Pesquisar este blog
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Livro 2: INFERNO Cap. 4
Capítulo 4
Wahrheit
(Verdade)
Heiselmann retornou para o castelo uma hora antes do amanhecer, a fome agora dominada abria espaço para a clareza dos pensamentos e tudo oque conseguia pensar era que não podia mais esconder a verdade sobre quem realmente era. Adentrou no castelo e subiu rapidamente pelas escadas, Anne ainda dormia profundamente mas parecia estar perdida em sonhos tempestuosos, pois se balançava na cama agarrando os lençóis e lutando contra forças invisíveis. Ainda que os cabelos estivessem despenteados e que sua aparência fosse pálida e mal cuidada pela perda de sangue e os anos sofridos, ela era muito bonita e Heiselmann sentia novamente aquele calor no coração ao olhá-la, algo que a muitos anos não sentia.
Fechando a porta com cuidado para não acordá-la desceu pelas escadas e se dirigiu ao salão onde o grande amigo e companheiro o esperava, seu velho piano.
Permitiu mais uma vez como tantas outras que os dedos percorressem pelas teclas e que os conhecidos acordes o embalassem. Cantara aquela velha canção muitas vezes, canção que ele mesmo havia composto como todas as outras. Neste fim de noite a canção ganhava para ele um significado completamente novo. Seu nome era Kabinett Der Sinne.
- De volta da imortalidade, em casa novamente e uma pessoa novamente. A terra é beijada e o ar é aspirado, os olhos, meus olhos estão abertos e o desejo me tem mais uma vez. Eu estou vivendo. – sua voz nesta noite conserva uma emoção completamente diferente de todas as outras vezes que a cantou, a canção que era fria por sua natureza imutável, agora era cantada com sentimento e emoções de todos os tipos, todas difíceis de decifrar, vorazes ao coração.
- No gabinete de sentimentos eu acordei novamente, a minha esquerda um homem velho, a minha direita uma deusa de desejos suntuosos. O vislumbre de reflexo verde, o branco incandescente e renúncia. A escuridão cai sobre nós, eu estou sonhando com ela.
Heiselmann não notou a presença de Anne ao seu lado no piano, o vislumbre do roupão de seda preto foi tudo oque viu ao balançar do vento que ruía pelo salão vazio. Seus olhos conservavam medo mas muito mais do que isso conserva desejo também. De alguma forma ela parecia enfeitiçada com a canção que ouvia e Heiselmann não deixou de tocar por nenhum segundo, seus dedos ágeis dançavam sobre as teclas e a melodia misteriosa e encantadora enchia o salão e preenchia o castelo dando ao lugar a vida que não tinha a muitos anos.
A melodia se intensificou, Anne continuou ao seu lado ouvindo-a atentamente.
- Ela quer minha esperança, ela quer, ela quer luz – cantava o conde Heiselmann em desespero – Ela quer vida eterna, ela quer, ela quer luz. Ela quer, ela quer a verdade, ela quer, ela quer luz.
- Singen – pediu o conde e como se já conhece-se aquela canção de uma outra vida ela começou a cantar junto com ele e o assombro adentrou em seu coração quando as duas vozes se uniram como uma. Elas se completavam.
- Ela quer minha esperança, ela quer, ela quer luz. Ela quer vida eterna, ela quer, ela quer luz. Ela quer a verdade, ela quer, ela quer luz. Ela quer vida eterna, ela quer luz.
Do brilho do sol ela escapou, com asas em chamas ela fugiu para dentro da noite, olhou por sobre o mar nos rochedos. Voando de volta as estrelas, sucumbindo ao esplendor do primeiro dia e finalmente deitou-se na areia.
A canção acabou subitamente e o silencio que se seguiu foi preenchido pela respiração de Anne que se tornava cada vez mais alta. Ele podia ouvir seu coração batendo em seu peito como o de um pássaro cativo, ele levantou-se sorrateiramente e a tomou nos braços, seu corpo tinha o peso de uma pluma, ela não lutou contra ele, envolveu os braços em torno de seu pescoço. Heiselmann a carregou para cima das escadas, atravessando o corredor e a repousando sobre a cama de seu aposento. Ali no silencio do castelo escuro, apenas a luz de velas em castiçais empoeirados a chama da paixão se ascendeu novamente em Heiselmann e juntos, ele e Anne se uniram na eterna dança de dois corpos suados.
***
Anne acordou na manhã seguinte desorientada, assustada por sonhos tempestuosos e amedrontada por lembranças que esperava não ser reais. Estava nua na cama revirada.
Mein Gott – gritou ela assustada
- gutten tag – Tilo estava escondido na fresta entre o guarda roupas e a porta, os únicos pontos do quarto onde o sol não tocava.
Anne o olhou com medo, tinha algo diferente em seus olhos, algo ameaçador.
- oque aconteceu? – perguntou ela se recordando vagamente de ser atacada por aquele homem na noite anterior, se recordava de cantar ao seu lado no piano e lhe intrigava a idéia de nunca ter ouvido aquela canção estranha antes e ainda assim cantá-la perfeitamente.
- oque você prefere ouvir a verdade ou alguma mentira que possa lhe contar?
Anne não respondeu.
- porque teima em manter as cortinas abertas? – gritou ele de repente como se aquilo fosse uma falta mortal.
Anne permaneceu quieta, o corpo coberto por lençóis, agora tinha medo dele.
- é tão obcecada com a luz do dia, mas está cega, não pode ver a verdade em sua frente.
- eu não sei oque está dizendo – disse ela.
- você queria abrigo, eu lhe dei. Você queria conforto e segurança, eu lhe dei. Mas agora você deve suportar a minha verdade, você implorou por ela ontem a noite, quando se entregou facilmente à mim como uma prostituta.
Anne estava paralisada, o medo dominando cada parte de seu ser. Não reconhecia o homem a sua frente, não era mais o amigo protetor, era um monstro.
Tilo sorrio abertamente
- eu conheço esse olhar – disse ele – essa decepção em seus olhos, esse amor que aos poucos se converte em medo. Eu vi isso tudo acontecer bem diante de meus olhos anos atrás, quando perdi toda e qualquer razão que tinha para viver.
Ele deu um passo ao sol e sua pele se avermelhou imediatamente como se o sol a queimasse, ele fechou os olhos como se apreciasse a dor.
- eu ainda me recordo do medo nos olhos dela quando implorou que a deixasse ir, essa dor não é nada comparado ao que senti por sua falta durante todos esses anos.
E então como num passe de mágica ele voou pelo quarto fechando todas as cortinas e num piscar de olhos ele estava ao seu lado na cama, seu rosto colado ao de Anne a encarando com ódio. As velas do quarto se ascenderam todas ao mesmo tempo iluminando seus olhos que agora eram de alguma forma diferentes, não pareciam olhos humanos, havia algo diferente neles, um brilho estranho, um circulo de luz em volta das pupilas.
- eu pensei que você poderia substituí-la de alguma forma, mas você nunca vai chegar aos pés dela. É apenas uma cópia barata. – ele a olhou com nojo – Hure!
Anne sentia as lágrimas escorrendo por seu rosto, se levantou rapidamente e procurou qualquer roupa que pudesse vestir, se cobriu com o roupão de seda preto que estava caído no chão e correu para fora do quarto, descendo as escadas e indo em direção a saída, mas quando chegou lá ele estava barrando sua passagem. Mantinha um sorriso irônico e maldoso nos lábios.
- você pediu por isso – disse ele – você implorou por isso
- eu não sei do que está falando, ich bitte lass mich gehen – pediu ela entre soluços do choro desesperado.
- Die wahrheit – gritou ele - você queria a verdade, agora você a terá.
Anne recuou e esperou, ele levantou o queixo orgulhoso.
- Ich bin ein vampir – disse ele calmamente.
Anne sentiu um arrepio na espinha, um medo mortal. Não lhe era desconhecidas as historias de demônios bebedores de sangue, mas nunca imaginou que fosse ficar frente a frente com um. Nunca imaginou que seu anjo protetor fosse se transformar num monstro.
- oque você quer de mim? – perguntou ela tentando derrotar seu próprio medo
- ich? Ich will nichts – ele sorrio – mas você.. você quer tudo.
Anne não respondeu
- e eu posso lhe dar .. tudo.
***
Era odiosa para Tilo Heiselmann a lembrança de ter dormido com aquela mulher. Traído sua amada que permanecia tão inocente em todas suas lembranças. Ainda mais odiosa era a forma como aquela mulher se entregou a ele, como a meretriz que contara ser, exatamente tudo aquilo que sempre abominou. No entanto não podia negar que em meio a todo seu ódio alimentava um sentimento por Anne, seja ele qual fosse. Ele a queria por perto, como sua companheira para a eternidade.
Ela me completa, pensou ele.
***
Sharon Den Adel se sentia perdida enquanto ouvia pedidos para que ela não partisse.
Katrina chorava pedindo que ela ficasse – você é minha melhor amiga Sharon.
O Sr Adalberto lamentava – se pudesse lhe pagaria um salário melhor, mas não temos condições, talvez na próxima safra tenhamos melhorias e eu possa pagá-la..
- não se trata de dinheiro – disse Sharon abraçando Katrina – eu preciso mesmo ir, tenho coisas a resolver, coisas das quais abri mão por muito tempo.
- bom, sendo assim – o Sr Adalberto abraçou Sharon carinhosamente – danke chön, viele danke por tudo oque fez por nós.
Sharon agradeceu e então depois de se despedir de Katrina partiu para casa onde Christian a esperava, já havia anoitecido e a noite era fria como gelo.
- imagino que se apegou facilmente aos humanos com quem vivia – disse ele nunca tentativa falha de parecer preocupado ou amigável com Sharon. Para ela, não importava muito oque ele dissesse, sempre iria aparentar ser o monstro que sabia que na verdade ele era.
- vamos para Romênia agora? – perguntou ela sem se dar ao trabalho de responder ao comentário dele.
Ele sorrio, permanecia sentado numa poltrona no canto da pequena sala, as pernas cruzadas elegantemente, as mãos juntas a olhava com tamanho interesse que lhe assustava.
- vou levá-la para ver seu querido pai, mas tudo ao seu tempo.
- você prometeu ..
- e cumprirei como todas as outras promessas que fiz em meus 300 anos de vida
Sharon o encarou abismada. Para ela ele não aparentava ter mais de 35 anos.
- então porque me obrigou a abandonar meu emprego?
- porque a neta de Heiselmann chegou a cidade para reivindicar sua fortuna e seu castelo.
Sharon o olhou abismada – neta? Que neta?
Christian sorrio com o canto dos lábios – você.
Sharon entendeu sua linha de raciocínio. Não poderia dizer que era a filha do conde porque esta deveria aparentar muito mais idade.
- não quero aquele castelo, não quero nada que tenha a ver com meu pai.
- ora, mas eu quero – ele a encarou efusivo – precisamos de um lugar onde nos instalar, eu e os meus, considere como um pagamento pela preciosa informação que lhe dei.
Sharon não gostou da idéia de encher o castelo de seu pai de vampiros, muito menos de morar lá com eles, ainda assim não podia dizer não ao vampiro que estava a sua frente.
- como vão acreditar em mim?
- ora você é a cara da senhorita Sharon Heiselmann não tem como negar – ele riu
Sharon suspirou frustrada- quando iremos a Romênia?
- tudo ao seu tempo
- eu não quero mais esperar! – ela jogou as mãos para cima.
Numa fração de segundo ele estava na sua frente, o nariz no seu pescoço, as mãos em seus ombros – você precisará aprender a me respeitar – ele sussurrou ao seu ouvido maldoso – sou um homem bondoso Srta Heiselmann, mas não confunda minha generosidade com fraqueza.
Sharon sentiu um frio percorrer sua espinha e entendeu que uma vez estando nas mãos daquele homem não tinha nenhum controle da situação, nem mesmo de sua vida.
***
Os dias passaram rapidamente, três deles, o inverno em Berlin estava se intensificando enquanto que na Romênia as tempestades devastavam as cidades, arruinando plantações. Era um período de crise para os fazendeiros e agricultores, para Heiselmann no entanto, não fazia muita diferença. Diferente do que era em Berlin, Heiselmann não se misturava com os humanos, nunca se importou em manter uma fachada social. Vivia sozinho e aos olhos dos moradores da cidade era um homem sombrio e misterioso com o qual as pessoas não queriam esbarrar nas ruas. Muitos diziam que o castelo era amaldiçoado, religiosos pragmáticos pregavam sobre um demônio que morava nos confins daquelas velhas paredes. Heiselmann ria de tamanha perspicaz, sabia que não estavam de todo errados em seu raciocínio, mas não se preocupava, pois sabia que ninguém nunca acreditaria em tamanha loucura.
Anne fugira de seu castelo no mesmo dia em que contara-lhe a verdade, ele previra que aconteceria, mas não se importou o suficiente para ir atrás dela. Na verdade, Heiselmann não acreditava que algo na vida o importasse muito mais, tudo perdera o sentido a muito tempo.
Deitado em seu caixão, escondendo-se da terrível luz do dia, permaneciam as lembranças de sua querida princesa, o grito dela pedindo por socorro ainda o atormentava e em silencio seu coração pediu pela vida da filha, e ainda mais, pediu que voltasse a vê-la algum dia.
A noite caía finalmente, a tempestade despejava água como baldes pelo castelo, Tilo Heiselmann percorria os corredores do castelo monotonamente, sua mente vagava para onde ainda havia luz, aqueles dias com sua amada à tanto tempo atrás.
Saiu pela porta dos fundos do castelo sem se importa com a chuva que lhe ensopava as roupas e os sapatos, a água gelada caia por seu corpo sem causar calafrios, afinal oque poderia ser mais gélido do que seu corpo a tempos sem vida?
Descera a colina íngreme que levava até as ruínas do velho cemitério onde fora enterrada toda a família Heiselmann, entre os túmulos despedaçados com o tempo perdurava a lápide com o nome de sua amada.
Elizabeta Heiselmann
Geliebte Tochter
Heiselmann permaneceu ali parado imóvel perante o túmulo de sua amada, imóvel perante a dor que sentia, imóvel perante a saudade que lhe inundava enquanto uma por uma as lembranças chegavam. Tantos dias no sol, percorrendo esse mesmo cemitério, lendo as lápides de seus antepassados, Elizabeta sorria.
- porque sorri diante a morte? – perguntara Tilo intrigado e admirado com seu belo sorriso.
Ela passou as mãos pelo volumoso cabelo cacheado e respondeu-lhe
- porque todos morreremos um dia, não é fascinante?
Tilo não pensava assim, mas permitiu que ela terminasse de explicar.
- veja, não estamos para sempre fadados a viver nesse mundo, um dia, quando quisermos poderemos partir.
Ele sorrio para ela embora não concordasse com seu entusiasmo. A segurou firme em seus braços – não quero ir para lugar algum sem você
Ela tocou-lhe o rosto com olhos em chamas – e acredita mesmo, meu amado, que eu partiria sem você?
Uma lágrima caiu dos olhos de Heiselmann se misturando com a chuva que caía sem piedade, o vento castigava as arvores, os trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos clareavam a noite. Dentro de seu peito a tempestade de sentimentos o castigava e as lágrimas fluíam vindas de uma fonte que ele pensara que a muito havia secado.
- outrora eu a desejei, outrora repetidas vezes – cantou ele baixinho esperando que de onde quer que ela estivesse, pudesse ouvi-lo. – mas eu não renunciaria essa dor, pois é tudo oque me restou dela.
Aos poucos a dor foi dominando-o e Heiselmann foi desmoronando, caindo de joelhos sobre o chão lamacento, suas mãos agarravam a grama do chão, as presas cortavam-lhe os lábios enquanto permitia-se chorar todas aquelas perigosas perguntas que o atormentavam:
Porque o destino foi tão cruel consigo?
- você se foi – gritou ele para o tumulo de Elizabeta – você se foi e eu estou preso a este mundo sem você. – sua voz foi enfraquecendo e ele se permitiu repousar ao lado de sua amada, desejava que tudo finalmente terminasse, esperava pelo sol do dia seguinte. Acima de tudo, esperava poder revê-la, reencontrá-la na morte se esta fosse lhe concedida.
***
Sharon adentrava o castelo de Neuschwanstein e aquilo lhe trazia tantas lembranças, estava tudo lá, da mesma forma como estivera na noite em que partira. Caminhava pelos corredores empoeirados tentando se mostrar fria mas por dentro estava em chamas.
Os móveis foram cobertos por tecidos brancos, os candelabros do grande salão de festa agora estavam tomados por teias de aranha que brilhavam como fios de prata. E lá no fundo, onde tantas vezes dançou em suas aulas de balé, o piano perdurava. Sharon puxou o tecido levantando uma nuvem de poeira, o piano negro chorou quando ela tocou uma de suas teclas.
- se puder assinar aqui Srta Heiselmann a transferência será feita para seu nome.
O tabelião a analisava por de trás dos óculos de fundo de garrafa, se acreditava nela ou não, Sharon não podia dizer.
- é confuso que seu avô não tenha dito nada sobre uma neta.
- meu avô esta morto, sou a única herdeira de seus bens, esta duvidando de minha palavra?
O velho abaixou a cabeça – mas é claro que não, tive o prazer de conhecer vossa mãe, permita-me dizer que é exatamente o retrato dela, tão bela quanto ela fora um dia.
Sharon suspirou e pegando a pena que o homem oferecera a ela, assinou o documento que fora lacrado com o selo do tabelião de notas e entregue a ela numa pasta de couro.
Quando o homem se foi, Sharon notou que o sol começava a se por, o silêncio inundou novamente o castelo e Sharon se permitiu sentir, sentia a dor pelas mentiras e pelo preço da verdade que naquela noite roubara toda a sua felicidade. Sentia medo pelo futuro incerto.
Sharon caminhou até o saguão de entrada do castelo encontrando ali os dois afrescos pintados pelo próprio conde Heiselmann, um auto retrato onde o conde aparecia imponente e perigoso em toda a sua gloria e beleza, e o outro era um retrato da filha. Sharon tinha o rosto suave, não era como se fosse mais jovem, sabia que não envelhecera um dia desde então, mas algo era diferente. Era como se naquele retrato ela conservasse uma inocência que agora não existia mais. Ela se lembrava tão bem daquele dia quando o pai a pintou, uma noite encantadora, riam e brincavam como sempre faziam.
Uma lágrima caiu dos olhos de Sharon ao se recordar.
Ich vermisse dich papa – pensou ela.
Sharon só percebeu que tinha passado muito tempo olhando aquele retrato quando visualizou Christian parado ao lado dela.
- prometo que vou levá-la até ele.
Sharon limpou as lágrimas – não sei se vale a pena correr atrás de um passado que se foi a tanto tempo.
Ele sorrio para ela – tanto você quanto ele tem a eternidade pela frente, porque não podem simplesmente esquecer o passado e recomeçar?
Sharon trincou os dentes – ela matou a minha mãe.
- somos todos assassinos – disse Christian – é a nossa natureza, oque realmente importa é que ele passou 20 anos de sua vida fingindo ser humano, se privando de suas necessidades por você.
Sharon abriu a boca para falar mas ele a tapou com o dedo
- er liebt dich, não duvide disso.
- você o conheceu?
- o suficiente para não lamentar a sua partida de Berlin
Sharon assentiu. – e oque acontece agora? Oque eu faço?
Christian não respondeu, apenas sorrio.
Nos minutos que se passaram o castelo foi invadido por dezenas de vampiros, eles vinham de todos os lados, entravam pela porta da frente e se acomodavam nos sofás, revirando o castelo como se este pertencesse a eles.
Sharon ficou paralisada quando uma vampira veio em sua direção, vestia meias pretas rasgadas, um vestido provocante demais para uma mulher decente e botas, parecia uma meretriz. Seus lábios eram vermelhos como sangue e os olhos pintados de preto.
- Ora, ora, se não é a filha do conde – sua voz era arrastada e terrivelmente venenosa.
Ela se aproximou de Sharon, sua respiração em seu pescoço – não é humana realmente, tem um aroma diferente – a vampira parecia intrigada – parece ainda mais saborosa.
- Sonya afaste-se dela – ordenou Christian
Sonya riu – come ti pare, mio signore
A vampira olhou friamente para Sharon – nos falamos depois, princesinha – ela riu mostrando presas terrivelmente afiadas.
Sharon acompanhou com os olhos enquanto a vampira se afastava rebolando e se juntando a outro grupo de vampiros que tinham encontrado a velha adega de seu pai e agora se serviam de bebidas e fumavam rindo e falando numa língua que Sharon acreditava ser italiano.
- não se preocupe com Sonya, ela é inofensiva – disse Christian sorrindo solidário para Sharon.
Sharon o encarou incrédula – não é oque parece
Ele riu – é exatamente oque ela quer que você pense. O medo mantém as pessoas afastadas. Criar o medo ao seu redor de alguma forma é uma espécie de escudo protetor. Se temem você não tentarão lhe fazer mal.
Sharon pensou em seu pai, em como as pessoas pareciam ficar desconfortáveis perto dele. Seria mesmo isso? Ele estava se protegendo? No entanto Sharon nunca se sentiu desconfortável perto do pai, pelo contrário, estar com o pai lhe trazia paz.
- vocês ficarão na cidade por muito tempo?
Christian suspirou refletindo – acabamos de chegar, estávamos exaustos dos ares de Roma, ficamos por lá por mais de 30 anos. É bom voltar a Berlin.
Sharon entendeu o recado, não teriam pressa para irem embora.
- mas iremos para a Romênia logo, não é ?
Ele assentiu – iremos para a Romênia quando nos for conveniente. Por enquanto sossegue-se, afinal tanto você quanto seu pai tem tempo de sobra.
Sharon suspirou derrotada, teria que esperar.
- vou me retirar para meu quarto – disse ela – por favor não permita que destruam a casa.
- pensei que não se importasse com o castelo.
Sharon encarou o quadro de seu pai – eu também.
***
Anne corria com todas as suas forças, fugia dos capangas de Laurentiu, e agora enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto amaldiçoava a infeliz idéia de fugir do castelo daquela forma.
Não importava o quanto estivesse assustada com a verdade revelada por seu protetor, ele ainda soava menos perigoso do que os homens que corriam atrás dela.
Entre um descuido e outro caíra novamente nas mãos do destino e outra vez se via fugindo, mas desta vez não tinha mais forças para lutar, estava fraca e cansada.
Enquanto corria por becos sem fim fugindo dos cruéis homens que a perseguia, e da fria chuva que caia aos baldes sobre sua cabeça, amaldiçoou a vida que fora lhe dada e desejou a morte.
Num tropeço tombara e caíra nos pés de um de seus captores. Laurentiu.
O homem a segurou pelos cabelos e a levantou do chão a fazendo olhar em seus olhos malignos. – olá Anne, onde esteve escondida todo esse tempo?
Anne juntou todas as suas forças tentando escapar, mas suas mãos eram fortes.
- ora, minha querida, eu sei que apenas se perdeu e não conseguiu achar de volta o caminho de casa. – ele a olhou com olhos de um louco, sua paixão por Anne era doentia. – eu a procurei por todo esse tempo, senti tanto a sua falta, minha amada.
Laurentiu aproximou o rosto ao rosto de Anne, seu cheiro era repulsivo, ele então beijou seus lábios violentamente. Sem conseguir se conter, Anne o empurrou e cuspiu em sua face.
Ele lambeu os lábios e então a esbofeteou com força – você vai aprender a me respeitar!
Os homens de Laurentiu gritavam e riam da cena.
- diga-me onde esteve escondida todo esse tempo
- Nein
outro tapa atingiu seu rosto e Anne sentiu o sangue em sua boca quando os dentes lhe cortaram as bochechas.
- eu mandei me dizer onde estava escondida
- e eu ouvi, mas não irei dizer – desafiou Anne.
- ensine a ela uma lição Lau – gritou um de seus capangas.
O homem largou Anne por alguns segundos e a empurrou contra a parede do beco, ele desafivelou sua cinta e Anne sabia oque vinha a seguir, já tinha passado por isso outras vezes.
Ele segurou a cinta nas mãos ameaçadoramente – diga onde estava escondida
- nein
A cinta encontrou seu rosto e o sangue fluiu quando a fivela bateu em sua testa. Outros golpes vieram, os homens riam, queriam ouvi-la gritar, mas Anne não lhes daria tal satisfação.
Agüentou todos os golpes calada, embora suas pernas não fossem mais capaz de agüentar o peso de seu corpo. Aos poucos foi desfalecendo, caindo no chão.
Laurentiu colocou o pé em seu rosto apertando – diga-me onde estava escondida.
- nein
O homem a chutou no estomago com força e Anne perdeu o fôlego, outros chutes vieram e não satisfeito chamou seus capangas que se juntassem a festa.
Os golpes vinham de todos os lados, a visão de Anne estava turva e o ar não vinha mais aos pulmões, a dor era tão tremenda que seu corpo sofria espasmos e sabia que seus ossos não agüentaria por muito tempo. Gritou quando um dos homens a pisoteou com força nas costelas, pode ouvir o romper dos ossos e não conseguiu mais se segurar, toda a força se esvaiu e gritou a plenos pulmões.
- stoppen, bitte, bitte, stoppen
Eles riram, Laurentiu se abaixou e se aproximou de seu rosto.
- vai dizer agora?
Anne assentiu.
- onde estava escondida?
Anne implorou que o torpor e a escuridão a dominassem, implorou pela morte, mas esta não viria tão facilmente. Sua boca pingava a sangue, seu rosto escorria sangue e todo o corpo estava esfolado e sangrava.
- sagen – gritou Laurentiu – onde estava escondida? Quem ajudou você?
- Stirbei – gritou Anne com toda a força que conseguiu reunir – eu estava no castelo de Stirbei.
Os homens pararam surpresos e Laurentiu riu – isso não é verdade.
- sim, é – disse Anne desesperada, se não acreditassem nele continuariam batendo.
- não existe ninguém naquele castelo.
- o nome dele é Tilo – as lágrimas escorriam pelo rosto de Anne ao se lembrar dos poucos dias que passou no castelo, apesar de todo o medo que Heiselmann a fez sentir no ultimo dia, ele fora bom para ela de uma forma que ninguém nunca fora em toda sua vida.
- peguem-na. Coloquem-na no cavalo. – exigiu Laurentiu
Um homem pegou Anne de qualquer forma do chão e ela gritou quando o corpo fora jogado em cima do cavalo, pendurada como uma saca de batatas. Eles montaram.
- vamos para o castelo – gritou Laurentiu.
***
Tilo Heiselmann foi despertado de seu torpor por gritos de agonia e vozes que gritavam ordens. Apurou os ouvidos para ouvir além da tempestade que persistia e pode reconhecer os gritos e choro de Anne. Não sabia oque estava acontecendo e por uma fração de segundo acreditou fielmente que não se importava. Até que um grito mais forte ressoou o fazendo lembrar do som que ouvira dias atrás acreditando que pudesse vir de Sharon.
- Tilo! - Era um pedido de ajuda.
Numa fração de segundo Heiselmann se colocou de pé e correu em direção aos gritos.
Quando chegou no saguão de entrada do castelo viu Anne ensangüentada nos braços de um homem mal trapilha que cheirava a cavalos.
- ora, ora, não é que a puta estava falando a verdade – disse o homem encarando Heiselmann com olhos de águia.
- lassen sie jetzt – disse ele calmamente
- os homens riram – sério? E oque fará se eu não quiser soltá-la?
Heiselmann sentiu a ira crescer dentro dele, além do mais o cheiro do sangue de Anne o estava enlouquecendo.
- você não quer saber isso – respondeu ele friamente.
- Tilo.. – a voz de Anne estava fraca, era apenas um resmungo.
Os homens o cercavam aos poucos, prontos para atacá-lo a qualquer momento, ele se mantinha parado – lassen sie
- ah você a quer? – perguntou o homem petulante – diga-me porque se interessa tanto por ela? Ela já lhe mostrou suas qualidades não é? Você gostou? Devo dizer que fui eu quem ensinou tudo oque ela sabe.
Heiselmann sentiu a ira crescer dentro dele e suas presas se alongaram e não fez questão alguma de escondê-las. Soltou um rosnado por entre as presas e então o homem o encarou com medo.
- lassen sie – sua voz era um grunhido nada natural
- peguem-no – gritou ele para seus capangas. Mas Heiselmann foi mais rápido, num instante se virou e agarrou um dos grandes pelo pescoço, o homem se debateu até que ele torceu seu pescoço entre as mãos. Outro tentou agarrá-lo por trás, mas ele se virou rapidamente segurando seus pulsos e torcendo seus braços para trás, sem o mínimo de força os dois braços do homem estava em suas mãos enquanto o homem gritava alucinado no chão. Heiselmann pisou em seu pescoço até que ele morresse sufocado. Os outros dois homens agora estavam encurralados na parede, quando tentaram puxar ar armas, Heiselmann voou até eles segurou um em cada mão, estrangulando um deles e o outro mordeu na artéria sentindo o sangue descer por sua garganta. O homem gritou e então caiu morto no chão.
O outro ainda se debatia enquanto morria lentamente e então Heiselmann sentiu o ardor do fogo quando o quinto homem que mantinha Anne presa em seus braços atirou contra ele atingindo seu ombro. Ele rosnou se virando rapidamente, do queixo pingava o sangue de seu companheiro. O homem soltou Anne a jogando no chão e disparou contra Heiselmann outra vez, desta vez no peito, mas ele não parou, continuou caminhando cruzando o saguão.
O homem correu então até a porta da saída mas ao chegar lá Heiselmann já estava o esperando. Ele ergueu o homem no ar e com uma das mãos arrancou-lhe a cabeça jogando-os no chão.Heiselmann ficou parado por alguns segundos tentando se acalmar.
O chão do saguão era uma poça de sangue na qual Heiselmann caminhou até encontrar Anne que se arrastava para longe dele enquanto se aproximava.
Não a julgava por temê-lo.
Heiselmann a pegou no colo e a levou escada acima. A colocou na cama e a observou.
Os cabelos estavam grudados ao rosto empapados com sangue. Todo o corpo estava machucado, roxo e sangrando e sua posição era extremamente preocupante, haviam lhe partido as costelas, conhecendo a fragilidade dos humanos sabia que não sobreviveria a tais ferimentos.
- vou morrer, não vou? – perguntou ela, a voz era fraca e sofrida.
Heiselmann a encarou em cólera – é isso que quer?
Anne encarou o teto e uma lágrima escorreu de seus olhos – não quero mais sofrer.
Ele consentiu.
- estou com medo – disse ela
– posso fazer a dor passar, se é isso que quer
- Haluan vain elää
Heiselmann puxou a manga da própria camisa e mordeu o pulso fazendo com que seu próprio sangue jorrasse. Anne não pareceu assustada, estava quase catatônica.
Ele se aproximou da cama e ofereceu o pulso a Anne – trinkt mein blut
Anne colocou os lábios em seu pulso e quando seu sangue tocou-lhe os lábios e sentiu o seu sabor agarrou-lhe o braço sugando com toda a sua força.
Heiselmann mantinha os olhos fechados enquanto seu sangue era drenado pela humana.
Então puxou o braço e se sentou na cama, os batimentos cardíacos agora estavam acelerados, o veneno de seu sangue começara a trabalhar no organismo de Anne. Mas ainda não estava terminado.
- eu lhe dei a chave para uma nova vida, mas antes precisa morrer nesta vida.
Anne o encarou assustada e numa fração de segundo ele voou em seu pescoço drenando-a até a última gota, até seu coração parar finalmente de bater.
Ele a largou na cama morta, mas ainda assim viva.
Saiu do quarto fechando a porta as suas costas.
Nunca antes havia feito aquilo, nunca antes tinha tornado um humano em vampiro, mas já desejara fazê-lo, e ver Anne sugando-o daquela forma o fez voltar a noite do baile de Sharon.
A vida que dava a Anne agora deveria ter sido dada a Sharon naquela noite.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário