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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Livro 1: FASSADE Cap. 7



 

Capítulo 7
  Der Verlust
  (A Perda)


Sharon se encontrava em seu quarto, custava-lhe a idéia de retirar o belo vestido. Mas a noite havia terminado, uma noite não bonita quanto imaginava que seria.
Lentamente com a ajuda da criada Anna despiu-se e se vestiu com uma camisola macia e confortável. O silencio havia mergulhado novamente no castelo.
Sharon se sentia mais feliz do que já se sentiu a vida toda, o pai prometera que permitiria que agora tomasse suas próprias escolhas. Finalmente se sentia adulta para escolher viver.
- foi uma noite linda – disse baixinho para si mesma
- precisa dormir senhorita Sharon – pediu a criada que acabara de preparar sua cama.
Sharon sorrio – preciso dar boa noite ao meu pai
Ela saiu do quarto e desceu as escadas a procura do pai. O salão agora estava vazio e escuro.
Ele deve estar no escritório – disse a si mesma enquanto de dirigia para o escritório do pai.
Mas ao chegar lá encontrou a sala vazia, Sharon estava saindo quando avistou algo brilhando em cima da mesa. Uma chave. Perguntou-se oque a chave abria e se aproximou da mesa para averiguar. Era uma chave pequena, não podia ser de uma porta.  Notou então a gaveta fechada a sua direita. Porque meu pai tem uma gaveta trancada?, perguntou-se e cedendo a sua curiosidade testou a chave. Talvez aqui tenha algo sobre minha mãe, alegrou-se.
A gaveta foi destrancada e Sharon olhou dentro, não havia nada alem de um livro de capa preta de couro. Parecia muito velho. Oque é isso?
Sharon abriu o livro e leu a nota na primeira página:

Rumänien, 1223:
Ich weiß nicht, wer ich bin, da verließ Elizabeta alles verloren ist.
Nichts übrig, als diesen Wunsch, sie wieder zu haben.
Ich würde alles tun ..
                           T.H.W.

(Romênia, 1223: Não sei mais quem sou, desde que Elizabeta partiu tudo esta perdido. Nada restou além desse desejo de tê-la de volta. Eu faria qualquer coisa.)

Sharon reconheceu a assinatura do pai, mas havia uma letra a mais nela. No entanto não era aquilo que a atormentava, era a data. 1223? O pai só podia ter escrito a data errada.
Tampouco se lembrava do pai ter algum dia mencionado que já esteve na  Romênia.
Sharon revirou as folhas sem ler, apenas vendo as datas, elas eram umas distantes das outras, anos de distancia. No entanto ainda não podiam estar certas. Sharon leu-as novamente aos sussurros: - 1247, 1312, 1398, 1411 – sua mente não conseguia achar uma explicação para aquelas datas, e não fazia sentindo acreditar que as datas foram escritas erradas. Percebeu que muitas folhas foram arrancadas daquele diário, oque era estranho. Não podia ter sido escrito por seu pai, não naquelas datas, mas também não podia dizer que foram escritas por outra pessoa, Sharon conhecia perfeitamente bem a caligrafia do pai – 1497, 1548, 1687,  – Sharon virava as folhas nervosamente até parar na pagina onde encontrava a data de seu nascimento, 1774.
Respirando com dificuldade permitiu-se ler a  nota ali escrita:
Berlin, 12 Juli 1774:
Evelyn Den Adel gebar ein Mädchen. Alles Bedeutung verloren
Ich fühle mich betrogen, was werde ich mit einem Mädchen zu tun?
Menschen wertlos, sollte bei der Geburt gestorben sind
                                            T.H.W

(Berlin, 12 de Julho de 1774: Evelyn Den Adel deu a luz a uma menina. Todo o significado se perdeu. Sinto-me traído, oque farei com uma menina? Deveria ter morrido no parto)

Lágrimas caíram dos olhos de Sharon ao ler tais palavras, nunca imaginou que seu pai pudesse dizer tais coisas a seu respeito. Virou a pagina e leu a nota a seguir
Berlin, 13 Juli 1774.
Evelyn Den Adel ist tot, ich tötete sie.
Ein Kind liegt in der Wiege, war alles nicht so schlimm
ist ein schönes Mädchen, gab ihr den Namen Sharon, ein Name, fit für eine Prinzessin, Mein prinzessin. wird sie mich in alle Ewigkeit begleiten und ich will nicht mehr allein sein. Nimmermehr
                                                T.H.W
(Berlin, 13 de Julho de 1774: Evelyn Den Adel está morta, eu a matei. A criança repousa em seu berço. De todo não foi tão ruim. É uma linda menina, dei-lhe o nome de Sharon. Um nome digno de uma princesa. Minha princesa. Ela me acompanhará através da eternidade e não estarei mais sozinho, nunca mais.)

- Sharon was tun sie?– a voz do pai a assustou, Sharon tentou esconder o livro atrás das costas mas o derrubou no chão.
O conde Heiselmann o olhou assustado. Sharon abaixou-se pegou o livro e colocou-o sobre a mesa.
- este é o seu diário? – perguntou ela a voz tremula
                                                                           ***

-Was tun si? – gritou o conde Heiselmann se entregando ao desespero
O conde estava imóvel, não deveria ser daquela forma. Sharon não deveria ler aquelas palavras. Rapidamente vasculhou a mente da filha na esperança de não encontrar nada que o incriminasse perante ela, mas lá estavam todos os pensamentos que nunca quis encontrar na mente de Sharon.
- tochter, deixe-me explicar – pediu o conde, as duas mãos unidas em uma suplica
- você matou minha mãe – acusou Sharon aos berros – você se quer me queria, me renunciou por ter nascido mulher, e a matou por isso.
O conde Heiselmann sentia seu desespero crescer, Sharon nunca deveria saber sobre aquilo.
- Sharon deixe-me explicar, ich bitte – o conde tentou se aproximar da filha
- nein! – gritou Sharon – não chegue perto de mim
- Sharon oque você fez? – perguntou o pai novamente – não deveria ter lido isto. Deixe- me explicar, eu te peço.
- Warum? Para que possa mentir para mim como tem feito todos esses anos?
O conde negou – eu nunca menti para você tochter
- sim você mentiu – Sharon gritava destilando acusações por entre lágrimas – você disse que minha mãe tinha morrido no parto. Lüge! Você disse que me amou desde o momento que eu nasci. Lüge! Alles lüge!
O conde se aproximou de Sharon e a segurou pelos braços. Sharon tentou se desvencilhar do aperto do pai, mas suas mãos eram fortes.
- schau mich an – gritou o conde, porém Sharon manteve os olhos no chão – eu menti sobre sua mãe para poupá-la de um erro que cometi, não queria que sofresse. Mas eu nunca menti sobre o amor que sinto por você
Sharon chorava com a cabeça baixa.
- eu não entendo – disse ela agora se entregando completamente as lágrimas, o pai a soltou. Ela pegou o diário do pai abrindo na primeira página – essa assinatura é sua?
O conde olhou rapidamente assentindo, sabia exatamente aonde aquilo os levaria. Sempre temeu aquela conversa e definitivamente nunca desejou que começasse dessa forma.
- você está falando da mulher que morreu não é? Aquela de quem me contou?
O conde assentiu
- então porque esta data? – Sharon apontou para a data que dizia 1223 – porque estas datas? – Sharon virava as folhas rapidamente mostrando as datas ao pai
- Sharon ich bitte – o conde pegou o livro das mãos de Sharon o fechando – não é assim que deveríamos começar essa conversa. Eu sinto muito se machuquei você, eu sempre quis o melhor para você mein prinzessin.
- Não me chame assim! – gritou Sharon – você matou minha mãe, como isso pode ser o melhor?
O conde não respondeu
- porque você escreveu essas datas? – perguntou Sharon novamente – ich will die wahrheit!
O conde Heiselmann suspirou – porque são as datas de quando escrevi
O conde sentiu o coração de Sharon oscilar
- oque você disse? – perguntou Sharon
- essas são as datas de quando escrevi essas notas – respondeu o conde
- eu não entendo – disse Sharon largando o diário sobre a mesa e olhando para o pai.
O conde sentiu o próprio coração despedaçar com o olhar da filha, ele pode ver o brilho que sempre esteve presente nos olhos de Sharon uma ultima vez antes dele desaparecer.
Ele viu a desilusão nos olhos de sua princesa, sua terrível confusão.
- eu vou lhe explicar Sharon, eu vou explicar tudo se me permitir
                                                                          ***

Sharon não sentia mais o chão sob seus pés, estava fria, entorpecida. Se sentia traída, enganada e confusa.
- deixe-me explicar- pediu o pai pela décima vez – Sharon não tinha mais forças para gritar, ou negar. Assentiu enquanto as lágrimas incontroláveis caiam de seus olhos.
O pai a puxou e a fez sentar-se na cadeira à mesa, ajoelhou-se ao seu lado.
- Lembra-se quando lhe contei sobre Elizabeta? – Sharon assentiu – eu a conheci e estávamos noivos mas ela ficou doente e morreu.
Sharon via os olhos do pai se encherem de lágrimas enquanto contava sua história, lembrou-se da noite em que o viu tocando piano.
- quando ela morreu me senti perdido, estava sozinho e me senti traído. Não aceitava o fato de Deus tê-la tirado de mim – o pai parou, seu rosto ficou sombrio – eu me revoltei contra Deus e o mundo, eu..
- oque? – perguntou Sharon aos sussurros
- eu fiz um trato, pedi que pudesse viver para poder reencontrá-la um dia. – o conde olhou para a filha e sussurrou de volta – Ewigkeit
Sharon não respondeu, permaneceu em silêncio. Toda a lógica tinha abandonado sua cabeça, tinha abandonado aquela conversa.
- eu pretendia contar isso a você um dia, nunca desejei que fosse assim – o conde pegou o diário de cima da mesa – oque você fez Sharon? – não era uma pergunta.
Sharon não conseguia controlar as lágrimas, sua cabeça estava rodando
- eu não entendo – disse ela
- sou muito mais velho do que você pensa filha – o conde olhou nos olhos de Sharon, Sharon viu um brilho nos olhos do pai como nunca antes tinha visto. De repente sentiu medo, como se o protetor que sempre cuidou dela pudesse machucá-la. Levantou-se da cadeira rapidamente e se afastou do pai.
- oque você está dizendo? – perguntou Sharon
O conde Heiselmann não se moveu ou tentou se aproximar de Sharon, mantinha a cabeça baixa  - eu não sou oque você acha que sou filha, existe uma maldição em mim.
Sharon teve medo das palavras do pai mesmo que não as compreendesse.
- quando ganhei eternidade, fui condenado a pagar de alguma forma – confessou o conde – nunca quis que você soubesse sobre isso, não quero que tenha medo de mim.
O conde se levantou e foi de encontro a Sharon, Sharon se esquivou do toque do pai
- eu estive todo esse tempo lutando por ter alguém para abraçar – disse o conde – não me rejeite Sharon.
Sharon suspirou limpando as lágrimas – oque você é?
O conde vacilou com a pergunta da filha – ich bin dein vater
- Sharon negou com a cabeça – die wahrheit
- Nosferatu – respondeu o conde
Sharon arfou com a resposta. Conhecia muito bem a história de Nosferatu, um conto de terror que narrava a história de um homem amaldiçoado, condenado a viver a eternidade bebendo sangue humano. Não conseguia acreditar nas palavras do pai, embora aquilo começasse a dar sentido em peculiaridades que sempre encontrou no pai. como o fato de o pai quase não comer, o fato do pai se negar a andar na luz do sol.
                                                                            ***
   A verdade atingiu Sharon como uma punhalada nas costas.
O conde Heiselmann nunca antes havia visto a filha tão confusa, tão desesperada.
Mas o pior ainda estava nos seus olhos, não havia mais luz neles, e aos poucos ele pode sentir o cheiro do medo que recendia dela. O mesmo medo que suas vitimas sentiam, agora estava no coração de Sharon. A dor o atingiu quando percebeu que a filha o temia.
- Sharon me perdoe – pediu o conde – perdoe-me por mentir para você, por esconder a verdade. Eu não queria que você sofresse.
- você matou minha mãe simplesmente – começou Sharon – ou se alimentou dela também?
O conde suspirou, não podia contar a verdade. Sim ele era um monstro que matava sem restrições, mas Sharon não precisava saber disso.
- eu a matei apenas – respondeu o conde mentindo – entenda, sei que esse foi um erro horrível, me arrependo do que fiz, mas isso nada tem a ver com oque sou.
Sharon o olhou com ódio – como pode esperar que eu o perdoe depois de tudo isso?
- porque você é minha filha e eu sou o seu pai  - disse o conde segurando o rosto da filha
Sharon empurrou suas mãos e se afastou – você não é meu pai, você é um monstro.
Sharon saiu do escritório correndo, subiu as escadas aos soluços.
O conde continuou ali parado, congelado. Aquelas palavras o tinham machucado como nenhuma outra jamais o fez. Seu coração paralisado pelo tempo estava aos pedaços.
Ouviu o barulho dos passos apressados da filha que girava de um lado a outro em seu quarto, batendo portas.  Sabia exatamente oque ela estava fazendo e não podia permitir.
O conde Heiselmann subiu as escadas correndo e num rompante entrou no quarto da filha.
Sharon fazia as malas, e não se deteve quando avistou o pai.
O conde foi até a filha e tirou as roupas que carregava de suas mãos.
- você não vai me deixar – disse ele tentando manter a calma
- então tente me impedir – ameaçou a filha
O conde jogou as malas no chão – não me ameace – gritou ele
Sharon se encolheu com medo do pai. O conde não podia evitar, sentia o ódio o dominando, a idéia de perder a filha era insuportável. Não permitiria que a filha o deixasse.
- Du bist mein – gritou o pai – e eu não vou perdê-la
Sharon agachou-se  no chão pegando as roupas espalhadas e voltou-as na mala
O conde Heiselmann tomou a mala das mãos da filha a jogando pela janela – stoppen.
O conde podia ver o medo nos olhos da filha, e aquilo apenas o deixava com mais raiva. O medo de perdê-la  o tornava violento, ele não podia se conter.
- eu pretendia fazer isso com calma – começou o conde enquanto se aproximava de Sharon que se encontrava agachada no chão – eu queria que fosse fácil, não deveria ser assim.
Ele puxou Sharon pelo braço, ela tentava se soltar do aperto do pai mas não tinha forças suficientes. – o tempo fará você entender, e quando entender você me perdoará
                                                                         ***

Sharon sentia medo das palavras do pai, todos os seus instintos a mandavam correr mas não tinha como fugir. Suas mãos eram demasiadas fortes. O rosto do Conde Heiselmann estava contorcido pelo ódio e mais alguma coisa que Sharon não pode compreender.
- me solte! – gritou Sharon
- nein! – rosnou o pai em resposta
E Sharon compreendeu oque o pai ia fazer, pode ver a transformação acontecer em frente aos seus olhos. As pupilas dos olhos do conde Heiselmann se delataram, seus lábios foram repuxados pelas presas que cresciam diante dos olhos de Sharon.
- vater, ich bitte – implorou Sharon.
O conde Heiselmann avançou sobre o pescoço de Sharon e a mordeu.
A dor nauseante a fez gritar quando as presas do pai rasgaram sua carne e o sangue foi drenado violentamente.
- vater, ich bitte – implorou Sharon – eu não quero morrer
O conde se afastou rapidamente da filha , seus olhos agora estavam confusos, as presas desapareceram, de sua boca pingava o sangue de Sharon. Ele cambaleou para trás.
- eu nunca a machucaria – disse ele, mas parecia que estava dizendo a si mesmo – eu só estou lutando para ter alguém para abraçar.
Sharon cobriu a ferida em seu pescoço com as mãos, lágrimas corriam por seu rosto.
- me deixe ir – pediu Sharon – ich bitte vater, lass mich gehen
O conde olhou nos olhos de Sharon, lágrimas caiam de seus olhos
                                                                            ***

O gosto do sangue de Sharon era doce, mas o sabor que ele trazia era tão amargo quanto a idéia de perdê-la. Não conseguia acreditar no que tinha acabado de fazer. Prometera nunca machucar a filha e agora ela sangrava na sua frente por sua culpa.
Agora entendia que jamais seria capaz de transformá-la no que ele era.
Sharon era pura, não podia se transformar num mostro sedento de sangue como ele.
- eu não quero perdê-la – respondeu o conde a filha – não quero ficar sozinho
Sharon o olhou com medo, medo era o único sentimento que podia sentir no coração de sua amada filha agora. Nenhum amor, nenhuma piedade, nenhuma esperança.
Custava-lhe aceitar que perdera a filha que amava, pois mesmo que a prendesse naquele castelo, mesmo se a condenasse a viver a eternidade ao seu lado, ela jamais voltaria a enxergá-lo como antes, e jamais voltaria a amá-lo como amou.
- ich bitte – implorou Sharon novamente
O conde Heiselmann jogou a cabeça para trás urrando de dor, lágrimas frias caiam de seus olhos.
- gehen – sussurrou o conde – eu a liberto
Sharon saiu correndo. O conde Heiselmann podia ouvir seus passos apressados descendo as escadas. Pode ouvir a porta do castelo sendo aberta, e imóvel esperou até que ouviu o som do galopar do cavalo de Sharon que corria rapidamente atravessando a ponte, se distanciando lentamente.



                                                                 



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