devo admitir – disse a Madame Straube rindo
- meu pai que escolheu esse vestido? – perguntou Sharon sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. – é tão lindo
A madame Straube sorrio – venha experimentá-lo
Sharon não conseguia pensar em mais nada enquanto a madame Straube amarrava os cordões do corpete do vestido. Quando se olhou no espelho se sentiu num sonho.
Aquele era com certeza o vestido mais lindo que já vira na vida. E era dela.
- ficou perfeito em você – disse Anna sorrindo feliz pela felicidade de Sharon – seu pai tem muito bom gosto.
- meu pai é o melhor pai do mundo – disse Sharon rodando na frente do espelho para ver o vestido em todos os ângulos possíveis.
Quando a Madame Straube convenceu Sharon a tirar o vestido para ser passado, Sharon se despediu  e junto com Anna e a senhorita Krumm foram para o salão de dança onde Sharon treinaria pelas próximas duas horas. Algo que sempre a irritou, pois nunca gostou de balé, mas não naquele dia. Hoje eu faço qualquer coisa pelo meu pai, pensou ela, qualquer coisa que ele quiser, eu farei por ele.
                                                                             ***
O conde Heiselmann estava faminto, não havia se alimentado suficientemente bem na noite passada e passara a manhã toda acordado cuidando dos preparativos do baile, se aborrecendo com criados estúpidos que não tinham cuidado com seus bens.
Sua garganta queimava, seus olhos ardiam por conta da sede e as presas se alongavam mesmo contra sua vontade.
Educado e disfarçando muito bem como sempre fizera. Terminou de experimentar as roupas que encomendara para usar naquela noite, se livrou do alfaiate, e se dirigiu as portas do fundo.
Precisava sair sem ser visto, não podia arriscar colocar tudo a perder. Não naquela dia.
Agradecido pelas nuvens que cobriam o sol naquele dia permitindo-o caminhar pelas ruas, vestiu um casaco e um chapéu e subiu em sua carruagem. Pediu que o cocheiro o levasse ao lugar de sempre. O homem seguiu as ordens como de costume , fora hipnotizado pelo conde á muitos anos para fazer tudo oque fosse ordenado. Desde então seguia suas ordens sem questionar.
Quando o conde entrou no bordel da madame Bender pelas portas do fundo, foi recebido muito bem pela anfitriã que, sempre muito bem paga, sabia exatamente oque o conde precisava.
Um quarto afastado dos outros, uma bela jovem e muita descrição.
- vou pedir que uma das meninas se dirija ao quarto mi lorde – disse madame Bender.
O conde sorrio simpático entregando uma bolsinha de couro nas mãos da mulher.
- considere isso como um bônus por sua incrível descrição – agradeceu o conde.
A velha mulher sorrindo abriu a bolsa e remexeu nas moedas de ouro – obrigado mi lorde.
Com um gesto com a cabeça a mulher indicou que o conde a seguisse.
Ele olhou para trás algumas vezes para se assegurar de que não estava sendo notado e então seguiu pelo corredor mal iluminado. Entrou pela porta do conhecido aposento e esperou.
Sua pele ardia agora também, era oque acontecia quando a fome se tornava muito forte.
Seus olhos estavam em brasa e a garganta seca protestava.
O conde tirou o chapéu e o casaco, lavou as mãos e olhou seu reflexo no espelho.
Os olhos estavam vermelhos, a pele sempre muito branca parecia ainda pálida.
Sorrio para sua aparência, nunca se considerou um homem bonito. Mas uma vez uma mulher o amou e naquela época não poderia ser pelo dinheiro, eu pelas influencias. Ele nada tinha.
Elizabeta o amava pelo que ele era.
- venha Tilo, vamos caminhar um pouco a manhã está linda – Elizabeta sorria para ele.
Era a mulher mais linda que já vira na vida. Era alta, possuía longos cabelos cacheados e negros, os olhos eram negros e misteriosos, a pele era bronzeada embora ela quase nunca ficasse ao sol.
- preciso ir trabalhar – disse ele apreensivo e ainda assim cedendo aos caprichos da amada
- nein, fique aqui comigo por mais alguns minutos – pediu ela o envolvendo com os braços
Ele sorrio – como quiser mein leben – ele tocou o rosto dela deslizando os dedos pelos lábios. Os lábios de Elizabeta o enlouquecia.
- Ich liebe dich, Tilo – disse ela e então o beijou docemente nos lábios.
 O conde Heiselmann afastou as lágrimas que ameaçavam cair por seus olhos.
Olhando no espelho viu seu rosto se tornar impassível, o ódio dominando-o.
Tudo oque eu mais amei na minha vida foi tirado de mim, pensou o conde, mas um dia eu a terei de volta. Eu esperei séculos por isso e esperarei milênios se for preciso.
A raiva aumentava sua fome, suas presas doíam.
Uma batida na porta o fez se virar, como um predador ele esperou em silencio. Quando a porta foi fechada ele atacou, pegando a jovem despercebida por trás, tapando sua boa e cravando os dentes em seu pescoço.
                                                                       ***

Sharon girava pelo salão de dança, fazendo piruetas e rindo. A senhorita Krumm tocava uma musica alegre no piano, a aula estava quase no fim e aquilo a deixava feliz. Estava cansada.
- acho que está bom por hoje – disse a senhorita Krumm terminando de tocar a ultima música – você precisa descansar para estar bem disponha a noite.
- só mais uma música – pediu Sharon sorrindo – quero tentar esse passo mais uma vez, vou mostrá-lo para meu pai essa noite, vai ser uma surpresa.
A senhorita Krumm sorrio e voltou a tocar o piano animadamente
Sharon voltou de onde parou, com as pontas dos dedos ela girava pela sala, se sentia livre e bonita quando dançava, mesmo que não gostasse da obrigação de ter que praticar, mas naquele dia estava muito feliz.
- que tal tentar o ultimo salto? – pediu a professora
Sharon sorrio, pegou impulso e com uma pirueta saltou no ar girando. Mas quando voltou os pés no chão, sentiu-o deslizar sob suas sapatilhas e caiu.
- Sharon – gritou a senhorita Krumm indo na direção de Sharon.
Sharon se sentia boba, havia batido a cabeça no chão – eu estou bem
- vamos eu ajudo você a levantar – a professora a segurou pelo braço e Sharon se levantou devagar.
- ai – gritou ela
- oque foi? – perguntou a senhorita Krumm preocupada
- meu pé – disse Sharon se desesperando – esta doendo muito, acho que quebrei meu pé.
- vou pedir ajuda – disse a senhorita Krumm saindo correndo do salão aos berros.
                                                                           ***

A jovem loira estava desfalecida sobre a cama como o conde Heiselmann sempre deixava as jovens que usava para se alimentar. O ferimento em seu pescoço se curaria rapidamente por conta do próprio sangue que ele esfregou sobre os furos das presas. Ela não se lembraria de nada, como nenhuma outra jamais lembrou.
O conde vestiu o casaco e o chapéu e então se retirou.
Estava entrando  em casa quando a criada Anna o abordou com olhos preocupantes
- oque aconteceu? – perguntou ele
- é a senhorita Sharon – disse Anna – ela caiu enquanto praticava com a senhorita Krumm e..
- onde ela esta? – perguntou o conde
- no quarto dela. Eu pedi que fossem chamar o doutor Fritz
Mas ele já não estava ouvindo. Subiu correndo pelas escadas e voou pelos corredores chegando ao quarto da filha.
Bateu na porta e a senhorita Krumm a abriu.
- como ela esta? – perguntou o conde tentando ser educado
- eu não posso afirmar, mas acho que ela quebrou o pé – disse a professora remorsiada.
- deixe-me a sós com ela – pediu o conde sorrindo com gentileza
A senhorita Krumm sorrio para Sharon e depois se retirou.
O conde fechou a porta e se sentou ao lado de Sharon na cama.
- mein prinzessin  oque houve? – perguntou ele carinhoso
- eu cai – Sharon estava afogada em lágrimas – não vou poder dançar no baile, eu estraguei tudo papa.
- shhhh, não chorei – pediu o conde puxando a filha para o seu colo – vai ficar tudo bem
- não, não vai – Sharon se agarrou ao pescoço do pai chorando
- shhhh, não chore mein liebe – pediu o pai – deixe-me ver
Sharon sentou-se na cama e colocou o pé ferido sobre o colo do pai.
Estava inchado e levemente arroxeado.
- não esta tão feio – disse o conde sorrindo para a filha – não esta quebrado.
- mas eu não vou poder dançar – disse Sharon reprimindo o choro
- olhe para mim – pediu o conde
Sharon olhou para o pai com olhos cheios de lágrimas
O  conde sorrio para a filha com ternura a tranqüilizando e então capturando seu olhar no dele incitou-a a se manter calma e em silencio. Quando Sharon estava  entregue aos poderes do pai, o conde com um gesto rápido das mãos colocou os ossos dos pés da filha no lugar. Sharon se contorceu de dor mas se manteve em silencio o olhar preso nos olhos do pai.  O conde acariciou o pé da filha por alguns minutos e quando teve certeza que a dor havia passado, sorrio para Sharon  a liberando de seu encanto.
- é claro que você vai dançar essa noite – disse o conde continuando a conversa normalmente
- e você será a dançarina mais linda daquele salão, sabe porque?
- porque? – perguntou Sharon, um leve sorriso brincando em seus lábios
- porque você é minha princesa – disse o conde abraçando a filha – meine tochter
Sharon abraçou o pai e então deu um grito – não esta mais doendo
- não? – o conde fingiu surpresa ao olhar o pé da filha
- não, eu estou bem – disse Sharon confusa – mas estava doendo dois segundos atrás
- talvez você estivesse assustada com a queda e estivesse exagerando um pouquinho – disse o conde sorrindo – oque importa é que você vai poder dançar esta noite, certo?
- aham , eu acho que vou me levantar – Sharon fez menção de se levantar e o conde a segurou na cama.
- nada disso – repreendeu ele – quero você descansando
Sharon sorrio – tudo bem – ela puxou o pai num abraço apertado – mein vater liebte
O conde riu e então se desvencilhando do abraço da filha, segurou seu rosto com as duas mãos.
- Sharon preciso que você saiba de uma coisa
- oque? – perguntou ela apreensiva
- você é a coisa mais importante na minha vida, eu não sou nada sem você
O conde suspirou – nunca se esqueça disso. Certo?
Sharon assentiu
- nunca me deixe tochter – pediu o conde - prometa para mim
- eu prometo – Sharon estava assustada com a intensidade das palavras do pai
- jure! – sussurrou o conde
- eu juro.






segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Livro 1: FASSADE Cap. 4




Capítulo 4
Erinnerung
(Lembranças)
                                                     


Os dedos do conde Heiselmann deslizavam pelas teclas do piano.
Cada nota tocada transparecia a sua dor. Ele não estava acostumado a se deixar levar por seus sentimentos, mas uma vez que as lembranças o inundavam não podia lutar contra elas.
Sua mente ágil vagava muito alem do castelo frio e silencioso que o cercava, vagava para uma época em que fora feliz, a séculos de distancia. Ele ainda se lembrava de como era sentir o sol sobre sua pele, ainda se lembrava do calor em seu coração.
Se lembrava da voz daquela que uma vez amou e que lhe fora tirada, ele se lembrava do nome dela mas jamais voltou a pronunciá-lo. Elizabeta. Fora a tantos anos atrás mas o rosto dela ainda sorria para ele toda vez que fechava os olhos e a dor preenchia cada lacuna de seu coração. E o silencio seguia a sua solidão.
Uma vez ele amou, ela era a mulher mais linda da Romênia, eram noivos, planejavam como seria a vida vivendo nas terras dos pais dela. Era pobre e humilde, nunca tivera dinheiro.
Ignorante e deslumbrado pela beleza dela. Sonhos construiu até que a doença veio e a levou para longe dele. Ele implorou a Deus que não a levasse mas não houve resposta.
Cego pelo ódio ele renunciou o céu e o paraíso, renunciou a Deus. Vendeu sua alma para o Diabo para  poder viver e reencontrá-la um dia. Mas a vida eterna que fora lhe dada custou sua humanidade, ele fora castigado a sede por sangue e assim viveu durante séculos, se alimentando dos vivos, com a cabeça pendurada, jogado a ruína e a dor da saudade que o torturava.
Os séculos se passaram, o camponês se tornou um conde, admirado pelas artes que o acercavam ele mesmo se tornou um artista, um músico, um professor. Um homem culto e inteligente, tinha todas as qualidades que um homem poderia desejar, tinha fortuna mas era solitário e perseguido pela solidão. Solidão de ferro que o acompanhava durante todas as noites de sua existência. Até que ela nasceu.
Sharon deu um novo significado a sua vida, aqueceu seu coração e por vinte anos nunca mais se sentiu sozinho até aquela noite.
As teclas do piano eram pressionadas incessantemente, a música que tocava retratava a dor que sentia e baixinho ele murmurava palavras de solidão e saudade.
- Outrora eu a desejei, outrora repetidas vezes – cantava o conde – mas eu não renunciaria essa dor, porque é tudo oque me restou dela.
                                                                            ***

 
Sharon acordou ao conhecido som do piano do pai que ressoava pelo castelo silencioso. O som geralmente a acalmava e aquecia seu coração mas não naquela noite.
As notas tocadas eram demasiadas melancólicas, uma canção que ela nunca havia ouvido o pai tocar. Inquieta se sentou na cama e esperou que a canção terminasse e que o pai tocasse algo mais alegre, mas a canção não tinha fim. Esperou pelo que pareceu muito tempo e a canção continuava enchendo seu coração de uma melancolia que nunca antes sentiu.
Sharon olhou pela janela dando conta de que ainda estava chovendo, levantou-se e aproximou-se do beiral, onde o rouxinol dormia profundamente. Trovejou violentamente lá fora e Sharon deu um pulo. Estava assustada por alguma razão desconhecida.
A música triste também era sombria. Sharon desejou que o pai parasse de tocá-la.
Suspirando vestiu um casaco e lentamente saiu do quarto. Enquanto andava pelo corredor infinito que levava até as escadas, Sharon se sentiu estranha, tinha medo.
Sua casa nunca lhe deu medo antes, as paredes de pedra rústica, os quadros de pessoas desconhecidas que ornamentavam as paredes, os imensos candelabros que iluminavam o castelo, as portas que rangiam, nada daquilo era assustador, no entanto naquela noite Sharon tremia. Deve ser a música, pensou ela.
Ao descer as escadas a música ficava mais alta, não era uma música feia, mas conservava uma escuridão e uma melancolia que era desconhecidos a ela, a sensação de ouvi-la era ruim e boa ao mesmo tempo e aquilo a assustava.
Atravessando o hall de entrada, Sharon se dirigiu ao salão e ao chegar à porta encontrou o pai entregue as teclas. Ele mantinha os olhos fechados. É claro, ele não precisa ver as teclas como eu, pensou Sharon irônica.
Ela ficou ali na porta por algum tempo admirando a beleza do pai e a grandiosidade com a qual ela se sentava ao piano e tocava seus sentimentos. Mesmo que naquele momento seus sentimentos a estivessem deixando com medo.
A música acabou e rapidamente outra começou. Conservava a mesma melancolia e a mesma atmosfera sombria, porém era mais alta, o conde violentava as teclas com seus dedos largos.
Sharon deu um passo para entrar no salão mas o pai começou a cantar.
Sua voz era austera, conservava um sentimento de ódio, medo e dor, muita dor.
- numa noite cheia de lágrimas – cantava o pai – oprimido num espelho,  com o vento soprando por entre salas vazias. A vida mudou, esqueceu suas lembranças aqui, para fora do tapete eu rastejo , me vendo pendurado no espelho. Morto, sem sangue e completamente arruinado.
Sharon cobriu a boca com as mãos. Estava assustada, nunca antes havia ouvido o pai cantar tais palavras. Tampouco podia acreditar que se sentisse realmente daquela forma.
Sempre acreditou que o pai fosse feliz ali ao lado dela.
Queria entrar no salão, sentar ao lado do pai e abraçá-lo mas algo a impedia. Queria ouvir mais, sabia que o pai jamais diria tais sentimentos a ela e portanto ouvi-lo cantar era a única forma de saber como ele realmente se sentia.
Se lembrava de uma vez quando pediu ao pai que lhe desse um diário.
- para que você quer um diário princesa? – perguntou ele confuso
- para escrever meus sentimentos – disse ela encabulada – sabe, segredos.
O pai sorriu para ela – sabe, acho que seria mais interessante se você não escondesse seus sentimentos em um diário.
- mas eu não tenho com quem conversar, eu não tenho amigos pai – resmungou Sharon.
- isso não é verdade, você tem a mim e pode me dizer qualquer coisa.
Sharon revirou os olhos – não é a mesma coisa.
O pai rio, e o som de seu riso era como sinos de vento tilintando.
- e porque você não canta seus sentimentos?
- oque? – perguntou Sharon sem entender
- sabe, as vezes quando estou triste, eu me sento ao piano e canto.
- mas pai você nunca fica triste – disse Sharon ao pai- você esta sempre sorrindo, ou bravo, mas nunca triste.
O pai sorrio – bom é uma idéia interessante essa que te dei, deveria pensar sobre o assunto.
Assim também estaria praticando.
Ele se levantou e saiu deixando Sharon sozinha a mesa pensativa.
Uma lágrima caiu dos olhos de Sharon com a lembrança.
Ele fica triste, pensou ela, ele só não demonstra.
As notas lentas agora ficaram mais altas e a voz do conde voltou a ressoar pelo castelo.
- Dos deuses eu desci para puxá-la para mim,  pedra antiga na noite escura no vale de lágrimas das almas. – a voz do conde parecia estar coberta de emoção agora – Eu a chamei, a ordenei, eu supliquei, mas sem olhar para mim você não me ouviu. Você não se lembra de mim com palavra alguma, você me puxou para baixo com você, e ainda bem mais fundo você me atirou, e ainda bem mais fundo você me atirou.
As lágrimas corriam soltas pelo rosto de Sharon, a canção foi morrendo
- Essa noite o vento avança por entre salas vazias – completava o conde – e o silencio, eu visto o silencio.
A música foi morrendo aos poucos e foi só quando o piano cessou que Sharon percebeu que seus pés teimosos a levaram para perto de seu pai.
O conde abriu os olhos e encarou Sharon que estava parada ao seu lado com o rosto coberto de lágrimas. No rosto do conde, Sharon conseguiu avistar uma única lágrima que escorria.
- Sharon oque está fazendo fora da cama? – perguntou o conde calmamente.
Sharon não respondeu, apenas continuou olhando para o pai que secou a lágrima do rosto rapidamente com as costas da mão.
- você estava falando da minha mãe? – perguntou Sharon com a voz rouca. – foi ela que machucou você assim?
                                                                        ***
O conde Heiselmann suspirou.
Como poderia explicar a filha os motivos que o levou a cantar aquela canção? Motivos esses que nada tinha a ver com a mulher que trouxe Sharon a vida.
- esta na hora de voltar para a cama – disse o conde pegando na mão de Sharon e a conduzindo com gentileza pelo salão.
Subiram as escadas e atravessaram o imenso corredor no mais completo silencio.
A mão de Sharon estava fria e seu coração batia incessantemente no peito.
O conde sabia que o medo, a duvida e a dor que a filha sentia agora eram culpa dele. Deveria ter percebido que a filha havia acordado, ao menos deveria ter percebido a ela estava lá parada ao seu lado. No entanto seus sentimentos sempre corrompiam seus sentidos e nada ouviu, nada sentiu além da própria dor que o consumia.
Isso não deveria ter acontecido, pensou o conde enquanto abria a porta do quarto da filha.
- deite-se – pediu para Sharon com ternura
- eu pensei que você nunca ficasse triste – disse a filha enquanto se deitava.
O pai puxou as cobertas para aquecê-la.
- Sharon todos ficamos tristes em algum momento – disse o pai se sentando na cama ao lado da filha – ninguém pode viver em uma nuvem de entusiasmo o tempo todo.
O conde passou os dedos pelo rosto de Sharon secando as lágrimas que ela derramava.
- você estava falando da minha mãe? – perguntou Sharon de novo
- não, eu não estava falando da sua mãe.
- então de quem você estava falando?
O conde suspirou - eu estava falando de uma mulher que eu conheci muito tempo antes de você nascer, antes de eu conhecer a sua mãe.
- você a amava?
- sim – respondeu ele acariciando os cabelos de Sharon
- oque aconteceu? – perguntou a filha
O conde fechou os olhos controlando seus sentimentos, não deveria falar de Elizabeta com Sharon, não deveria falar de seus sentimentos, não deveria atormentar a cabeça da filha com tristezas que ocorreram a séculos atrás.
- já faz muito tempo princesa – disse ele sorrindo – não importa mais
- mas você estava chorando – disse Sharon
- ela morreu Sharon – disse o conde suspirando
- ah – Sharon não disse mais nada
O conde continuou acariciando os cabelos da filha – durma agora – pediu ele.
- fique aqui comigo – pediu a filha. O conde sentia o coração de Sharon pesado em seu peito, sentia a confusão de sentimentos que a invadiam, e sabia que seus pensamentos deveriam estar confusos também, não podia deixá-la sozinha.
- claro que sim – respondeu ele
- cante para mim – pediu Sharon com a voz rouca, contendo o choro – como fazia quando eu era pequena.
- oque você quer que eu cante? – perguntou o conde
- seus sentimentos – respondeu ela
O conde fechou os olhos contendo a avalanche de sentimentos que estava prestes a atingi-lo.
E lentamente começou a murmurar palavras de amor a carinho aos ouvidos da filha.
- Querida, você se preocupa demais – cantava o conde – minha criança vejo tristeza em seus olhos. Você não esta sozinha nesta vida, como as vezes você pode pensar que está.

                       

Livro 1: FASSADE Cap.3



Capítulo 3
Der Jäder
(O Caçador)


Já passavam das seis da tarde quando o conde Heiselmann atravessou a passagem secreta de volta para seu escritório. Estava descansado. Seu corpo sentia que o sol estava se pondo. Finalmente havia chegado a parte do dia em que mais gostava, o momento em que ele chegava ao fim dando lugar a mais uma noite sombria e silenciosa.
O conde estava desperto, seu corpo alerta e a garganta ardia pela fome.
Sabia que precisava jantar com a filha antes de poder se alimentar e aquilo o deixava irritado.
Foi até sua escrivaninha onde encontrou os livros de cálculos e os documentos que esperavam por sua atenção desde o dia anterior. Não era de seu feitio deixar que suas necessidades suprissem seus deveres como cidadão de sua amada cidade. Sentou-se em sua cadeira e passou os olhos por um dos documentos. Sempre a mesma coisa, pensou o conde com ironia. Tratava-se da compra de terras das fazendas de café das quais era dono. O conde não se importava com terras, tampouco se importava com gado ou oque quer que fosse, mas no papel que interpretava para com aquela cidade e seus cidadãos, era necessário fingir e por outro lado o ajudava a esquecer a sede que o importunava. O conde rio e então com uma rápida olhada nos livros de cálculos, preencheu as lacunas recorrentes do documento e assinou com um floreio fino e preciso. T.H.
                                                                             ***

Sharon passou a tarde toda trancada em seu quarto. Seus olhos estavam inchados pelas lágrimas que derramava incessantemente ao pensar na forma dura como o pai a tratou quando perguntou sobre a mãe. Doía a vontade que sentia de conhecer a verdade.
Não estava pedindo demais, queria apenas saber quem foi sua mãe, como ela era e onde estava enterrada. Era injusto que o pai houvesse lhe privado do alívio de ao menos colocar uma rosa sobre o túmulo da mulher que a trouxe a vida.
Sentada ao beiral da janela, Sharon observava o jardim do castelo, estava anoitecendo e precisava descer para o jantar, no entanto não tinha vontade. Nada fazia sentido para ela, em 20 anos nada havia conquistado, não tinha amigos, seu pai nunca a deixou freqüentar a escola, recebia seus estudos no próprio quarto. Sempre foi assim a vida toda, seu pai a obrigava a ter diversos professores, a obrigava a estudar por horas a fio e Sharon nunca reclamou, as aulas de matemática e inglês eram difíceis para ela mas ficava feliz em aprender pois quando estava estudando esquecia de seus medos, esquecia dos problemas e dos desejos pela verdade. Sharon se entregava as aulas de histórias, filosofias, ciências e línguas estrangeiras, ficava feliz em aprender para agradar o pai mas nada daquilo era retribuído, pois ele nada dava a Sharon, nenhuma resposta era ofertada, apenas segredos encobertos por vestidos e jóias.
Eu preciso saber da verdade, pensou Sharon enquanto observava um rouxinol que passeava pela sua janela. O pássaro voou sem destino batendo no vidro da janela algumas vezes.
Sharon sorrio e abriu a janela, o pássaro entrou e pousou em seu braço.
- você está perdido? – perguntou Sharon admirando o lindo pássaro.
A ave deu um pio como que respondendo a pergunta. Sharon sorrio.
- pode ficar aqui se quiser, não vou fazer mal a você. O pássaro piou novamente bicando carinhosamente a mão de Sharon e então voou pousando sobre a cabeceira de sua cama.
- você é esperto – disse ela se levantando e indo até o pássaro – já escolheu onde quer passar a noite.- Sharon rio.
Uma batida na porta a sobressaltou e temendo que fosse o pai, rapidamente secou os olhos que estavam marejados de lágrimas. O pai a repreenderia se a visse chorando.
- entre – pediu Sharon se sentando na cama, o rouxinol a examinou com os olhinhos negros e então voou pousando em sua mão.
- senhorita Sharon – era Anna – seu pai a espera para o jantar.
- já estou descendo – disse ela sem animo
Anna entrou e fechou a porta – deixe-me ajudá-la com o cabelo, seu pai não gosta de vê-la desarrumada – repreendeu Anna pegando uma escova e escovando os fios castanhos e lisos de Sharon. – que tal colocar uma tiara? – perguntou Anna tentando animar Sharon.
- meu pai me compra vestidos e jóias todos os dias – disse Sharon – mas eu só queria que ele fosse sincero comigo, só queria a verdade. – Ela se entregou as lágrimas.
- Senhorita não chore, por favor.
- não faz sentido- disse Sharon – eu preciso saber sobre a minha mãe Anna
- tudo bem, mas agora não há nada que você possa fazer, ouvi seu pai brigando com você hoje pela manhã. – Anna foi até a penteadeira de Sharon e abriu uma das gavetas. – não quer que ele se irrite de novo quer?
Sharon não respondeu, suspirando ela encarou o rouxinol que jazia repousando em sua mão.
Anna pegou uma tiara de prata – oque acha dessa senhorita? É linda, você vai ficar maravilhosa com ela. Anna prendeu a tiara sobre a testa de Sharon e então sorrio.
-  que pássaro lindo – disse ela notando o rouxinol na mão de Sharon – você ganhou?
- não – respondeu Sharon sorrindo agora também – ele entrou pela janela, acho que está perdido. Vou ficar com ele.
- então deveria arrumar uma gaiola para colocá-lo – disse Anna
- não – disse Sharon – não vou prendê-lo, não quero que se sinta aprisionado como eu me sinto.
Anna não respondeu, não sabia oque dizer.

                                                                             ***

Sharon estava linda quando desceu a escada para encontrar com o pai.  Linda como sempre, pensou o conde enquanto beijava a mão da filha e a conduzia para a sala de jantar.
O jantar foi rápido e silencioso, Sharon se quer mexeu na comida. Estava machucada pela forma como havia sido tratada pela manha, mas o conde Heiselmann não podia se permitir sentir culpado. Estava fazendo oque era melhor para Sharon, ela não se sentiria melhor se soubesse a verdade.
Quando Sharon subiu as escadas de volta para seu quarto o conde ainda podia ouvi-la perfeitamente. E o som do seu choro silencioso rasgou seu coração gélido em mil pedaços.
Com as mãos segurando firme os cantos da mesa, o conde sentiu uma lágrima fria cair de seus olhos. A lágrima caiu sobre sua mão se transformando em uma pequena gota de gelo que caiu no chão de pedra e se espatifou em mil fragmentos.
                                                                         
                                                                              ***

- por favor não – gritou a mulher – me deixe ir
-nein – disse o conde com um sorriso
- eu não te fiz nada – disse a mulher horrorizada
O conde rio e então cravou os dentes afiados sobre a jugular da mulher que lentamente foi desfalecendo em seus braços. O sangue era doce e acalmava os nervos deixando o conde num estado de espírito muito melhor. Quando se sentiu saciado largou a mulher no chão. Ela ainda estava viva, mas não por muito tempo.
Quando se virou para partir a mulher lhe perguntou – porque fez isso comigo?
O conde respondeu sem se virar – porque é isso oque eu faço, é assim que eu sou.
A mulher não respondeu, o conde sentiu quando seu coração cessou. Era a quarta mulher que havia matado naquela noite. Não era de seu feitio matar, mas a dor e a solidão que sentia faziam seu coração se encher de ódio e matar era agradável.
O conde caminhou pela escuridão da noite se perdendo entre a neblina e a chuva.