Nachtschatten
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quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Livro 2: INFERNO Cap. 4
Capítulo 4
Wahrheit
(Verdade)
Heiselmann retornou para o castelo uma hora antes do amanhecer, a fome agora dominada abria espaço para a clareza dos pensamentos e tudo oque conseguia pensar era que não podia mais esconder a verdade sobre quem realmente era. Adentrou no castelo e subiu rapidamente pelas escadas, Anne ainda dormia profundamente mas parecia estar perdida em sonhos tempestuosos, pois se balançava na cama agarrando os lençóis e lutando contra forças invisíveis. Ainda que os cabelos estivessem despenteados e que sua aparência fosse pálida e mal cuidada pela perda de sangue e os anos sofridos, ela era muito bonita e Heiselmann sentia novamente aquele calor no coração ao olhá-la, algo que a muitos anos não sentia.
Fechando a porta com cuidado para não acordá-la desceu pelas escadas e se dirigiu ao salão onde o grande amigo e companheiro o esperava, seu velho piano.
Permitiu mais uma vez como tantas outras que os dedos percorressem pelas teclas e que os conhecidos acordes o embalassem. Cantara aquela velha canção muitas vezes, canção que ele mesmo havia composto como todas as outras. Neste fim de noite a canção ganhava para ele um significado completamente novo. Seu nome era Kabinett Der Sinne.
- De volta da imortalidade, em casa novamente e uma pessoa novamente. A terra é beijada e o ar é aspirado, os olhos, meus olhos estão abertos e o desejo me tem mais uma vez. Eu estou vivendo. – sua voz nesta noite conserva uma emoção completamente diferente de todas as outras vezes que a cantou, a canção que era fria por sua natureza imutável, agora era cantada com sentimento e emoções de todos os tipos, todas difíceis de decifrar, vorazes ao coração.
- No gabinete de sentimentos eu acordei novamente, a minha esquerda um homem velho, a minha direita uma deusa de desejos suntuosos. O vislumbre de reflexo verde, o branco incandescente e renúncia. A escuridão cai sobre nós, eu estou sonhando com ela.
Heiselmann não notou a presença de Anne ao seu lado no piano, o vislumbre do roupão de seda preto foi tudo oque viu ao balançar do vento que ruía pelo salão vazio. Seus olhos conservavam medo mas muito mais do que isso conserva desejo também. De alguma forma ela parecia enfeitiçada com a canção que ouvia e Heiselmann não deixou de tocar por nenhum segundo, seus dedos ágeis dançavam sobre as teclas e a melodia misteriosa e encantadora enchia o salão e preenchia o castelo dando ao lugar a vida que não tinha a muitos anos.
A melodia se intensificou, Anne continuou ao seu lado ouvindo-a atentamente.
- Ela quer minha esperança, ela quer, ela quer luz – cantava o conde Heiselmann em desespero – Ela quer vida eterna, ela quer, ela quer luz. Ela quer, ela quer a verdade, ela quer, ela quer luz.
- Singen – pediu o conde e como se já conhece-se aquela canção de uma outra vida ela começou a cantar junto com ele e o assombro adentrou em seu coração quando as duas vozes se uniram como uma. Elas se completavam.
- Ela quer minha esperança, ela quer, ela quer luz. Ela quer vida eterna, ela quer, ela quer luz. Ela quer a verdade, ela quer, ela quer luz. Ela quer vida eterna, ela quer luz.
Do brilho do sol ela escapou, com asas em chamas ela fugiu para dentro da noite, olhou por sobre o mar nos rochedos. Voando de volta as estrelas, sucumbindo ao esplendor do primeiro dia e finalmente deitou-se na areia.
A canção acabou subitamente e o silencio que se seguiu foi preenchido pela respiração de Anne que se tornava cada vez mais alta. Ele podia ouvir seu coração batendo em seu peito como o de um pássaro cativo, ele levantou-se sorrateiramente e a tomou nos braços, seu corpo tinha o peso de uma pluma, ela não lutou contra ele, envolveu os braços em torno de seu pescoço. Heiselmann a carregou para cima das escadas, atravessando o corredor e a repousando sobre a cama de seu aposento. Ali no silencio do castelo escuro, apenas a luz de velas em castiçais empoeirados a chama da paixão se ascendeu novamente em Heiselmann e juntos, ele e Anne se uniram na eterna dança de dois corpos suados.
***
Anne acordou na manhã seguinte desorientada, assustada por sonhos tempestuosos e amedrontada por lembranças que esperava não ser reais. Estava nua na cama revirada.
Mein Gott – gritou ela assustada
- gutten tag – Tilo estava escondido na fresta entre o guarda roupas e a porta, os únicos pontos do quarto onde o sol não tocava.
Anne o olhou com medo, tinha algo diferente em seus olhos, algo ameaçador.
- oque aconteceu? – perguntou ela se recordando vagamente de ser atacada por aquele homem na noite anterior, se recordava de cantar ao seu lado no piano e lhe intrigava a idéia de nunca ter ouvido aquela canção estranha antes e ainda assim cantá-la perfeitamente.
- oque você prefere ouvir a verdade ou alguma mentira que possa lhe contar?
Anne não respondeu.
- porque teima em manter as cortinas abertas? – gritou ele de repente como se aquilo fosse uma falta mortal.
Anne permaneceu quieta, o corpo coberto por lençóis, agora tinha medo dele.
- é tão obcecada com a luz do dia, mas está cega, não pode ver a verdade em sua frente.
- eu não sei oque está dizendo – disse ela.
- você queria abrigo, eu lhe dei. Você queria conforto e segurança, eu lhe dei. Mas agora você deve suportar a minha verdade, você implorou por ela ontem a noite, quando se entregou facilmente à mim como uma prostituta.
Anne estava paralisada, o medo dominando cada parte de seu ser. Não reconhecia o homem a sua frente, não era mais o amigo protetor, era um monstro.
Tilo sorrio abertamente
- eu conheço esse olhar – disse ele – essa decepção em seus olhos, esse amor que aos poucos se converte em medo. Eu vi isso tudo acontecer bem diante de meus olhos anos atrás, quando perdi toda e qualquer razão que tinha para viver.
Ele deu um passo ao sol e sua pele se avermelhou imediatamente como se o sol a queimasse, ele fechou os olhos como se apreciasse a dor.
- eu ainda me recordo do medo nos olhos dela quando implorou que a deixasse ir, essa dor não é nada comparado ao que senti por sua falta durante todos esses anos.
E então como num passe de mágica ele voou pelo quarto fechando todas as cortinas e num piscar de olhos ele estava ao seu lado na cama, seu rosto colado ao de Anne a encarando com ódio. As velas do quarto se ascenderam todas ao mesmo tempo iluminando seus olhos que agora eram de alguma forma diferentes, não pareciam olhos humanos, havia algo diferente neles, um brilho estranho, um circulo de luz em volta das pupilas.
- eu pensei que você poderia substituí-la de alguma forma, mas você nunca vai chegar aos pés dela. É apenas uma cópia barata. – ele a olhou com nojo – Hure!
Anne sentia as lágrimas escorrendo por seu rosto, se levantou rapidamente e procurou qualquer roupa que pudesse vestir, se cobriu com o roupão de seda preto que estava caído no chão e correu para fora do quarto, descendo as escadas e indo em direção a saída, mas quando chegou lá ele estava barrando sua passagem. Mantinha um sorriso irônico e maldoso nos lábios.
- você pediu por isso – disse ele – você implorou por isso
- eu não sei do que está falando, ich bitte lass mich gehen – pediu ela entre soluços do choro desesperado.
- Die wahrheit – gritou ele - você queria a verdade, agora você a terá.
Anne recuou e esperou, ele levantou o queixo orgulhoso.
- Ich bin ein vampir – disse ele calmamente.
Anne sentiu um arrepio na espinha, um medo mortal. Não lhe era desconhecidas as historias de demônios bebedores de sangue, mas nunca imaginou que fosse ficar frente a frente com um. Nunca imaginou que seu anjo protetor fosse se transformar num monstro.
- oque você quer de mim? – perguntou ela tentando derrotar seu próprio medo
- ich? Ich will nichts – ele sorrio – mas você.. você quer tudo.
Anne não respondeu
- e eu posso lhe dar .. tudo.
***
Era odiosa para Tilo Heiselmann a lembrança de ter dormido com aquela mulher. Traído sua amada que permanecia tão inocente em todas suas lembranças. Ainda mais odiosa era a forma como aquela mulher se entregou a ele, como a meretriz que contara ser, exatamente tudo aquilo que sempre abominou. No entanto não podia negar que em meio a todo seu ódio alimentava um sentimento por Anne, seja ele qual fosse. Ele a queria por perto, como sua companheira para a eternidade.
Ela me completa, pensou ele.
***
Sharon Den Adel se sentia perdida enquanto ouvia pedidos para que ela não partisse.
Katrina chorava pedindo que ela ficasse – você é minha melhor amiga Sharon.
O Sr Adalberto lamentava – se pudesse lhe pagaria um salário melhor, mas não temos condições, talvez na próxima safra tenhamos melhorias e eu possa pagá-la..
- não se trata de dinheiro – disse Sharon abraçando Katrina – eu preciso mesmo ir, tenho coisas a resolver, coisas das quais abri mão por muito tempo.
- bom, sendo assim – o Sr Adalberto abraçou Sharon carinhosamente – danke chön, viele danke por tudo oque fez por nós.
Sharon agradeceu e então depois de se despedir de Katrina partiu para casa onde Christian a esperava, já havia anoitecido e a noite era fria como gelo.
- imagino que se apegou facilmente aos humanos com quem vivia – disse ele nunca tentativa falha de parecer preocupado ou amigável com Sharon. Para ela, não importava muito oque ele dissesse, sempre iria aparentar ser o monstro que sabia que na verdade ele era.
- vamos para Romênia agora? – perguntou ela sem se dar ao trabalho de responder ao comentário dele.
Ele sorrio, permanecia sentado numa poltrona no canto da pequena sala, as pernas cruzadas elegantemente, as mãos juntas a olhava com tamanho interesse que lhe assustava.
- vou levá-la para ver seu querido pai, mas tudo ao seu tempo.
- você prometeu ..
- e cumprirei como todas as outras promessas que fiz em meus 300 anos de vida
Sharon o encarou abismada. Para ela ele não aparentava ter mais de 35 anos.
- então porque me obrigou a abandonar meu emprego?
- porque a neta de Heiselmann chegou a cidade para reivindicar sua fortuna e seu castelo.
Sharon o olhou abismada – neta? Que neta?
Christian sorrio com o canto dos lábios – você.
Sharon entendeu sua linha de raciocínio. Não poderia dizer que era a filha do conde porque esta deveria aparentar muito mais idade.
- não quero aquele castelo, não quero nada que tenha a ver com meu pai.
- ora, mas eu quero – ele a encarou efusivo – precisamos de um lugar onde nos instalar, eu e os meus, considere como um pagamento pela preciosa informação que lhe dei.
Sharon não gostou da idéia de encher o castelo de seu pai de vampiros, muito menos de morar lá com eles, ainda assim não podia dizer não ao vampiro que estava a sua frente.
- como vão acreditar em mim?
- ora você é a cara da senhorita Sharon Heiselmann não tem como negar – ele riu
Sharon suspirou frustrada- quando iremos a Romênia?
- tudo ao seu tempo
- eu não quero mais esperar! – ela jogou as mãos para cima.
Numa fração de segundo ele estava na sua frente, o nariz no seu pescoço, as mãos em seus ombros – você precisará aprender a me respeitar – ele sussurrou ao seu ouvido maldoso – sou um homem bondoso Srta Heiselmann, mas não confunda minha generosidade com fraqueza.
Sharon sentiu um frio percorrer sua espinha e entendeu que uma vez estando nas mãos daquele homem não tinha nenhum controle da situação, nem mesmo de sua vida.
***
Os dias passaram rapidamente, três deles, o inverno em Berlin estava se intensificando enquanto que na Romênia as tempestades devastavam as cidades, arruinando plantações. Era um período de crise para os fazendeiros e agricultores, para Heiselmann no entanto, não fazia muita diferença. Diferente do que era em Berlin, Heiselmann não se misturava com os humanos, nunca se importou em manter uma fachada social. Vivia sozinho e aos olhos dos moradores da cidade era um homem sombrio e misterioso com o qual as pessoas não queriam esbarrar nas ruas. Muitos diziam que o castelo era amaldiçoado, religiosos pragmáticos pregavam sobre um demônio que morava nos confins daquelas velhas paredes. Heiselmann ria de tamanha perspicaz, sabia que não estavam de todo errados em seu raciocínio, mas não se preocupava, pois sabia que ninguém nunca acreditaria em tamanha loucura.
Anne fugira de seu castelo no mesmo dia em que contara-lhe a verdade, ele previra que aconteceria, mas não se importou o suficiente para ir atrás dela. Na verdade, Heiselmann não acreditava que algo na vida o importasse muito mais, tudo perdera o sentido a muito tempo.
Deitado em seu caixão, escondendo-se da terrível luz do dia, permaneciam as lembranças de sua querida princesa, o grito dela pedindo por socorro ainda o atormentava e em silencio seu coração pediu pela vida da filha, e ainda mais, pediu que voltasse a vê-la algum dia.
A noite caía finalmente, a tempestade despejava água como baldes pelo castelo, Tilo Heiselmann percorria os corredores do castelo monotonamente, sua mente vagava para onde ainda havia luz, aqueles dias com sua amada à tanto tempo atrás.
Saiu pela porta dos fundos do castelo sem se importa com a chuva que lhe ensopava as roupas e os sapatos, a água gelada caia por seu corpo sem causar calafrios, afinal oque poderia ser mais gélido do que seu corpo a tempos sem vida?
Descera a colina íngreme que levava até as ruínas do velho cemitério onde fora enterrada toda a família Heiselmann, entre os túmulos despedaçados com o tempo perdurava a lápide com o nome de sua amada.
Elizabeta Heiselmann
Geliebte Tochter
Heiselmann permaneceu ali parado imóvel perante o túmulo de sua amada, imóvel perante a dor que sentia, imóvel perante a saudade que lhe inundava enquanto uma por uma as lembranças chegavam. Tantos dias no sol, percorrendo esse mesmo cemitério, lendo as lápides de seus antepassados, Elizabeta sorria.
- porque sorri diante a morte? – perguntara Tilo intrigado e admirado com seu belo sorriso.
Ela passou as mãos pelo volumoso cabelo cacheado e respondeu-lhe
- porque todos morreremos um dia, não é fascinante?
Tilo não pensava assim, mas permitiu que ela terminasse de explicar.
- veja, não estamos para sempre fadados a viver nesse mundo, um dia, quando quisermos poderemos partir.
Ele sorrio para ela embora não concordasse com seu entusiasmo. A segurou firme em seus braços – não quero ir para lugar algum sem você
Ela tocou-lhe o rosto com olhos em chamas – e acredita mesmo, meu amado, que eu partiria sem você?
Uma lágrima caiu dos olhos de Heiselmann se misturando com a chuva que caía sem piedade, o vento castigava as arvores, os trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos clareavam a noite. Dentro de seu peito a tempestade de sentimentos o castigava e as lágrimas fluíam vindas de uma fonte que ele pensara que a muito havia secado.
- outrora eu a desejei, outrora repetidas vezes – cantou ele baixinho esperando que de onde quer que ela estivesse, pudesse ouvi-lo. – mas eu não renunciaria essa dor, pois é tudo oque me restou dela.
Aos poucos a dor foi dominando-o e Heiselmann foi desmoronando, caindo de joelhos sobre o chão lamacento, suas mãos agarravam a grama do chão, as presas cortavam-lhe os lábios enquanto permitia-se chorar todas aquelas perigosas perguntas que o atormentavam:
Porque o destino foi tão cruel consigo?
- você se foi – gritou ele para o tumulo de Elizabeta – você se foi e eu estou preso a este mundo sem você. – sua voz foi enfraquecendo e ele se permitiu repousar ao lado de sua amada, desejava que tudo finalmente terminasse, esperava pelo sol do dia seguinte. Acima de tudo, esperava poder revê-la, reencontrá-la na morte se esta fosse lhe concedida.
***
Sharon adentrava o castelo de Neuschwanstein e aquilo lhe trazia tantas lembranças, estava tudo lá, da mesma forma como estivera na noite em que partira. Caminhava pelos corredores empoeirados tentando se mostrar fria mas por dentro estava em chamas.
Os móveis foram cobertos por tecidos brancos, os candelabros do grande salão de festa agora estavam tomados por teias de aranha que brilhavam como fios de prata. E lá no fundo, onde tantas vezes dançou em suas aulas de balé, o piano perdurava. Sharon puxou o tecido levantando uma nuvem de poeira, o piano negro chorou quando ela tocou uma de suas teclas.
- se puder assinar aqui Srta Heiselmann a transferência será feita para seu nome.
O tabelião a analisava por de trás dos óculos de fundo de garrafa, se acreditava nela ou não, Sharon não podia dizer.
- é confuso que seu avô não tenha dito nada sobre uma neta.
- meu avô esta morto, sou a única herdeira de seus bens, esta duvidando de minha palavra?
O velho abaixou a cabeça – mas é claro que não, tive o prazer de conhecer vossa mãe, permita-me dizer que é exatamente o retrato dela, tão bela quanto ela fora um dia.
Sharon suspirou e pegando a pena que o homem oferecera a ela, assinou o documento que fora lacrado com o selo do tabelião de notas e entregue a ela numa pasta de couro.
Quando o homem se foi, Sharon notou que o sol começava a se por, o silêncio inundou novamente o castelo e Sharon se permitiu sentir, sentia a dor pelas mentiras e pelo preço da verdade que naquela noite roubara toda a sua felicidade. Sentia medo pelo futuro incerto.
Sharon caminhou até o saguão de entrada do castelo encontrando ali os dois afrescos pintados pelo próprio conde Heiselmann, um auto retrato onde o conde aparecia imponente e perigoso em toda a sua gloria e beleza, e o outro era um retrato da filha. Sharon tinha o rosto suave, não era como se fosse mais jovem, sabia que não envelhecera um dia desde então, mas algo era diferente. Era como se naquele retrato ela conservasse uma inocência que agora não existia mais. Ela se lembrava tão bem daquele dia quando o pai a pintou, uma noite encantadora, riam e brincavam como sempre faziam.
Uma lágrima caiu dos olhos de Sharon ao se recordar.
Ich vermisse dich papa – pensou ela.
Sharon só percebeu que tinha passado muito tempo olhando aquele retrato quando visualizou Christian parado ao lado dela.
- prometo que vou levá-la até ele.
Sharon limpou as lágrimas – não sei se vale a pena correr atrás de um passado que se foi a tanto tempo.
Ele sorrio para ela – tanto você quanto ele tem a eternidade pela frente, porque não podem simplesmente esquecer o passado e recomeçar?
Sharon trincou os dentes – ela matou a minha mãe.
- somos todos assassinos – disse Christian – é a nossa natureza, oque realmente importa é que ele passou 20 anos de sua vida fingindo ser humano, se privando de suas necessidades por você.
Sharon abriu a boca para falar mas ele a tapou com o dedo
- er liebt dich, não duvide disso.
- você o conheceu?
- o suficiente para não lamentar a sua partida de Berlin
Sharon assentiu. – e oque acontece agora? Oque eu faço?
Christian não respondeu, apenas sorrio.
Nos minutos que se passaram o castelo foi invadido por dezenas de vampiros, eles vinham de todos os lados, entravam pela porta da frente e se acomodavam nos sofás, revirando o castelo como se este pertencesse a eles.
Sharon ficou paralisada quando uma vampira veio em sua direção, vestia meias pretas rasgadas, um vestido provocante demais para uma mulher decente e botas, parecia uma meretriz. Seus lábios eram vermelhos como sangue e os olhos pintados de preto.
- Ora, ora, se não é a filha do conde – sua voz era arrastada e terrivelmente venenosa.
Ela se aproximou de Sharon, sua respiração em seu pescoço – não é humana realmente, tem um aroma diferente – a vampira parecia intrigada – parece ainda mais saborosa.
- Sonya afaste-se dela – ordenou Christian
Sonya riu – come ti pare, mio signore
A vampira olhou friamente para Sharon – nos falamos depois, princesinha – ela riu mostrando presas terrivelmente afiadas.
Sharon acompanhou com os olhos enquanto a vampira se afastava rebolando e se juntando a outro grupo de vampiros que tinham encontrado a velha adega de seu pai e agora se serviam de bebidas e fumavam rindo e falando numa língua que Sharon acreditava ser italiano.
- não se preocupe com Sonya, ela é inofensiva – disse Christian sorrindo solidário para Sharon.
Sharon o encarou incrédula – não é oque parece
Ele riu – é exatamente oque ela quer que você pense. O medo mantém as pessoas afastadas. Criar o medo ao seu redor de alguma forma é uma espécie de escudo protetor. Se temem você não tentarão lhe fazer mal.
Sharon pensou em seu pai, em como as pessoas pareciam ficar desconfortáveis perto dele. Seria mesmo isso? Ele estava se protegendo? No entanto Sharon nunca se sentiu desconfortável perto do pai, pelo contrário, estar com o pai lhe trazia paz.
- vocês ficarão na cidade por muito tempo?
Christian suspirou refletindo – acabamos de chegar, estávamos exaustos dos ares de Roma, ficamos por lá por mais de 30 anos. É bom voltar a Berlin.
Sharon entendeu o recado, não teriam pressa para irem embora.
- mas iremos para a Romênia logo, não é ?
Ele assentiu – iremos para a Romênia quando nos for conveniente. Por enquanto sossegue-se, afinal tanto você quanto seu pai tem tempo de sobra.
Sharon suspirou derrotada, teria que esperar.
- vou me retirar para meu quarto – disse ela – por favor não permita que destruam a casa.
- pensei que não se importasse com o castelo.
Sharon encarou o quadro de seu pai – eu também.
***
Anne corria com todas as suas forças, fugia dos capangas de Laurentiu, e agora enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto amaldiçoava a infeliz idéia de fugir do castelo daquela forma.
Não importava o quanto estivesse assustada com a verdade revelada por seu protetor, ele ainda soava menos perigoso do que os homens que corriam atrás dela.
Entre um descuido e outro caíra novamente nas mãos do destino e outra vez se via fugindo, mas desta vez não tinha mais forças para lutar, estava fraca e cansada.
Enquanto corria por becos sem fim fugindo dos cruéis homens que a perseguia, e da fria chuva que caia aos baldes sobre sua cabeça, amaldiçoou a vida que fora lhe dada e desejou a morte.
Num tropeço tombara e caíra nos pés de um de seus captores. Laurentiu.
O homem a segurou pelos cabelos e a levantou do chão a fazendo olhar em seus olhos malignos. – olá Anne, onde esteve escondida todo esse tempo?
Anne juntou todas as suas forças tentando escapar, mas suas mãos eram fortes.
- ora, minha querida, eu sei que apenas se perdeu e não conseguiu achar de volta o caminho de casa. – ele a olhou com olhos de um louco, sua paixão por Anne era doentia. – eu a procurei por todo esse tempo, senti tanto a sua falta, minha amada.
Laurentiu aproximou o rosto ao rosto de Anne, seu cheiro era repulsivo, ele então beijou seus lábios violentamente. Sem conseguir se conter, Anne o empurrou e cuspiu em sua face.
Ele lambeu os lábios e então a esbofeteou com força – você vai aprender a me respeitar!
Os homens de Laurentiu gritavam e riam da cena.
- diga-me onde esteve escondida todo esse tempo
- Nein
outro tapa atingiu seu rosto e Anne sentiu o sangue em sua boca quando os dentes lhe cortaram as bochechas.
- eu mandei me dizer onde estava escondida
- e eu ouvi, mas não irei dizer – desafiou Anne.
- ensine a ela uma lição Lau – gritou um de seus capangas.
O homem largou Anne por alguns segundos e a empurrou contra a parede do beco, ele desafivelou sua cinta e Anne sabia oque vinha a seguir, já tinha passado por isso outras vezes.
Ele segurou a cinta nas mãos ameaçadoramente – diga onde estava escondida
- nein
A cinta encontrou seu rosto e o sangue fluiu quando a fivela bateu em sua testa. Outros golpes vieram, os homens riam, queriam ouvi-la gritar, mas Anne não lhes daria tal satisfação.
Agüentou todos os golpes calada, embora suas pernas não fossem mais capaz de agüentar o peso de seu corpo. Aos poucos foi desfalecendo, caindo no chão.
Laurentiu colocou o pé em seu rosto apertando – diga-me onde estava escondida.
- nein
O homem a chutou no estomago com força e Anne perdeu o fôlego, outros chutes vieram e não satisfeito chamou seus capangas que se juntassem a festa.
Os golpes vinham de todos os lados, a visão de Anne estava turva e o ar não vinha mais aos pulmões, a dor era tão tremenda que seu corpo sofria espasmos e sabia que seus ossos não agüentaria por muito tempo. Gritou quando um dos homens a pisoteou com força nas costelas, pode ouvir o romper dos ossos e não conseguiu mais se segurar, toda a força se esvaiu e gritou a plenos pulmões.
- stoppen, bitte, bitte, stoppen
Eles riram, Laurentiu se abaixou e se aproximou de seu rosto.
- vai dizer agora?
Anne assentiu.
- onde estava escondida?
Anne implorou que o torpor e a escuridão a dominassem, implorou pela morte, mas esta não viria tão facilmente. Sua boca pingava a sangue, seu rosto escorria sangue e todo o corpo estava esfolado e sangrava.
- sagen – gritou Laurentiu – onde estava escondida? Quem ajudou você?
- Stirbei – gritou Anne com toda a força que conseguiu reunir – eu estava no castelo de Stirbei.
Os homens pararam surpresos e Laurentiu riu – isso não é verdade.
- sim, é – disse Anne desesperada, se não acreditassem nele continuariam batendo.
- não existe ninguém naquele castelo.
- o nome dele é Tilo – as lágrimas escorriam pelo rosto de Anne ao se lembrar dos poucos dias que passou no castelo, apesar de todo o medo que Heiselmann a fez sentir no ultimo dia, ele fora bom para ela de uma forma que ninguém nunca fora em toda sua vida.
- peguem-na. Coloquem-na no cavalo. – exigiu Laurentiu
Um homem pegou Anne de qualquer forma do chão e ela gritou quando o corpo fora jogado em cima do cavalo, pendurada como uma saca de batatas. Eles montaram.
- vamos para o castelo – gritou Laurentiu.
***
Tilo Heiselmann foi despertado de seu torpor por gritos de agonia e vozes que gritavam ordens. Apurou os ouvidos para ouvir além da tempestade que persistia e pode reconhecer os gritos e choro de Anne. Não sabia oque estava acontecendo e por uma fração de segundo acreditou fielmente que não se importava. Até que um grito mais forte ressoou o fazendo lembrar do som que ouvira dias atrás acreditando que pudesse vir de Sharon.
- Tilo! - Era um pedido de ajuda.
Numa fração de segundo Heiselmann se colocou de pé e correu em direção aos gritos.
Quando chegou no saguão de entrada do castelo viu Anne ensangüentada nos braços de um homem mal trapilha que cheirava a cavalos.
- ora, ora, não é que a puta estava falando a verdade – disse o homem encarando Heiselmann com olhos de águia.
- lassen sie jetzt – disse ele calmamente
- os homens riram – sério? E oque fará se eu não quiser soltá-la?
Heiselmann sentiu a ira crescer dentro dele, além do mais o cheiro do sangue de Anne o estava enlouquecendo.
- você não quer saber isso – respondeu ele friamente.
- Tilo.. – a voz de Anne estava fraca, era apenas um resmungo.
Os homens o cercavam aos poucos, prontos para atacá-lo a qualquer momento, ele se mantinha parado – lassen sie
- ah você a quer? – perguntou o homem petulante – diga-me porque se interessa tanto por ela? Ela já lhe mostrou suas qualidades não é? Você gostou? Devo dizer que fui eu quem ensinou tudo oque ela sabe.
Heiselmann sentiu a ira crescer dentro dele e suas presas se alongaram e não fez questão alguma de escondê-las. Soltou um rosnado por entre as presas e então o homem o encarou com medo.
- lassen sie – sua voz era um grunhido nada natural
- peguem-no – gritou ele para seus capangas. Mas Heiselmann foi mais rápido, num instante se virou e agarrou um dos grandes pelo pescoço, o homem se debateu até que ele torceu seu pescoço entre as mãos. Outro tentou agarrá-lo por trás, mas ele se virou rapidamente segurando seus pulsos e torcendo seus braços para trás, sem o mínimo de força os dois braços do homem estava em suas mãos enquanto o homem gritava alucinado no chão. Heiselmann pisou em seu pescoço até que ele morresse sufocado. Os outros dois homens agora estavam encurralados na parede, quando tentaram puxar ar armas, Heiselmann voou até eles segurou um em cada mão, estrangulando um deles e o outro mordeu na artéria sentindo o sangue descer por sua garganta. O homem gritou e então caiu morto no chão.
O outro ainda se debatia enquanto morria lentamente e então Heiselmann sentiu o ardor do fogo quando o quinto homem que mantinha Anne presa em seus braços atirou contra ele atingindo seu ombro. Ele rosnou se virando rapidamente, do queixo pingava o sangue de seu companheiro. O homem soltou Anne a jogando no chão e disparou contra Heiselmann outra vez, desta vez no peito, mas ele não parou, continuou caminhando cruzando o saguão.
O homem correu então até a porta da saída mas ao chegar lá Heiselmann já estava o esperando. Ele ergueu o homem no ar e com uma das mãos arrancou-lhe a cabeça jogando-os no chão.Heiselmann ficou parado por alguns segundos tentando se acalmar.
O chão do saguão era uma poça de sangue na qual Heiselmann caminhou até encontrar Anne que se arrastava para longe dele enquanto se aproximava.
Não a julgava por temê-lo.
Heiselmann a pegou no colo e a levou escada acima. A colocou na cama e a observou.
Os cabelos estavam grudados ao rosto empapados com sangue. Todo o corpo estava machucado, roxo e sangrando e sua posição era extremamente preocupante, haviam lhe partido as costelas, conhecendo a fragilidade dos humanos sabia que não sobreviveria a tais ferimentos.
- vou morrer, não vou? – perguntou ela, a voz era fraca e sofrida.
Heiselmann a encarou em cólera – é isso que quer?
Anne encarou o teto e uma lágrima escorreu de seus olhos – não quero mais sofrer.
Ele consentiu.
- estou com medo – disse ela
– posso fazer a dor passar, se é isso que quer
- Haluan vain elää
Heiselmann puxou a manga da própria camisa e mordeu o pulso fazendo com que seu próprio sangue jorrasse. Anne não pareceu assustada, estava quase catatônica.
Ele se aproximou da cama e ofereceu o pulso a Anne – trinkt mein blut
Anne colocou os lábios em seu pulso e quando seu sangue tocou-lhe os lábios e sentiu o seu sabor agarrou-lhe o braço sugando com toda a sua força.
Heiselmann mantinha os olhos fechados enquanto seu sangue era drenado pela humana.
Então puxou o braço e se sentou na cama, os batimentos cardíacos agora estavam acelerados, o veneno de seu sangue começara a trabalhar no organismo de Anne. Mas ainda não estava terminado.
- eu lhe dei a chave para uma nova vida, mas antes precisa morrer nesta vida.
Anne o encarou assustada e numa fração de segundo ele voou em seu pescoço drenando-a até a última gota, até seu coração parar finalmente de bater.
Ele a largou na cama morta, mas ainda assim viva.
Saiu do quarto fechando a porta as suas costas.
Nunca antes havia feito aquilo, nunca antes tinha tornado um humano em vampiro, mas já desejara fazê-lo, e ver Anne sugando-o daquela forma o fez voltar a noite do baile de Sharon.
A vida que dava a Anne agora deveria ter sido dada a Sharon naquela noite.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Livro 2: INFERNO Cap. 3
Capítulo 3
Unerkannt
(Desconhecido)
Sharon acordou atordoada, ao se lembrar do terrível ataque que sofreu pulou da cama e olhou em volta. Estava em sua casa. Suspirou tentando manter a calma, pensou se aquilo poderia ter sido um pesadelo, mas a dor lacerante que sentia no braço e a mancha rocha que ali estava provava o contrário.
Como consegui escapar daquele monstro? Perguntou-se ela se lembrando imediatamente do segundo homem. Ela sabia que ele também era como seu pai, viu a forma como ele se moveu diante de seus olhos, no entanto ele a salvou. Porque?
De repente Sharon teve medo de que ele pudesse ainda estar em sua casa, saiu do quarto e correu pelos corredores da pequena casa, mas não havia ninguém ali além dela.
Suspirou aliviada. Olhou no relógio, eram dez da manhã.
Segundo o pouco que sabia sobre aqueles monstros, eles não podiam sair ao sol, então estava segura durante o dia.
Deixa de ser boba, se ele quisesse te matar ele já tinha feito, pensou ela irônica.
Havia desmaiado nos braços daquele homem, o mesmo que a havia salvado do outro monstro que tentara matá-la segundos antes. O homem a trouxe em casa e partiu.
Não era bem o comportamento que esperava dessas criaturas.
Um aperto em seu coração a fez lembrar que o pai conviveu com ela por vinte anos sem nunca machucá-la. Durante sua vida inteira nunca desconfiou do que o pai era.
Talvez alguns deles sejam bons.
No entanto a lembrança das frases rabiscadas do diário de seu pai a fez mudar de idéia imediatamente: Evelyn está morta, havia escrito seu pai, eu a matei.
Lágrimas se formaram nos olhos de Sharon e ela lutou para afastá-las.
Porque esses fantasmas do passado não podiam simplesmente deixá-la em paz?
Porque não conseguia esquecer?
E agora isso? Depois de quarenta anos eu tinha que encontrar esses monstros?
As criaturas sedentas de sangue que Sharon encontrá-la na noite anterior só serviam para fazê-la lembrar do pai. Embora tivesse ficado com medo no momento e tentado fugir, agora,
analisando a situação com calma, preferia que tivesse morrido.
Só a morte poderia me trazer paz.
Sharon caminhou de volta para seu quarto, se dando conta de que estava atrasada para o trabalho, trocou de roupa rapidamente sem se dar ao luxo de tomar o café da manha.
Já estava saindo do quarto quando encontrou um pedaço de papel em cima de sua mesinha de cabeceira. Sharon pegou o papel nas mãos e o encarou, a caligrafia era bonita e claramente masculina:
Fräulein Heiselmann
Ich weiß, Sie über den Vorfall haben Angst letzte Nacht
aber ich weiß auch, dass es viele Fragen in seinem Kopf
das brauchen Antworten.
Wenn Sie reden wollen, kann ich ihnen antworten.
Ich verspreche, ich werde dich nicht das Böse.
Wenn Sie jemanden wie mich vertrauen kann, bin ich bereit, ihr zu helfen
was will man mehr.
PS Da ich denke, Sie wissen, ich kann nur mit entsprechen
Fräulein Nacht.
Vorbei an Ihr Haus um zehn Uhr genau, lass mich ein Zeichen
wenn du mich gehen wollen.
Ein Freund
(Senhorita Heiselmann sei que está assustada devido ao incidente da noite passada
mas sei também que existem muitas perguntas em sua cabeça que precisam de respostas.
Se quiser conversar poderei respondê-las. Prometo que não lhe farei mal.
Se puder confiar em alguém como eu, estarei disposto a ajudá-la naquilo que mais deseja.
P.S. Como imagino que saiba, só poderei me encontrar com a senhorita à noite.
Passarei por sua casa às exatas dez da noite, deixe-me um sinal se quiser que eu entre.
Um amigo)
Sharon pensou por alguns segundos.
Como esse homem sabe o meu nome?
Desde que fugira da casa de seu pai, à quarenta anos atrás nunca mais usou o nome Heiselmann, escolhera deixar o passado para trás assumindo o sobre nome da mãe e avó:
Den Adel.
Estarei disposto a ajudá-la naquilo que mais deseja, disse o homem.
Do que ele está falando? Meu pai?
Sharon estava assustada e o pior, esperançosa. Aquele homem poderia ajudá-la a encontrar seu pai? Mas será mesmo que ela queria encontrá-lo? Para que?
Provavelmente ele pensa que estou morta, pensou ela infeliz.
Sem se permitir chorar, guardou o papel na gaveta e estava saindo do quarto quando uma idéia lhe passou pela cabeça.
Deixe-me um sinal se quiser que eu entre.
Sharon pegou um lençol branco e o amarrou firmemente na janela de seu quarto.
Suspirando, pegou sua pequena bolsa e saiu para o trabalho.
***
Tilo Heiselmann se encontrava escorado na parede do cômodo escuro, seus instintos lhe diziam que o sol estava se pondo. Agradecendo a quem quer que fosse ele suspirou.
Ainda pensando em Sharon, resolveu tentar banir aqueles pensamentos de sua mente,
precisava lhe dar com um assunto delicado. Anne Nivyeska.
Como pude deixá-la ficar? Pensou o conde preocupado. O descuido da humana, embora inocente, havia causado a ele um transtorno muito maior do que as queimaduras que agora ardiam em sua pele. Fora obrigado a permanecer trancafiado naquele quarto o dia todo.
Trancafiado em minha própria casa.
Além do mais, embora tivesse se alimentado na noite anterior, pela dor extra que sentia estava terrivelmente faminto e ali na Romênia tinha que tomar muito mais cuidado ao se alimentar.
Não sou o único aqui, pensou o conde se lembrando das poucas e desagradáveis vezes que se deparou com outros de sua espécie. Odiava se misturar, pois lhe parecia que nenhum deles eram como ele na verdade. Não sabia afirmar se fora o primeiro ou se o Diabo antes, já houvesse feitos outros tratados como aquele que lhe custou sua humanidade.
Algo que o conde Heiselmann sempre observou naqueles de sua mesma espécie que encontrara foi o fato curioso de que eles não pareciam capazes de conviver sozinhos. Estavam sempre em bandos, como se a vida na solidão e na ausência de um líder lhes fossem desconhecida ou talvez difícil de suportar.
Antes, quando perdera sua filha, o conde ponderou a idéia de sair em busca de um clã ao qual pertencer, mas sua superioridade nunca permitiu-lhe considerar realmente o fato.
Vivo apenas para mim mesmo, pensou o conde, seguindo minhas próprias regras, eles deveriam me seguir, nunca o contrário. Sou um líder!
O conde subiu as escadas e atravessou a pequena porta em direção a seus aposentos.
o quarto agora estava escuro, as cortinas e janelas novamente fechadas.
Atravessou o aposento e enquanto caminhava pelos corredores desertos do castelo, seus passos ecoando na escuridão, sentiu um aroma que a muito tempo não sentia.
Comida. A julgar pelo cheiro, poderia jurar que fosse feijão, algum tipo de legume cozido e carne de porco. Alimentos que ele mesmo havia trazido para casa para que Anne se alimentasse.
Anne. pensou o conde irritado e abismado que aquela situação em particular lhe parecesse acolhedora. Quase como se naquele instante Tilo se recordasse de como era ter um lar.
Por fim, enquanto descia as escadas e atravessava o salão em direção a sala de jantar, sorrio e ao se surpreender por ser pego sorrindo, sentiu-se irritado.
***
Anne estava colocando os pratos na mesa, esses que estavam completamente empoeirados como se não fossem usados à décadas, quando Tilo atravessou a porta e seu coração se acelerou com a presença do homem deslumbrante. No entanto algo estava errado, havia marcas em seus braços, pescoço e rosto. Parecia queimaduras.
- mein gott – Anne correu até ele tocando seu braço – oque aconteceu?
Antes dele responder ela recolheu a mão e se sentiu corar por seu atrevimento.
- não foi nada – disse ele um tanto rude, parecia de mal humor – um infeliz acidente.
- posso cuidar desses machucados para você – disse ela preocupada e pronta para agradá-lo no que fosse possível. Afinal aquele homem havia abrigado a ela e compreendido seu passado de um jeito que nenhum outro jamais fez.
- nein – disse ele serio – ficarei bem.
Sem se abalar Anne sorrio para ele – eu preparei o jantar, e tive o atrevimento de limpar seus aposentos, espero que não se importe. Estava tudo tão empoeirado.
Tilo sorrio para ela, mas o sorriso pareceu forçado.
- Dunke – agradeceu ele.
- venha comer – Anne serviu um prato com a comida que havia preparado com tanto carinho e colocou na mesa, puxando a cadeira para que se sentasse.
Estava acostumada a servir mesas, era seu novo trabalho desde que Laurentiu a tirou da tarefa de servir homens.
- não estou com fome – disse Tilo – na verdade já jantei.
O coração de Anne pulsou em decepção. – ah que pena.
Ela tentou não demonstrar seu descontentamento exagerado, mas foi impossível e é claro que ele notou.
- no entanto a comida esta tão cheirosa, - ele sorrio abertamente para ela mostrando dentes perfeitamente brancos e bonitos. - acho que vou experimentar.
Anne sorrio de volta para ele radiante.
Ele se sentou, pegou os talheres e começou a comer.
Tão educado, pensou ela admirando-o enquanto comia.
- não vai comer? – perguntou ele, aparentemente o mal humor havia sumido, ou, como o cavalheiro que era, estava disfarçando muito bem.
Anne serviu-se e se sentou a mesa ao seu lado, no entanto sentiu-se envergonhada por seus modos não ser tão finos quanto os dele.
***
Custava ao conde Heiselmann acreditar que estava outra vez se submetendo aquilo, fingindo ser humano para uma humana. No entanto oque mais lhe surpreendia era que, embora o gosto terrível da comida o irrita-se e a fome real nele se alastrasse queimando sua garganta pela proximidade da humana, estava incrivelmente feliz por sua presença.
Anne comia devagar, envergonhada, imaginava ele, por não ser tão boa com os talheres.
No entanto oque antes o irritava muito, a falta de bons modos a mesa, agora não lhe interessava o suficiente para incomodá-lo.
Oque realmente incomodava Heiselmann naquele momento era o rápido pulsar do coração de Anne, cada batida era uma dose a mais daquela maldita ardência que queimava sua garganta.
Para piorar as queimaduras causadas pelo sol doíam causando mais sede, e elas não curariam enquanto ele não se alimentasse.
Pegou-se observando a forma como as veias do pescoço de Anne se sobressaiam através da pele fina quando movia o maxilar para mastigar. A pele tão branca deixava a mostra veias levemente arroxeadas e elas pulsavam fazendo sua boca secar.
Quando começou a imaginar como seria a sensação de colocar seus lábios naquele pescoço e sentir o sangue quente e doce descendo por sua garganta, Tilo sentiu as presas se alongarem.
- oque foi? – perguntou Anne a ele com um sorriso tímido. Ele já não estava conseguindo disfarçar sua sede, não conseguia tirar os olhos dela.
- ich kann nicht – desculpou-se o conde saindo da sala de jantar em disparada.
Andou rapidamente pelos corredores, atravessando o salão.
As presas afiadas furavam seus lábios e o próprio sangue só servia para deixá-lo ainda mais sedento. Correu até o bar que sempre deixava bem estocado com garrafas de single malte , abriu uma garrafa e se serviu de um longo gole que tomou direto do bico.
Mas nem mesmo o álcool era capaz de aplacar a sede que sentia.
Como pude ser tão descuidado? Lamentava-se o conde. Porque me permiti ficar tão faminto? Porque não me alimentei antes?
Lembrou-se do incidente em que passara a tarde toda preso naquele maldito quarto, ao se dar conta de que a culpa sempre pendia para a humana, amaldiçoou a idéia infeliz de tê-la acolhido.
O maldito cheiro de Anne estava impregnado no castelo todo, não podia fugir.
Preciso sair daqui, pensou o conde se afastando.
Estava cruzando a porta quando Anne o chamou.
- Warten! – chamou Anne correndo em sua direção.
Contra sua vontade, prendendo a respiração o máximo que pode se virou para observá-la.
Maldição está chorando!
- oque eu fiz? – perguntou Anne infeliz – sei que está incomodado com alguma coisa que fiz, me diga oque é. Foi porque limpei seus aposentos sem sua permissão? Ich tut mir leid..
- nein, não é nada disso – Tilo tentou se desculpar com a mulher que se desmanchava em lágrimas perante ele, mas estava tão faminto que doía. Não podia ficar mais nenhum segundo na presença dela.
- eu preciso ir – disse ele se virando. Então Anne o segurou pela mão e o simples contato de sua pele quente na sua, ou a surpresa do gesto atrevido foi o suficiente para que seu auto-controle se esvaísse.
Num movimento rápido, Tilo segurou Anne peço pescoço e a puxou para si, embora estivesse assustada, ela não gritou quando ele afastou seus cabelos e levou suas presas até seu pescoço. Quando a mordeu ela se debateu em seus braços mas ele a segurou com força.
O sangue doce que descia pela sua garganta acalmou instantaneamente a ardência, fazendo com que as queimaduras se curassem instantaneamente.
Lentamente sentiu que a mulher desfalecia em seus braços, ainda estava sedento, poderia beber dela até a ultima gota, mas não foi capaz de matá-la.
Lutando contra a vontade de continuar ali bebendo daquele sangue tão doce, pendeu a cabeça para trás se afastando de seu pescoço. O sangue quente de Anne escorria por seus lábios.
Anne estava beirando a inconsciência, sua camisa branca emprestada, que no corpo esbelto de Anne ficava tão bonita, estava vermelha com o sangue que escorria de seu pescoço.
Quando desmaiou, ele a pegou em seus braços.
Totalmente entregue a mim, pensou o conde enquanto caminhava pelo castelo. Atravessou o salão, as escadas e a levou para seus aposentos, repousando-a em sua cama.
Observou-a por alguns segundos ali deitada. A camisa levemente transparente deixou evidente seios fartos. Agora com a sede aplacada, sentiu uma sensação que a muito tempo não sentia. Desejo.
Sorrio para a mulher desmaiada em sua cama e levou um dos pulsos a boca, mordendo-o.
Quando seu sangue vermelho escuro escorreu pelo corte feito pelas presas, ele se sentou na cama e esfregou o pulso sobre a ferida do pescoço de Anne.
Instantaneamente a ferida causada por suas presas se fechou.
Anne dormia profundamente, e assim continuaria durante toda a noite.
O conde Heiselmann afastou os cabelos negros e lisos de seu belo rosto. Sua expressão não era de medo, estava apenas dormindo.
Sorrindo deixou o quarto, fechando a porta atrás de si.
Ao descer as escadas o corte em seu pulso já estava completamente curado, a garganta não ardia mais, embora ainda estivesse com sede.
De repente varias sensações o tomou completamente.
Fascinação pela mulher que repousava em sua cama, desejo e curiosidade em saber como seria tê-la em seus braços e então remorso ao recordasse da vez em que da mesma forma, a força, mordeu Sharon.
O sangue de Anne embora tão delicioso não era tão doce quanto o de Sharon, e esse simples fato, o fato de ele conseguir mesmo depois de tantos anos fazer a distinção provava a Heiselmann que nunca fora capaz de esquecer o gosto do sangue da filha.
Quão asqueroso isso é de minha parte? Lamentou-se o conde.
Por fim, servindo-se de mais uma dose de whisky, pegou o casaco e o chapéu que aguardavam por ele sobre a mesa do bar e então saiu pela noite em busca de uma presa a qual pudesse beber sem restrições.
Suas emoções tumultuadas dentro dele o deixavam com ódio e apenas uma coisa podia aplacar esse ódio que crescia dentro dele.
Matar.
***
Sharon voltava para casa depois de um dia cansativo de trabalho no restaurante do Sr Adalberto. Katrina havia pedido que passasse a noite com ela, mas Sharon não podia deixar de estar em casa caso o homem estranho fosse mesmo lhe visitar.
Que idéia mais ridícula, pensou ela enquanto caminhava lentamente pela rua, o sol havia se posto a apenas uma hora, mas as ruas já estavam começando a ficar desertas.
O medo de encontrar com o homem que a atacara na noite anterior a deixava apavorada.
Apertou o passo andando o mais rápido que podia sem correr.
Como posso confiar naquele homem? Se perguntou amedrontada. O fato de estar indo de encontro com um demônio para uma conversa, sobre ela não sabia oque, estava deixando-a apavorada. Não era o medo de morrer que a aterrorizava e sim o medo do que aquele homem tinha a dizer. Se ele pudesse mesmo dizer a Sharon onde seu pai estava, ela não saberia dizer se conseguiria lutar contra o desejo ou se iria atrás dele.
Ele teria uma bela surpresa se me visse hoje, pensou ela angustiada. O pai deveria imaginar que estivesse morta, afinal ela era humana e os humanos morrem.
Mas acontece que eu não sou humana, eu sou outra coisa.
Sharon sentiu seu peito se apertar. A idéia de ser uma aberração a assombrava a vida toda.
Antes, quando sua avó era viva, ela servia para lembrá-la de que isso não era verdade, mas a avó morrera a mais de 15 anos e durantes os anos que se seguiram, agravados pelo fato de se ver todos os anos com a mesma face no espelho, Sharon começara a acreditar veemente que
não era normal e que não podia fugir daquilo que era.
Mas afinal oque sou? Não sou humana, mas também não sou como ele.
Sharon temeu por algum tempo que em algum momento fosse se transformar no monstro que seu pai era. Que em algum momento lhe cresceriam presas e que teria olhou terríveis como os que vira em seu pai na noite em que a atacou. Tivera pesadelos terríveis e um ainda a assombrava todas as noites.
Nesse sonho em particular estava presa em algum lugar estranho, como uma casa grande cheia de portas, em cada porta que entrava encontrava coisas horríveis, uma mulher que era metade cavalo, uma mulher anã que cuspia sangue pela boca, e o pior de tudo, encontrava ela mesma se banhando em uma banheira, o sonho sempre acabava quando aquela Sharon a encarava com os olhos de seu pai, olhos de um demônio.
Salve-me do meu medo, pediu Sharon para quem quer que fosse. Não permita que eu me torne um monstro como ele é.
Uma lágrima caiu dos olhos de Sharon e ela a enxugou as presas enquanto cruzava o portão de casa. Ao olhar na janela viu o lençol ondulando com o vento, era um sinal fácil de ser visto.
No entanto, agora, ela desejava não ter colocado aquele lenço ali para que o homem não viesse, para que não lhe contasse coisas que, embora quisesse, preferia não saber. Para assim não cometer o erro de sair em busca daquele quem um dia amou tanto.
A pequena e humilde casa de Sharon a saldou quando atravessou a porta, trancou-a.
Cansada, tomou um banho e esperou.
Já passava das onze da noite e não havia sinal do homem, os olhos de Sharon estavam pesados e acreditando que o tal homem não fosse voltar, se permitiu pegar no sono.
Sharon acordou no meio da noite suada e amedrontada com o conhecido pesadelo.
No entanto o medo do sonho não era nada comparado ao susto que levou ao ver uma silhueta parada imóvel aos pés de sua cama.
- Boa noite Srta Heiselmann – a voz do homem era grave e firme.
Sharon se levantou as pressas, estava tudo escuro.
Um segundo depois e todas as velas de seu quarto se ascenderam como que num passe de mágica.
Sharon deu um pulo assustada.
- pensei que não vinha mais – disse ela nervosa.
Sharon encarou o homem. Era alto, tinha os ombros largos e braços fortes. sua pele era branca como papel, exatamente como a pele de seu pai. Os cabelos eram negros, lisos e curtos. E os olhos..
Ele tem os olhos do meu pai, pensou Sharon amedrontada.
Os olhos do homem eram de uma cor de azul claro, diferente da cor dos olhos do conde Heiselmann que possuía olhos castanhos. Mas no entanto possuía um circulo de luz, um brilho estranho e pupilas terrivelmente dilatadas exatamente iguais os olhos do pai quando os viu naquela noite em que a atacou.
O homem esperou em silêncio que Sharon o analisasse com os olhos. Embora fosse um monstro como aquele que a atacou na noite passada, aquele homem não era tão aterrorizador como o outro. Sharon sabia que era idiotice tentar acreditar que o homem não fosse perigoso.
- perdoe-me por assustá-la – disse o homem. Embora falasse em um alemão perfeito, parecia ter um sotaque diferente que Sharon não podia dizer de onde era. – e perdoe-me pelo atraso.
Sharon assentiu sem nada dizer.
- não crê ser perigoso para uma jovem morar sozinha? – o homem deu um passo na direção de Sharon. Ela se afastou ficando com as costas contra a parede.
- por favor, não tema. Se eu tivesse intenção de machucá-la já o teria feito.
Sharon suspirou. Aquilo era verdade. Esteve dormindo com aquele homem em seu quarto. E ainda assim estava viva sem nenhum arranhão.
- como sabe meu nome? – perguntou Sharon desconfiada.
- ouvi pessoas chamando-a por esse nome – respondeu ele com um sorriso.
- esteve me seguindo?
- já faz alguns dias – disse ele
- porque?
- porque estava curioso a seu respeito.
O homem encarou Sharon e então inspirou ruidosamente – oque é você?
Sharon não respondeu, se deu conta de que o outro homem tinha feito a mesma pergunta.
- você disse que poderia me ajudar com algo que quero – disse ela reunindo coragem – do que você esta falando exatamente?
O homem sorrio – direto ao ponto então.
- Digamos que eu saiba onde seu pai esta – disse ele em tom de suspense.
Sharon sentiu seu coração pular em seu peito – você sabe?
- talvez – respondeu ele com um sorriso irônico. – se me responder algumas perguntas, talvez eu posso responder algumas para você.
- como sei que esta falando a verdade? – perguntou Sharon – como sei que posso confiar em você?
- não pode – respondeu ele – uma dica de sobrevivência que vou te dar: Nunca acredite em alguém como eu.
- como assim alguém como você? – perguntou Sharon
- por favor, não vamos fingir que não sabe oque sou – disse ele.
- e oque você é? – perguntou Sharon, seu coração pulsava em seu peito.
- a mesma coisa que seu pai é – ele sorrio – você ainda se lembra dele? Já faz muito tempo não é? Devo dizer que os anos foram bem generosos com você. – ele sorrio irônico.
- eu lhe digo oque quiser se me disser onde meu pai está – implorou Sharon.
- Gut – o homem sorrio – mas primeiro vamos as formalidades. Permita que me apresente.
O homem deu um passo a frente – mein name ist Christian Pringsheim Pohl. -
Ele fez um gesto de reverencia com as mãos e então olhou nos olhos de Sharon.
- Ich bin ein vampir – ele sorrio abertamente mostrando presas terrivelmente afiadas.
Sharon engoliu em seco.
Todas as velas do quarto começaram a ascender e apagar sozinhas. Mas Sharon sabia que era ele quem estava fazendo aquilo.
Christian sorrio para Sharon que naquele momento não conseguia sequer sentir se seus pés tocavam o chão. – quantos anos faz? Trinta?
- Quarenta – respondeu Sharon
- não é muito comum encontrar humanos tão jovens com a sua idade.
- não sou uma humana – disse Sharon firme – embora tenha nascido de uma.
O vampiro a encarou agora surpreso.
- então os boatos eram verdadeiros?
- não sei de quais boatos esta falando.
Ele sorrio agora dando mais alguns passos em direção a Sharon e se sentando aos pés de sua cama. – alguns diziam que o grande conde Heiselmann tinha tido uma filha com uma humana.
Outros diziam que a criança era adotada, pois muitos temem que nossa raça não seja fértil, - ele encarou Sharon – se é que me entende.
Sharon não respondeu.
- ao que parece os medos de nossa espécie eram infundados. Afinal você está aí. Me perdoe a pergunta mas quantos anos tem senhorita Hei..
- Den Adel – Sharon suspirou – meu nome é Sharon Den Adel.
- como quiser – disse Christian sorrindo
- tenho 60 anos, e sim eu sei que não envelheci nada. Podemos pular essa parte?
- wunderbar – maravilhou-se o vampiro – e você vive como uma perfeita humana? Não há nada de especial em você?
Sharon pensou por um segundo. Essa era a pergunta que ela fazia a si mesmo todos os dias e ainda não tinha respostas.
- eu não sei – respondeu ela sincera.
Christian a encarou e então sorrio – acredite você saberia se houvesse. – ele piscou
- bom, eu não me alimento de sangue se é isso que quer saber
- incrível – disse o vampiro – perdoe –me pela indiscrição, eu precisava saber.
- você disse que pode me ajudar a encontrar meu pai – Sharon suspirou – como?
- antes de qualquer coisa, eu diria que precisa confiar em mim – disse Christian – sei que estou me contra dizendo e que não parece fácil confiar em um.. bem alguém como eu, mas você verá que existem diferenças entre os que você conheceu, incluindo seu pai, e do que eu sou.
- como pode ser diferente? Você é um vampiro – Sharon estava confusa.
Christian parecia compreender os medos de Sharon.
- imagino que seja difícil lidar com essas circunstancias – ele a olhava compreensivo – você não conhece muitos de nós, talvez quando nos conhecermos melhor você entenda que não é porque pertencemos a mesma raça, que temos que ser todos iguais. Eu não tenho interesse em machucá-la e garanto que nenhum dos meus o fará. Infelizmente não posso responder pelos outros.
- existem muitos de vocês? – perguntou Sharon
- muitos mais do que você imagina. – Christian ficou sério – você aprende a reconhecê-los depois de um tempo. Eu gostaria de dizer que tenho controle sobre todos os vampiros dessa cidade, mas seria mentira. Nem todos gostam de ser liderados, e as regras são difíceis de serem seguidas, muitos preferem viver sozinhos.
- de que regras está falando?
- as regras que imponho para qualquer um de minha espécie que quiser me seguir.
Christian se levantou e se aproximou de Sharon. Ele a puxou pela mão e a fez se sentar.
- não tenha medo de mim, eu não vou machucá-la.
Sharon se sentou na cama e o vampiro se ajoelhou em sua frente.
- as regras são bem simples: não matamos por prazer, não mais do que o necessário.
Sharon se sentiu ainda mais confusa. Como aquilo era possível?
- nos alimentamos apenas daqueles que estão dispostos a nos alimentar – ele sorrio – acredite não é assim tão difícil, podemos viver de sangue animal também. Não é tão saboroso quanto o humano mas tem oque é preciso para nos manter alimentados.
Sharon estava surpresa.
- dessa forma, minha querida, não tenho motivos para machucá-la. Diferente de outros que podem querer fazê-lo apenas pelo prazer de matar, ou.. – ele parou
- ou oque?
- imagino que você deixaria muitos de nós curiosos se soubesse a verdade sobre você.
- nunca ninguém soube, ninguém vai saber
- ninguém humano. Acredite Senhorita Den Adel eu posso sentir o seu cheiro adocicado do outro lado do quarteirão e ele nada tem a ver com o conhecido perfume dos humanos. – Christian encarou Sharon com oque ela não soube dizer se era compreensão, piedade ou ansiedade. - Você é outra coisa, algo novo e desconhecido e tudo oque é desconhecido gera medo e se gera medo precisa ser destruído.
- está dizendo que podem querer me matar? – Sharon estava assustada com o rumo que a conversa estava tomando.
- exatamente. Entendo que queira seguir em frente e esquecer o passado minha querida, mas você não pode apagar oque você é e nem se esconder da verdade sobre quem é seu pai. Não tem como deixar o passado totalmente para trás. Ao tentar fazer isso você está se colocando em perigo e colocando pessoas em perigo.
- o Sr Adalberto e Katrina ..
- eles correm perigo com você por perto.
Eu só queria ser normal.
Christian se levantou e caminhou até a janela – eu posso oferecer a segurança que precisa, você pode vir comigo e estará segura.
- ir para onde? – perguntou Sharon – esta é minha casa
Christian sorrio irônico – ambos sabemos que seu lugar não é aqui, minha querida. Você é filha do grande Conde Heiselmann, é uma princesa não uma empregada.
- eu não quero..
- acredite é mais seguro comigo ao seu lado.
- e porque quer me ajudar? Não tenho nada para oferecer.
- você é a oferta minha querida – respondeu ele – com você a tanto que podemos aprender, tanto que iremos descobrir e é claro que terá oque deseja, lhe levarei até seu pai.
Sharon pensou por um instante – onde ele está?
Christian a encarou por algum tempo – Tilo Heiselmann está na Romênia
Sharon assentiu surpresa – Romênia – sussurrou para si mesma.
- está quase amanhecendo – disse Christian – preciso ir
- você está falando sério?
- sobre oque?
- sobre eu ir com você, sobre me ajudar.
- eu quero ajudá-la Srta Den Adel, mas preciso da sua confiança, sem ela nada posso fazer.
- como poderei saber que não vai me matar?
Christian riu – se eu quisesse matá-la eu já o teria feito, não acha?
Sharon não pode contestar a verdade daquilo. O vampiro a observou dormir e não tocou em um fio de seu cabelo se quer. Ele poderia ter me matado, e não o fez.
- sinto muito dizer isso, mas sou sua melhor opção.
Sharon também não podia contestar aquilo.
- eu irei com você, mas antes quero que me prove oque esta dizendo.
- como?
- leve-me para Romênia.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Livro 2: INFERNO Cap. 2
Capítulo 2
Sehnsucht
(Saudade)
Sharon entrou pela porta do velho restaurante onde começara a trabalhar faziam duas semanas. Era um restaurante pobre, afastado da parte nobre da cidade, e a cidade era muito grande, ninguém sabia quem ela realmente era ali, por isso o emprego lhe fora tão atraente assim como todos os outros no passado. Não podia viver por muito tempo no mesmo lugar, nem trabalhar por muito tempo no mesmo estabelecimento, pois tinha medo que alguém notasse que os anos passavam por ela sem deixar marcas. Mas no entanto se perguntava se alguém realmente a via naqueles lugares. Limpava o chão, limpava as mesas, servia pratos e bebidas e lavava as louças. Quem notaria alguém como ela? Tão mal vestida, tão mal arrumada? Ela mesma não se reconhecia mais, não era nem a sombra da Sharon que foi um dia. Aquela que um dia fora chamada de princesa e amada incondicionalmente.
O mundo não era mais o mesmo para Sharon e de alguma forma ele continuava o mesmo para todas as pessoas a sua volta. Sua vida era aquela, embora mudasse de casa, de trabalho com freqüência, nada nunca realmente mudava.
No entanto naquela manha algo estava diferente, talvez fosse apenas o seu estado de espírito mas algo estava faltando dentro dela, talvez fosse a força de vontade de continuar, estava perdida, sem rumo e completamente sozinha. Desde que sua avó havia morrido, Sharon tinha estado sozinha, por sua própria conta e risco e aquilo a machucava todos os dias.
Engolindo a bile que lhe subia pela garganta e tentando abafar a dor que queimava em seu peito, Sharon adentrou no restaurante e se deparou com uma cena completamente nova,
o Sr Adalbert, seu patrão estava recebendo um grupo de entregadores que acabavam de posicionar um velho piano no centro do salão de jantar entre as mesas.
- Srta Den Adel – chamou o Sr Adalbert – olha que beleza que acabei de comprar – disse o velho homem animado. – vai atrair muitos clientes.
Sharon tentou sorrir mas a verdade é que a imagem daquele piano em sua frente havia cortado seu coração em mil pedaços. Automaticamente se lembrou das centenas de vezes em que sentou-se ao piano e tocou com seu pai. Tantas noites e dias perfeitos de eterna felicidade.
- Srta Den Adel – chamou o Sr Adalbert – você esta bem? – perguntou o homem.
Sharon sorrio lutando contra as lembranças – estou bem, só estou cansada.
- mas o dia acabou de começar – disse o velho sorrindo animador – coma alguma coisa, vai se sentir melhor.
Sharon se retirou para a cozinha em passos largos e quando se encontrou sozinha apertou os braços contra o peito e se permitiu chorar.
- Warum? – se perguntou ela – porque não consigo te esquecer, papa?
A lembrança do rosto bonito do pai a torturava por trás dos olhos fechados, era como ferro em brasa queimando cada pedaço do seu coração.
- mein herz brennt – sussurrou ela por entre as lagrimas – não posso mais viver assim, ich Kann nicht!
- Sharon - chamou Katrina, a jovem filha do senhor Adalbert – Sharon porque esta chorando? Oque aconteceu? – a moça se aproximou de Sharon preocupada. Era uma garota simpática, desde a primeira vez que se conheceram se deram muito bem.
- eu estou bem – disse Sharon limpando as lagrimas
- não esta não, você esta chorando – disse Katrina ainda preocupada.
Sharon sorrio forçadamente, era estranho que uma garota de 20 anos a estivesse consolando, mas é claro que para os outros Sharon tinha a mesma idade de Katrina.
- você viu o piano que meu pai comprou? É tão lindo – disse a jovem tentando animá-la – eu queria muito saber tocar.
Sharon a encarou por alguns segundos e depois sorrio, não sabia oque dizer.
- meu pai disse que vai contratar alguém para tocar nas noites de sábado, vai ser tão perfeito!
- eu posso tocar – disse Sharon subitamente sem pensar
Katrina a olhou como se duvidasse de sua capacidade – você sabe?
- um pouco – disse Sharon – faz muito tempo que não toco, mas adoraria tentar.
Katrina sorrio – se eu pedir para meu pai deixá-la tocar, você me ensina?
Sharon concordou, não sabia oque estava fazendo, mas a verdade era que o piano a chamava, ela precisava tocar em suas teclas. Uma parte de seu coração lhe disse baixinho que oque realmente queria era voltar a ouvir aquelas velhas musicas que o pai a ensinara tão bem.
***
Era sábado e o restaurante do Sr Adalbert estava lotado como de costume.
Sharon acabara de servir algumas mesas e agora se preparava para sentar ao piano.
Convencera facilmente o Sr Adalbert a deixá-la tocar e o fascinou saber que podia cantar também.
Sharon sentou ao piano e ninguém se quer a notou ali, seus dedos tremiam quando repousou-os pelas teclas gastas do piano velho, o som ecoou pelo salão e todos olharam para ela.
Seu coração pulsou fortemente no peito quando começou tocar as conhecidas notas de uma canção que o pai lhe ensinara.
- você não precisa apertar as teclas com tanta força – censurou o pai sorrindo em algum canto da memória de Sharon, em uma lembrança distante.– só precisa deixar a melodia fluir por entre seus dedos princesa. A musica não deve ser um trabalho árduo e sim um singelo prazer.
Sharon tentou novamente e então a musica fluiu, era linda.
- eu a compus para você, mein prinzessin – disse o pai em seu ouvido – ela se chama
Küssen Den Regen, deixe-a fluir por seus dedos como a água da chuva que cai lentamente.
Lágrimas escorriam pelo rosto de Sharon enquanto tocava no velho restaurante do Sr Adalbert, as lembranças a invadiam uma por uma, dias de ternura, de felicidade extrema.
E a saudade era doentia, uma saudade tão grande quanto se podia imaginar.
Sharon nunca havia realmente conseguido perdoar o pai por tudo oque fizera a ela, mas de alguma forma com o passar dos anos, o ódio se tornara menor do que a saudade que sentia, saudade de todos aqueles dias bonitos, de todos aqueles momentos, dos abraços e beijos do pai.
Papa, ich liebe dich immer noch, pensou Sharon entre as lágrimas enquanto a musica morria lentamente em seus dedos.
Todos aplaudiram Sharon quando terminara de tocar, a trazendo de volta a realidade de onde estava. Ela agradeceu brevemente com um sorriso e voltou ao piano, não sabia oque tocar, então deixou apenas seus dedos correrem pelo teclado, e lentamente uma melodia fora se formando e junto com a melodia palavras veio a sua mente, palavras aquelas que precisavam ser ditas, mas não tinha ninguém para ouvir. Lembrando do que seu pai havia dito a anos atrás, Sharon se permitiu cantar seus sentimentos.
- Neste mundo você tentou não me deixar para trás sozinha. Não há outro jeito, eu rezei para os deuses deixarem você ficar. As lembranças amenizam a dor aqui dentro, agora eu sei porque. Todas as minhas lembranças mantém você próximo, em momentos silenciosos imagino você aqui. Todas as minhas lembranças mantém você próximo, seus sussurros silêncios, suas lágrimas silenciosas. – Sharon cantava palavras tristes que a anos assombravam seu coração, não sabia ao certo a quanto tempo elas estavam presas em sua cabeça, mas agora elas fluíam por seus lábios em tristes sentenças melódicas.
- Me fez prometer que eu tentaria encontrar meu caminho de volta nessa vida. Eu espero que você encontre um meio de me dar um sinal de que esta bem. Me recordo novamente esse é o valor de tudo, então posso continuar seguindo.
- Juntos em todas essas lembranças eu vejo o seu sorriso, todas as lembranças eu guardei tão bem, querido você sabe que eu te amarei até o fim dos tempos. – a melodia morreu lentamente, e junto com os aplausos que se seguiram morreu também qualquer fio de esperança que Sharon poderia ter em esquecer ou parar aquela dor.
Ela estaria para sempre ali, até o fim dos tempos.
***
- minha família sempre foi pobre, camponeses. – a voz de Anne estava tremula, cheia de emoção. Não conseguia entender porque estava contando aquilo para aquele homem desconhecido, mas de alguma forma, e ela não sabia porque, sentia que podia confiar nele.
– Na Finlândia as coisas são diferentes daqui, mais difíceis. Não tínhamos dinheiro, não tínhamos comida as vezes e meu pai, ele bebia muito, nunca cuidou da família. Eu trabalhava na mansão dos Virtanen, eram uma família muito rica. Minha mãe era velha, doente. Eu sustentava a casa com oque ganhava e não era muito.
- não tinha irmãos? – perguntou Tilo. Ele se mantinha em silencio sentado na poltrona perto da lareira, a noite caía lá fora. A terceira noite que passava naquele castelo, com aquele homem.
Ele apenas a observava, interessado em sua historia.
- não, apenas eu.
- continue – pediu ele incitando-a a continuar.
- havia um velho banqueiro na cidade, ele era novo no negócio, mas era muito rico. Não me lembro do nome dele, mas ainda me lembro do seu rosto, ele tinha um cheiro ruim.
- e porque se lembra do cheiro desse homem?
- porque meu pai concedeu a ele minha mãe em casamento e ele me fazia a corte. – os olhos de Anne endureceram, tinha ódio do pai, e se lembrar só fazia o ódio aumentar. – meu pai viu uma possibilidade de se livrar da pobreza, não importava para ele se aquilo custava a minha felicidade. Eu tinha 16 anos.
Tilo permaneceu em silencio, sem nada dizer.
- eu não conseguia aceitar meu destino. E além de tudo estava apaixonada. Apaixonada pelo filho dos Virtanen, seu nome era Ville. Ele havia me prometido que me salvaria do meu terrível destino e eu acreditei nele. Eu.. – Anne sentiu seu rosto corar.
- não precisa me dizer mais do que deseja, não deve nada a mim – Tilo se aproximou e pegou em sua mão. Sorrio para ela.
- Eu me entreguei a ele – Anne suspirou, sabia que não era o tipo de coisa que devia dizer a um homem, ainda mais um homem desconhecido, mas não tinha reputação alguma que precisasse ser mantida mesmo. – ele disse que se casaria comigo, mas os pais dele não aceitaram que seu filho tão bem educado se casa-se com uma criada. Ele não teve forças para lutar contra os pais e então me deixou.
Anne sentiu a dor voltar ao seu peito ao recordar todas aquelas lembranças, todos aqueles momentos, os bons e os ruins, que passou o resto de sua vida tentando esquecer.
- desiludida, enganada, abandonada. Tudo oque me restava era aceitar me casar com o banqueiro. E eu me casei com ele. Mas quando ele descobriu que eu não era mais .. – Anne não terminou a frase, seu rosto estava quente.
- entendo – disse Tilo apenas. Ele era muito cavalheiro, Anne o admirava.
- bem, ele me devolveu para meus pais, obrigando meu pai a devolver o dinheiro que tinha lhe dado como dote. Meu pai enfurecido e envergonhado me jogou na rua.
Os olhos de Anne se encheram de lágrimas. - Eu não tinha para onde ir, eu estava perdida.
Foi quando conheci Laurentiu, ele era simpático, me acolheu e me disse que tinha um trabalho para mim fora da Finlândia, onde eu poderia começar de novo, ninguém saberia meu nome. E então ele me trouxe para a Romênia.
- a quanto tempo exatamente foi isso? – perguntou Tilo, ele mantinha a mão de Anne acolhida entre as suas. Ele tinha mãos frias.
- foi a 13 anos – respondeu Anne. - É claro que as coisas não eram oque pareciam. Quando cheguei aqui Laurentiu me jogou numa masmorra de um velho castelo junto com outras garotas e me obrigou a trabalhar para ele.
- trabalhar como?
- servindo homens – as lagrimas caiam dos olhos de Anne livremente, estava envergonhada.
***
O ódio dominou cada centímetro do ser do conde Heiselmann ao ouvir aquele história. Se perguntava como um homem seria capaz de fazer algo tão terrível com uma jovem tão bonita.
Ele tapou os olhos com as mãos e respirou profundamente algumas vezes para se acalmar.
- vou entender se não me quiser aqui em sua casa – disse Anne – eu posso ir embora..
- oque esta dizendo? – o conde Heiselmann a olhou fixamente nos olhos – eu não seria mais do que esses homens terríveis de sua historia infeliz se a expulsasse de minha casa por um pecado que nunca quis cometer.
Anne o olhou com seus olhos azuis esverdeados com veneração. Só duas mulheres em toda sua existência o olhara assim. Elizabeta e Sharon.
- você passou todos esses 13 anos presa?
Anne assentiu
- como conseguiu fugir?
- eu .. – Anne ficou em silencio
- shau mich an - pediu o conde Heiselmann, Anne o olhou nos olhos – conte-me
- eu seduzi Laurentiu, fiz ele acreditar que eu o amava e passei a dormir apenas com ele. Uma noite quando estava dormindo eu roubei suas chaves e fugi.
O conde Heiselmann não podia acreditar na inteligência e coragem daquela mulher.
- a quanto tempo você fugiu?
- essa noite faz 3 dias. – Anne o olhou com olhos de gratidão – você me acolheu, e eu sei que ninguém me acolheria se soubessem oque eu sou. Dunke Chön.
O conde Heiselmann segurou as mãos de Anne e num movimento rápido, a puxou para seus braços e a abraçou carinhosamente.
- não se envergonhe minha querida – disse ele em seu ouvido – você é uma guerreira.
***
- é muito difícil – queixava-se Katrina para Sharon enquanto lutava contra as teclas do velho piano. Já passavam das seis da tarde, o sol estava se pondo. O restaurante estava fechado, e assim ficaria naquela noite de domingo, pois o pai de Katrina, Sr Adalbert, não estava se sentindo muito bem.
- não é tão difícil quanto parece – disse Sharon se permitindo rir da carranca de Katrina. Era uma garota muito bonita, loura de olhos azuis, vestida sempre muito bem com seus vestidos, que mesmo sendo de tecido barato, eram muito bem feitos.
Com o passar do tempo Sharon teve que se acostumar com roupas de segunda mão, nada de talheres de prata ou ouro, nada de grandes castelos com lindos candelabros. A vida mudou drasticamente mas quando parava para pensar, não sentia tanta falta dessas coisas.
- como você aprendeu a tocar e cantar tão bem? – Katrina agora já não prestava mais atenção nas lições de Sharon, estava especulando.
- meu pai me ensinou – Sharon sentiu as palavras vacilarem por entre seus lábios.
- e onde ele está?
- que tal voltarmos ao piano? – disse Sharon tentando mudar de assunto.
- Nein! – Katrina fez uma careta – eu nunca vou aprender tocar isso.
- foi a sua primeira tentativa! Precisa continuar tentando. – Sharon sorrio para a menina de cachos loiros.
- porque não aproveitamos que meu pai não vai abrir o restaurante para sairmos? – sugeriu Katrina travessa – tem um circo na cidade, dizem que é legal.
- e onde vamos arrumar dinheiro para irmos no circo? – perguntou Sharon desconfiada
- bem, eu tenho as gorjetas que ganhei ontem a noite e você tem oque meu pai te deu por cantar – Katrina sorrio para ela com olhinhos pidões – ich bitte!
- seu pai não vai querer que você saia a noite
- não estou sozinha, estou com você – Katrina se levantou e correu pelo salão – vou trocar de roupa.
Sharon suspirou derrotada. Afinal, talvez não fosse tão ruim sair um pouco.
Precisava esclarecer as idéias, parar de se lamentar tanto. Aproveitar a vida, que ao que parecia, não teria um fim tão cedo.
Katrina voltou dez minutos depois toda arrumada e cheirando a perfume de rosas.
- você vai assim? – perguntou ela para Sharon
Sharon deu de ombros se permitindo olhar para si mesma. O vestido creme que usava era simples, mas pelo menos estava limpo. Os cabelos escuros estavam como sempre lambidos e presos com uma fita.
- tudo bem, você esta linda – disse Katrina enciumada – você esta sempre linda, quer me contar seu segredo?
- não tenho segredo – disse ela sem graça. Oque mais tinha na vida era segredos.
As duas saíram pelas portas dos fundos e se dirigiam pelas ruas.
Berlin era uma cidade grande. Dividida entre classes sociais, claro que antes Sharon não enxergava isso, mas agora era possível ver a distinção perfeitamente. O bairro onde morava e onde ficava seu trabalho era humilde, com pessoas humildes. As ruas eram feias, cheias de becos e era impossível não enxergar que era repleta de marginais.
O sol estava se ponto a oeste, a noite estava fria, Sharon se arrependeu de não pegar um casaco e pela cara de Katrina sabia que pensava o mesmo.
Andaram varias quadras até que pudesse ouvir o som que vinha do circo, pessoas rindo, vendedores, crianças gritando.
Se aproximaram, compraram duas entradas e entraram.
Era um grande barracão de lonas coloridas, iluminados por alguns candelabros velhos e castiçais. Havia vendedores por todos os lados. Katrina comprou uma maça do amor e então se dirigiram até as cadeiras. O espetáculo logo começaria.
Sharon estava inquieta. De repente algo dentro dela dizia que não deveria estar ali.
Geralmente tentava ignorar essas sensações, não era normal sentir tais sentimentos e o pior é que se lembrava que a avó uma vez lhe disse que se sentia assim por causa do que era.
Mas Sharon não aceitava se ver como aquilo que sua avó fora, não era uma bruxa.
Sempre ignorou esses sentimentos, essas premonições. Mas naquela noite, de repente se tornou mais forte, era quase insuportável.
- acho que devíamos ir embora – disse ela a Katrina
- oque? Acabamos de chegar – reclamou Katrina infeliz – eu quero ver o Arlequim.
- quem? – perguntou Sharon tentando se acalmar
- não conhece a história do Arlequim? Katrina a olhou surpresa
- Nein – Sharon suspirou tentando manter a calma. – conte-me
- bem dizem que ele é um homem muito, muito triste que trabalha no circo, ele se veste como um palhaço e faz as pessoas rirem, mas na verdade ele está sempre chorando por de trás da máscara. Ele toca violino todas as noites, uma velha musica que uma vez ele compôs para seu amor perdido esperando que talvez um dia ela o escute tocar e o encontre.
Sharon pensou por um instante – ela morreu?
- dizem que sim – Katrina sorrio – não é uma história de amor linda?
Sharon automaticamente se recordou do pai cantando para o grande amor de sua vida que morrera. – não é bonito, é triste.
- senhoras e senhores – o apresentador do espetáculo chamou a atenção dos espectadores. – daremos inicio a mais um espetáculo. Sejam bem vindos.
***
- ah ele é tão perfeito – Katrina estava encantada com o tal Arlequim.
Sharon por outro lado não estava nenhum pouco impressionada, não era perfeito, era deprimente. Um homem que dedicava a sua vida a fazer as pessoas rirem quando na verdade estava desmoronando por dentro.
- você não gostou do espetáculo – acusou Katrina
- só estou cansada – disse Sharon tentando disfarçar.
Elas andaram pelas ruas em direção ao restaurante.
Quando chegaram Sharon se despediu de Katrina.
- tem certeza que não quer passar a noite aqui? Já esta tão tarde.
- não, esta tudo bem – Sharon se despediu e saiu.
As ruas agora estavam desertas, já passavam das nove da noite, e isso naquele parte da cidade, não era horas de andar sozinha pelas ruas. Mas Sharon não se importava.
Andava lentamente, a cabeça longe. Ver o tal arlequim fez com que pensasse em seu pai de alguma forma. As historias eram parecidas. Mesmo que seu pai estivesse infeliz, ele dedicou parte de sua vida à fazer Sharon sorrir, e por muito tempo foi assim.
No fim fui eu quem o desapontou, pensou ela. Era uma realidade que Sharon se sentia culpada pela dor que causou ao pai. No entanto nunca o perdôo por tudo oque fez a ela.
Os anos passaram mas as lembranças e a dor continuava.
Sharon caminhava pelas ruas desertas absorta em seus pensamentos. Uma vez que se deixava pensar no passado era arrastada para um poço de lamentação que parecia se estender e ela não conseguia ver o fim. Preocupava-se com seu pai, com oque acontecera a ele desde que foi embora. A noticia de que havia deixado a cidade se espalhou rapidamente por Berlin, Sharon se perguntava para onde fora. Muitas vezes agradeceu por não saber a resposta pois acreditava que se soubesse, depois que sua avó morreu, teria ido procurá-lo.
Mas para que? Se perguntou. Ele provavelmente deve achar que estou morta, nem deve mais se lembrar de mim.
De repente um vulto que se moveu rapidamente a sua frente fez seus pensamentos infelizes se dissiparem. Seu coração se acelerou ao notar que a figura a frente se movia em sua direção agora com passos lentos. Olhou em volta nervosamente, não havia ninguém mais na rua.
Amaldiçoou a si mesmo por estar vagando sozinha tão tarde e respirando fundo deu meia volta e apertou o passo.
- porque está fugindo senhorita? – ouviu uma voz masculina incrivelmente atraente. Estava falando com ela? É claro, não tem mais ninguém alem de você andando a essa hora na rua.
Percebeu que o homem agora andava atrás dela à passos largos.
Seu coração se acelerou. Olhou para trás, mas não pode ver o rosto do homem, estava escuro, mas pode perceber que estava bem vestido. Não era um dos marginais habituais daquela parte da cidade. No entanto isso não a acalmou, pelo contrário a deixou ainda mais nervosa.
Se colocou a correr, a casa do senhor Adalberto não estava tão longe, andara devagar, não tinha se distanciado tanto. Se corresse rápido conseguiria se abrigar lá.
Sharon ouviu um gargalhar atrás dela – não tenha medo.
Voltou sua cabeça para trás para olhar o homem estranho enquanto corria, mas ele não estava mais lá. Assustada olhou para frente e com um grito se chocou com o homem parado a sua frente. Caiu no chão. O homem a olhava com um sorriso nos lábios, seu rosto pouco iluminado pelas lamparinas da rua estava despreocupado, como se achasse graça daquilo tudo.
Como ele veio parar aqui? Todos os instintos de Sharon estavam gritando, sabia que não deveria ter saído da casa do Sr Adalberto naquela noite, sentiu-se mal antes no circo.
Então porque insistiu em ir embora sozinha? Claro, queria esclarecer as idéias. Agora lhe parecia uma péssima idéia.
Levantou-se rapidamente – oque você quer?
Toda sua coragem estava sendo mantida a prova, mas Sharon nunca foi de demonstrar medo.
O homem riu e a segurou pelos braços – a sua companhia.
O homem então aproximou seu nariz do pescoço de Sharon e inspirou profundamente.
Quando voltou a encará-la estava um tanto confuso – oque você é?
Sharon não respondeu, estava aterrorizada demais encarando os olhos do homem, eram claros, embora não pudesse ver de que cor eram, mas havia algo estranho neles, as pupilas estavam dilatadas e pareciam brilhar sutilmente.
Com um suspiro arquejante Sharon se recordou dos olhos de seu pai na noite em que a atacou a tantos anos atrás. Tinham aquele mesmo brilho, embora os olhos de seu pai fossem castanhos, e as pupilas também estavam dilatadas daquela mesma forma.
Meu Deus! Sharon não podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ela, de novo.
O homem não parecia notar a estranha compreensão que atingiu Sharon, ele a fitava com olhos alucinados e um tanto confusos, outra vez colocou as narinas perto de seu pescoço sentindo seu aroma e quando a encarou parecia até mesmo preocupado.
Sharon tentou se soltar do aperto férreo de sua mão, mas ele não parecia se importar, num movimento rápido a jogou contra a parede a prendendo entre os tijolos e seu próprio corpo.
- não importa – disse ele – estou faminto
Sharon visualizou as presas se alongando diante de seus olhos tal como fora com seu pai e quando tentou gritar ele tapou sua boca.
Vou morrer, pensou ela aterrorizada e como uma brincadeira do destino ia morrer pelas mãos de um monstro como seu pai. Fechou os olhos e esperou o pior.
Papa! Gritou Sharon dentro de sua cabeça sem ser capaz de pronunciar a palavra.
***
- Sharon! – O conde Heiselmann se levantou de seu caixão num rompante.
Atravessou rapidamente o cômodo escuro e subindo as escadas abriu as portas que davam para seus aposentos. E então gritou de dor quando a luz do sol que emanava das janelas abertas queimaram sua pele como o fogo do inferno.
Protegendo os olhos com as mãos se empurrou de volta para a parede no escuro.
Estava preso, preso em sua própria casa!
Não lhe passou pela cabeça o motivo pelo qual aquelas malditas janelas estavam abertas.
Tudo em que conseguia pensar era no grito de Sharon ecoando em sua cabeça.
Sua filha o chamava com medo, era um pedido de socorro.
Mas como podia ser? Teria sido um sonho? Não, nenhum sonho era tão vivido.
Lembrou-se que uma vez quando Sharon tinha 8 anos de idade, caiu no rio que rodeava o castelo, ela estava se afogando e clamou por seu pai. Estava de dia, o conde Heiselmann estava repousando, muito longe para que pudesse ouvir sua voz. No entanto escutou a voz de sua filha como se estivesse dentro da sua cabeça e naquela ocasião arriscara sua vida atravessando o sol para salvá-la. Lembrava-se de ser obrigado a apagar a mente aterrorizada da filha ao vê-lo machucado pelas feridas causadas pelo sol.
Nunca antes havia pensado no assunto, mas agora ele se perguntava se Sharon não estaria em perigo novamente.
Mein Prinzessin! Lamentou-se o conde com desespero. Se quer sabia onde estava, e mesmo que soubesse estava muito longe para poder ajudá-la.
- Sharon! – gritou o conde em desespero
***
- Solte-a – Sharon ouviu uma outra voz masculina ao longe
O homem tirara os lábios do pescoço de Sharon – mas meu senhor estou faminto!
- afaste-se dela – ordenou o homem que se aproximou dos dois numa velocidade surreal.
Sharon tinha as pernas bambas e mal podia se agüentar em pé, quando o homem a largou seus joelhos falharam. O segundo homem a segurou a mantendo de pé.
- Não matamos pessoas – disse o homem àquele que tentara segundos antes se alimentar de Sharon. Essa é uma regra simples se você quiser me seguir, alimente-se apenas daqueles que estão dispostos a alimentá-lo.
O homem pareceu perplexo – mas como..
- Stille! – ordenou o homem – se não está disposto a obedecer minhas regras terá que partir dessa cidade. Não matamos pessoas!
Sharon estava assustada demais para conseguir compreender oque os homens diziam. Seus ouvidos zumbiam e suas pernas não podiam carregá-las, aos poucos, sem conseguir lutar contra o torpor em sua cabeça, sentiu-se arrastar por uma escuridão acolhedora e mergulhou na escuridão.
***
O dia se arrastava lentamente, o conde Heiselmann andava de um lado para outro do quarto escuro, escondido da cruel luz do dia que tomava seus aposentos.
- verfluchen! – gritou ele.
Estava preso ali, impotente.
Porque não pensei nessa possibilidade antes? Lamentou-se o conde. Ter uma humana dentro de seu castelo nunca fora uma tarefa fácil antes. Porque pensou que seria agora?
Ela não agiu de má fé, pensou o conde tentando se acalmar. Ela não sabe sobre você, provavelmente pensou que o castelo precisasse de um pouco de ar.
O conde suspirou tentando se acalmar.
Sharon! Seus pensamentos vagavam para a pergunta mais angustiante que seu cérebro podia formular: Ainda está viva?
Por todos os anos que se seguiram desde a desastrosa noite do baile de Sharon, desde o momento em que abandonou Berlin, tudo oque mais quis foi voltar a vê-la, foi poder abraçá-la, tê-la de novo em seus braços e saber que estava segura.
Ninguém nunca a protegeria como eu, pensou o conde infeliz. Somente eu poderia dar a ela a segurança que precisava.
No entanto ele nunca voltou atrás. Manteve sua promessa e mesmo que seu coração gritasse pedindo pela filha, ele se mostrou firme sem jamais voltar a Alemanha.
Depois de algum tempo convenceu-se de que fora o melhor.
Mas ela está em perigo!
O coração do conde Heiselmann o alertava de que sua filha precisava de sua proteção.
Mas usando seu raciocínio frio e calculista ele sabia que as chances de encontrá-la seriam quase nulas mesmo que tentasse.
A maldita bruxa deve tê-la enfeitiçado contra mim!
Ele sabia muito bem que havia formas da velha Wiccana escondê-la dele, com magia semelhante aquela que usou para afastá-lo da campina.
Mesmo que eu a procurasse eu não conseguiria encontrá-la.
- Sharon está morta agora – o conde apertou o dedo indicador e o polegar sobre a ponte do nariz numa tentativa de clarear suas idéias.
Mas porque sinto que está viva?
- Sharon onde você está?
***
Anne estava se perguntando onde Tilo estava.
O sol estava se pondo e não o tinha visto durante todo o dia.
Talvez esteja trabalhando, pensou ela. Mas não fazia idéia do que o homem bonito e misterioso fazia da vida.
Deve ser importante, olhe só esse castelo!
No entanto embora o castelo fosse enorme e deslumbrante, estava sujo, empoeirado como se ninguém vivesse ali à anos. Oque era estranho.
Possuía um estranho cheiro de mofo e as cortinas vinhos estavam marrons de tanta poeira.
Talvez ele tenha se mudado à pouco tempo.
Anne pensou que como estava morando ali de favor, poderia ajudar limpando o castelo como podia. Era muito grande, mas faria oque conseguisse, não tinha nada mais para fazer mesmo.
Tomou a liberdade de subir aos aposentos de Tilo e trocar a roupa de cama, aproveitou para abrir as janelas e tentou, da melhor maneira que pode, tirar o pó das cortinas. As manteve abertas para iluminar e arejar o quarto.
Aqui é tudo tão escuro!
Agora, se ocupava ascendendo o fogão de lenha e cozinhando o jantar.
Tilo havia trazido comida para casa e Anne gostava de cozinhar.
Deve fazer muito tempo que ele não come uma comida descente, pensou ela sorrindo enquanto mexia nas panelas.
***
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