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domingo, 8 de dezembro de 2013
Livro 2: INFERNO Cap. 3
Capítulo 3
Unerkannt
(Desconhecido)
Sharon acordou atordoada, ao se lembrar do terrível ataque que sofreu pulou da cama e olhou em volta. Estava em sua casa. Suspirou tentando manter a calma, pensou se aquilo poderia ter sido um pesadelo, mas a dor lacerante que sentia no braço e a mancha rocha que ali estava provava o contrário.
Como consegui escapar daquele monstro? Perguntou-se ela se lembrando imediatamente do segundo homem. Ela sabia que ele também era como seu pai, viu a forma como ele se moveu diante de seus olhos, no entanto ele a salvou. Porque?
De repente Sharon teve medo de que ele pudesse ainda estar em sua casa, saiu do quarto e correu pelos corredores da pequena casa, mas não havia ninguém ali além dela.
Suspirou aliviada. Olhou no relógio, eram dez da manhã.
Segundo o pouco que sabia sobre aqueles monstros, eles não podiam sair ao sol, então estava segura durante o dia.
Deixa de ser boba, se ele quisesse te matar ele já tinha feito, pensou ela irônica.
Havia desmaiado nos braços daquele homem, o mesmo que a havia salvado do outro monstro que tentara matá-la segundos antes. O homem a trouxe em casa e partiu.
Não era bem o comportamento que esperava dessas criaturas.
Um aperto em seu coração a fez lembrar que o pai conviveu com ela por vinte anos sem nunca machucá-la. Durante sua vida inteira nunca desconfiou do que o pai era.
Talvez alguns deles sejam bons.
No entanto a lembrança das frases rabiscadas do diário de seu pai a fez mudar de idéia imediatamente: Evelyn está morta, havia escrito seu pai, eu a matei.
Lágrimas se formaram nos olhos de Sharon e ela lutou para afastá-las.
Porque esses fantasmas do passado não podiam simplesmente deixá-la em paz?
Porque não conseguia esquecer?
E agora isso? Depois de quarenta anos eu tinha que encontrar esses monstros?
As criaturas sedentas de sangue que Sharon encontrá-la na noite anterior só serviam para fazê-la lembrar do pai. Embora tivesse ficado com medo no momento e tentado fugir, agora,
analisando a situação com calma, preferia que tivesse morrido.
Só a morte poderia me trazer paz.
Sharon caminhou de volta para seu quarto, se dando conta de que estava atrasada para o trabalho, trocou de roupa rapidamente sem se dar ao luxo de tomar o café da manha.
Já estava saindo do quarto quando encontrou um pedaço de papel em cima de sua mesinha de cabeceira. Sharon pegou o papel nas mãos e o encarou, a caligrafia era bonita e claramente masculina:
Fräulein Heiselmann
Ich weiß, Sie über den Vorfall haben Angst letzte Nacht
aber ich weiß auch, dass es viele Fragen in seinem Kopf
das brauchen Antworten.
Wenn Sie reden wollen, kann ich ihnen antworten.
Ich verspreche, ich werde dich nicht das Böse.
Wenn Sie jemanden wie mich vertrauen kann, bin ich bereit, ihr zu helfen
was will man mehr.
PS Da ich denke, Sie wissen, ich kann nur mit entsprechen
Fräulein Nacht.
Vorbei an Ihr Haus um zehn Uhr genau, lass mich ein Zeichen
wenn du mich gehen wollen.
Ein Freund
(Senhorita Heiselmann sei que está assustada devido ao incidente da noite passada
mas sei também que existem muitas perguntas em sua cabeça que precisam de respostas.
Se quiser conversar poderei respondê-las. Prometo que não lhe farei mal.
Se puder confiar em alguém como eu, estarei disposto a ajudá-la naquilo que mais deseja.
P.S. Como imagino que saiba, só poderei me encontrar com a senhorita à noite.
Passarei por sua casa às exatas dez da noite, deixe-me um sinal se quiser que eu entre.
Um amigo)
Sharon pensou por alguns segundos.
Como esse homem sabe o meu nome?
Desde que fugira da casa de seu pai, à quarenta anos atrás nunca mais usou o nome Heiselmann, escolhera deixar o passado para trás assumindo o sobre nome da mãe e avó:
Den Adel.
Estarei disposto a ajudá-la naquilo que mais deseja, disse o homem.
Do que ele está falando? Meu pai?
Sharon estava assustada e o pior, esperançosa. Aquele homem poderia ajudá-la a encontrar seu pai? Mas será mesmo que ela queria encontrá-lo? Para que?
Provavelmente ele pensa que estou morta, pensou ela infeliz.
Sem se permitir chorar, guardou o papel na gaveta e estava saindo do quarto quando uma idéia lhe passou pela cabeça.
Deixe-me um sinal se quiser que eu entre.
Sharon pegou um lençol branco e o amarrou firmemente na janela de seu quarto.
Suspirando, pegou sua pequena bolsa e saiu para o trabalho.
***
Tilo Heiselmann se encontrava escorado na parede do cômodo escuro, seus instintos lhe diziam que o sol estava se pondo. Agradecendo a quem quer que fosse ele suspirou.
Ainda pensando em Sharon, resolveu tentar banir aqueles pensamentos de sua mente,
precisava lhe dar com um assunto delicado. Anne Nivyeska.
Como pude deixá-la ficar? Pensou o conde preocupado. O descuido da humana, embora inocente, havia causado a ele um transtorno muito maior do que as queimaduras que agora ardiam em sua pele. Fora obrigado a permanecer trancafiado naquele quarto o dia todo.
Trancafiado em minha própria casa.
Além do mais, embora tivesse se alimentado na noite anterior, pela dor extra que sentia estava terrivelmente faminto e ali na Romênia tinha que tomar muito mais cuidado ao se alimentar.
Não sou o único aqui, pensou o conde se lembrando das poucas e desagradáveis vezes que se deparou com outros de sua espécie. Odiava se misturar, pois lhe parecia que nenhum deles eram como ele na verdade. Não sabia afirmar se fora o primeiro ou se o Diabo antes, já houvesse feitos outros tratados como aquele que lhe custou sua humanidade.
Algo que o conde Heiselmann sempre observou naqueles de sua mesma espécie que encontrara foi o fato curioso de que eles não pareciam capazes de conviver sozinhos. Estavam sempre em bandos, como se a vida na solidão e na ausência de um líder lhes fossem desconhecida ou talvez difícil de suportar.
Antes, quando perdera sua filha, o conde ponderou a idéia de sair em busca de um clã ao qual pertencer, mas sua superioridade nunca permitiu-lhe considerar realmente o fato.
Vivo apenas para mim mesmo, pensou o conde, seguindo minhas próprias regras, eles deveriam me seguir, nunca o contrário. Sou um líder!
O conde subiu as escadas e atravessou a pequena porta em direção a seus aposentos.
o quarto agora estava escuro, as cortinas e janelas novamente fechadas.
Atravessou o aposento e enquanto caminhava pelos corredores desertos do castelo, seus passos ecoando na escuridão, sentiu um aroma que a muito tempo não sentia.
Comida. A julgar pelo cheiro, poderia jurar que fosse feijão, algum tipo de legume cozido e carne de porco. Alimentos que ele mesmo havia trazido para casa para que Anne se alimentasse.
Anne. pensou o conde irritado e abismado que aquela situação em particular lhe parecesse acolhedora. Quase como se naquele instante Tilo se recordasse de como era ter um lar.
Por fim, enquanto descia as escadas e atravessava o salão em direção a sala de jantar, sorrio e ao se surpreender por ser pego sorrindo, sentiu-se irritado.
***
Anne estava colocando os pratos na mesa, esses que estavam completamente empoeirados como se não fossem usados à décadas, quando Tilo atravessou a porta e seu coração se acelerou com a presença do homem deslumbrante. No entanto algo estava errado, havia marcas em seus braços, pescoço e rosto. Parecia queimaduras.
- mein gott – Anne correu até ele tocando seu braço – oque aconteceu?
Antes dele responder ela recolheu a mão e se sentiu corar por seu atrevimento.
- não foi nada – disse ele um tanto rude, parecia de mal humor – um infeliz acidente.
- posso cuidar desses machucados para você – disse ela preocupada e pronta para agradá-lo no que fosse possível. Afinal aquele homem havia abrigado a ela e compreendido seu passado de um jeito que nenhum outro jamais fez.
- nein – disse ele serio – ficarei bem.
Sem se abalar Anne sorrio para ele – eu preparei o jantar, e tive o atrevimento de limpar seus aposentos, espero que não se importe. Estava tudo tão empoeirado.
Tilo sorrio para ela, mas o sorriso pareceu forçado.
- Dunke – agradeceu ele.
- venha comer – Anne serviu um prato com a comida que havia preparado com tanto carinho e colocou na mesa, puxando a cadeira para que se sentasse.
Estava acostumada a servir mesas, era seu novo trabalho desde que Laurentiu a tirou da tarefa de servir homens.
- não estou com fome – disse Tilo – na verdade já jantei.
O coração de Anne pulsou em decepção. – ah que pena.
Ela tentou não demonstrar seu descontentamento exagerado, mas foi impossível e é claro que ele notou.
- no entanto a comida esta tão cheirosa, - ele sorrio abertamente para ela mostrando dentes perfeitamente brancos e bonitos. - acho que vou experimentar.
Anne sorrio de volta para ele radiante.
Ele se sentou, pegou os talheres e começou a comer.
Tão educado, pensou ela admirando-o enquanto comia.
- não vai comer? – perguntou ele, aparentemente o mal humor havia sumido, ou, como o cavalheiro que era, estava disfarçando muito bem.
Anne serviu-se e se sentou a mesa ao seu lado, no entanto sentiu-se envergonhada por seus modos não ser tão finos quanto os dele.
***
Custava ao conde Heiselmann acreditar que estava outra vez se submetendo aquilo, fingindo ser humano para uma humana. No entanto oque mais lhe surpreendia era que, embora o gosto terrível da comida o irrita-se e a fome real nele se alastrasse queimando sua garganta pela proximidade da humana, estava incrivelmente feliz por sua presença.
Anne comia devagar, envergonhada, imaginava ele, por não ser tão boa com os talheres.
No entanto oque antes o irritava muito, a falta de bons modos a mesa, agora não lhe interessava o suficiente para incomodá-lo.
Oque realmente incomodava Heiselmann naquele momento era o rápido pulsar do coração de Anne, cada batida era uma dose a mais daquela maldita ardência que queimava sua garganta.
Para piorar as queimaduras causadas pelo sol doíam causando mais sede, e elas não curariam enquanto ele não se alimentasse.
Pegou-se observando a forma como as veias do pescoço de Anne se sobressaiam através da pele fina quando movia o maxilar para mastigar. A pele tão branca deixava a mostra veias levemente arroxeadas e elas pulsavam fazendo sua boca secar.
Quando começou a imaginar como seria a sensação de colocar seus lábios naquele pescoço e sentir o sangue quente e doce descendo por sua garganta, Tilo sentiu as presas se alongarem.
- oque foi? – perguntou Anne a ele com um sorriso tímido. Ele já não estava conseguindo disfarçar sua sede, não conseguia tirar os olhos dela.
- ich kann nicht – desculpou-se o conde saindo da sala de jantar em disparada.
Andou rapidamente pelos corredores, atravessando o salão.
As presas afiadas furavam seus lábios e o próprio sangue só servia para deixá-lo ainda mais sedento. Correu até o bar que sempre deixava bem estocado com garrafas de single malte , abriu uma garrafa e se serviu de um longo gole que tomou direto do bico.
Mas nem mesmo o álcool era capaz de aplacar a sede que sentia.
Como pude ser tão descuidado? Lamentava-se o conde. Porque me permiti ficar tão faminto? Porque não me alimentei antes?
Lembrou-se do incidente em que passara a tarde toda preso naquele maldito quarto, ao se dar conta de que a culpa sempre pendia para a humana, amaldiçoou a idéia infeliz de tê-la acolhido.
O maldito cheiro de Anne estava impregnado no castelo todo, não podia fugir.
Preciso sair daqui, pensou o conde se afastando.
Estava cruzando a porta quando Anne o chamou.
- Warten! – chamou Anne correndo em sua direção.
Contra sua vontade, prendendo a respiração o máximo que pode se virou para observá-la.
Maldição está chorando!
- oque eu fiz? – perguntou Anne infeliz – sei que está incomodado com alguma coisa que fiz, me diga oque é. Foi porque limpei seus aposentos sem sua permissão? Ich tut mir leid..
- nein, não é nada disso – Tilo tentou se desculpar com a mulher que se desmanchava em lágrimas perante ele, mas estava tão faminto que doía. Não podia ficar mais nenhum segundo na presença dela.
- eu preciso ir – disse ele se virando. Então Anne o segurou pela mão e o simples contato de sua pele quente na sua, ou a surpresa do gesto atrevido foi o suficiente para que seu auto-controle se esvaísse.
Num movimento rápido, Tilo segurou Anne peço pescoço e a puxou para si, embora estivesse assustada, ela não gritou quando ele afastou seus cabelos e levou suas presas até seu pescoço. Quando a mordeu ela se debateu em seus braços mas ele a segurou com força.
O sangue doce que descia pela sua garganta acalmou instantaneamente a ardência, fazendo com que as queimaduras se curassem instantaneamente.
Lentamente sentiu que a mulher desfalecia em seus braços, ainda estava sedento, poderia beber dela até a ultima gota, mas não foi capaz de matá-la.
Lutando contra a vontade de continuar ali bebendo daquele sangue tão doce, pendeu a cabeça para trás se afastando de seu pescoço. O sangue quente de Anne escorria por seus lábios.
Anne estava beirando a inconsciência, sua camisa branca emprestada, que no corpo esbelto de Anne ficava tão bonita, estava vermelha com o sangue que escorria de seu pescoço.
Quando desmaiou, ele a pegou em seus braços.
Totalmente entregue a mim, pensou o conde enquanto caminhava pelo castelo. Atravessou o salão, as escadas e a levou para seus aposentos, repousando-a em sua cama.
Observou-a por alguns segundos ali deitada. A camisa levemente transparente deixou evidente seios fartos. Agora com a sede aplacada, sentiu uma sensação que a muito tempo não sentia. Desejo.
Sorrio para a mulher desmaiada em sua cama e levou um dos pulsos a boca, mordendo-o.
Quando seu sangue vermelho escuro escorreu pelo corte feito pelas presas, ele se sentou na cama e esfregou o pulso sobre a ferida do pescoço de Anne.
Instantaneamente a ferida causada por suas presas se fechou.
Anne dormia profundamente, e assim continuaria durante toda a noite.
O conde Heiselmann afastou os cabelos negros e lisos de seu belo rosto. Sua expressão não era de medo, estava apenas dormindo.
Sorrindo deixou o quarto, fechando a porta atrás de si.
Ao descer as escadas o corte em seu pulso já estava completamente curado, a garganta não ardia mais, embora ainda estivesse com sede.
De repente varias sensações o tomou completamente.
Fascinação pela mulher que repousava em sua cama, desejo e curiosidade em saber como seria tê-la em seus braços e então remorso ao recordasse da vez em que da mesma forma, a força, mordeu Sharon.
O sangue de Anne embora tão delicioso não era tão doce quanto o de Sharon, e esse simples fato, o fato de ele conseguir mesmo depois de tantos anos fazer a distinção provava a Heiselmann que nunca fora capaz de esquecer o gosto do sangue da filha.
Quão asqueroso isso é de minha parte? Lamentou-se o conde.
Por fim, servindo-se de mais uma dose de whisky, pegou o casaco e o chapéu que aguardavam por ele sobre a mesa do bar e então saiu pela noite em busca de uma presa a qual pudesse beber sem restrições.
Suas emoções tumultuadas dentro dele o deixavam com ódio e apenas uma coisa podia aplacar esse ódio que crescia dentro dele.
Matar.
***
Sharon voltava para casa depois de um dia cansativo de trabalho no restaurante do Sr Adalberto. Katrina havia pedido que passasse a noite com ela, mas Sharon não podia deixar de estar em casa caso o homem estranho fosse mesmo lhe visitar.
Que idéia mais ridícula, pensou ela enquanto caminhava lentamente pela rua, o sol havia se posto a apenas uma hora, mas as ruas já estavam começando a ficar desertas.
O medo de encontrar com o homem que a atacara na noite anterior a deixava apavorada.
Apertou o passo andando o mais rápido que podia sem correr.
Como posso confiar naquele homem? Se perguntou amedrontada. O fato de estar indo de encontro com um demônio para uma conversa, sobre ela não sabia oque, estava deixando-a apavorada. Não era o medo de morrer que a aterrorizava e sim o medo do que aquele homem tinha a dizer. Se ele pudesse mesmo dizer a Sharon onde seu pai estava, ela não saberia dizer se conseguiria lutar contra o desejo ou se iria atrás dele.
Ele teria uma bela surpresa se me visse hoje, pensou ela angustiada. O pai deveria imaginar que estivesse morta, afinal ela era humana e os humanos morrem.
Mas acontece que eu não sou humana, eu sou outra coisa.
Sharon sentiu seu peito se apertar. A idéia de ser uma aberração a assombrava a vida toda.
Antes, quando sua avó era viva, ela servia para lembrá-la de que isso não era verdade, mas a avó morrera a mais de 15 anos e durantes os anos que se seguiram, agravados pelo fato de se ver todos os anos com a mesma face no espelho, Sharon começara a acreditar veemente que
não era normal e que não podia fugir daquilo que era.
Mas afinal oque sou? Não sou humana, mas também não sou como ele.
Sharon temeu por algum tempo que em algum momento fosse se transformar no monstro que seu pai era. Que em algum momento lhe cresceriam presas e que teria olhou terríveis como os que vira em seu pai na noite em que a atacou. Tivera pesadelos terríveis e um ainda a assombrava todas as noites.
Nesse sonho em particular estava presa em algum lugar estranho, como uma casa grande cheia de portas, em cada porta que entrava encontrava coisas horríveis, uma mulher que era metade cavalo, uma mulher anã que cuspia sangue pela boca, e o pior de tudo, encontrava ela mesma se banhando em uma banheira, o sonho sempre acabava quando aquela Sharon a encarava com os olhos de seu pai, olhos de um demônio.
Salve-me do meu medo, pediu Sharon para quem quer que fosse. Não permita que eu me torne um monstro como ele é.
Uma lágrima caiu dos olhos de Sharon e ela a enxugou as presas enquanto cruzava o portão de casa. Ao olhar na janela viu o lençol ondulando com o vento, era um sinal fácil de ser visto.
No entanto, agora, ela desejava não ter colocado aquele lenço ali para que o homem não viesse, para que não lhe contasse coisas que, embora quisesse, preferia não saber. Para assim não cometer o erro de sair em busca daquele quem um dia amou tanto.
A pequena e humilde casa de Sharon a saldou quando atravessou a porta, trancou-a.
Cansada, tomou um banho e esperou.
Já passava das onze da noite e não havia sinal do homem, os olhos de Sharon estavam pesados e acreditando que o tal homem não fosse voltar, se permitiu pegar no sono.
Sharon acordou no meio da noite suada e amedrontada com o conhecido pesadelo.
No entanto o medo do sonho não era nada comparado ao susto que levou ao ver uma silhueta parada imóvel aos pés de sua cama.
- Boa noite Srta Heiselmann – a voz do homem era grave e firme.
Sharon se levantou as pressas, estava tudo escuro.
Um segundo depois e todas as velas de seu quarto se ascenderam como que num passe de mágica.
Sharon deu um pulo assustada.
- pensei que não vinha mais – disse ela nervosa.
Sharon encarou o homem. Era alto, tinha os ombros largos e braços fortes. sua pele era branca como papel, exatamente como a pele de seu pai. Os cabelos eram negros, lisos e curtos. E os olhos..
Ele tem os olhos do meu pai, pensou Sharon amedrontada.
Os olhos do homem eram de uma cor de azul claro, diferente da cor dos olhos do conde Heiselmann que possuía olhos castanhos. Mas no entanto possuía um circulo de luz, um brilho estranho e pupilas terrivelmente dilatadas exatamente iguais os olhos do pai quando os viu naquela noite em que a atacou.
O homem esperou em silêncio que Sharon o analisasse com os olhos. Embora fosse um monstro como aquele que a atacou na noite passada, aquele homem não era tão aterrorizador como o outro. Sharon sabia que era idiotice tentar acreditar que o homem não fosse perigoso.
- perdoe-me por assustá-la – disse o homem. Embora falasse em um alemão perfeito, parecia ter um sotaque diferente que Sharon não podia dizer de onde era. – e perdoe-me pelo atraso.
Sharon assentiu sem nada dizer.
- não crê ser perigoso para uma jovem morar sozinha? – o homem deu um passo na direção de Sharon. Ela se afastou ficando com as costas contra a parede.
- por favor, não tema. Se eu tivesse intenção de machucá-la já o teria feito.
Sharon suspirou. Aquilo era verdade. Esteve dormindo com aquele homem em seu quarto. E ainda assim estava viva sem nenhum arranhão.
- como sabe meu nome? – perguntou Sharon desconfiada.
- ouvi pessoas chamando-a por esse nome – respondeu ele com um sorriso.
- esteve me seguindo?
- já faz alguns dias – disse ele
- porque?
- porque estava curioso a seu respeito.
O homem encarou Sharon e então inspirou ruidosamente – oque é você?
Sharon não respondeu, se deu conta de que o outro homem tinha feito a mesma pergunta.
- você disse que poderia me ajudar com algo que quero – disse ela reunindo coragem – do que você esta falando exatamente?
O homem sorrio – direto ao ponto então.
- Digamos que eu saiba onde seu pai esta – disse ele em tom de suspense.
Sharon sentiu seu coração pular em seu peito – você sabe?
- talvez – respondeu ele com um sorriso irônico. – se me responder algumas perguntas, talvez eu posso responder algumas para você.
- como sei que esta falando a verdade? – perguntou Sharon – como sei que posso confiar em você?
- não pode – respondeu ele – uma dica de sobrevivência que vou te dar: Nunca acredite em alguém como eu.
- como assim alguém como você? – perguntou Sharon
- por favor, não vamos fingir que não sabe oque sou – disse ele.
- e oque você é? – perguntou Sharon, seu coração pulsava em seu peito.
- a mesma coisa que seu pai é – ele sorrio – você ainda se lembra dele? Já faz muito tempo não é? Devo dizer que os anos foram bem generosos com você. – ele sorrio irônico.
- eu lhe digo oque quiser se me disser onde meu pai está – implorou Sharon.
- Gut – o homem sorrio – mas primeiro vamos as formalidades. Permita que me apresente.
O homem deu um passo a frente – mein name ist Christian Pringsheim Pohl. -
Ele fez um gesto de reverencia com as mãos e então olhou nos olhos de Sharon.
- Ich bin ein vampir – ele sorrio abertamente mostrando presas terrivelmente afiadas.
Sharon engoliu em seco.
Todas as velas do quarto começaram a ascender e apagar sozinhas. Mas Sharon sabia que era ele quem estava fazendo aquilo.
Christian sorrio para Sharon que naquele momento não conseguia sequer sentir se seus pés tocavam o chão. – quantos anos faz? Trinta?
- Quarenta – respondeu Sharon
- não é muito comum encontrar humanos tão jovens com a sua idade.
- não sou uma humana – disse Sharon firme – embora tenha nascido de uma.
O vampiro a encarou agora surpreso.
- então os boatos eram verdadeiros?
- não sei de quais boatos esta falando.
Ele sorrio agora dando mais alguns passos em direção a Sharon e se sentando aos pés de sua cama. – alguns diziam que o grande conde Heiselmann tinha tido uma filha com uma humana.
Outros diziam que a criança era adotada, pois muitos temem que nossa raça não seja fértil, - ele encarou Sharon – se é que me entende.
Sharon não respondeu.
- ao que parece os medos de nossa espécie eram infundados. Afinal você está aí. Me perdoe a pergunta mas quantos anos tem senhorita Hei..
- Den Adel – Sharon suspirou – meu nome é Sharon Den Adel.
- como quiser – disse Christian sorrindo
- tenho 60 anos, e sim eu sei que não envelheci nada. Podemos pular essa parte?
- wunderbar – maravilhou-se o vampiro – e você vive como uma perfeita humana? Não há nada de especial em você?
Sharon pensou por um segundo. Essa era a pergunta que ela fazia a si mesmo todos os dias e ainda não tinha respostas.
- eu não sei – respondeu ela sincera.
Christian a encarou e então sorrio – acredite você saberia se houvesse. – ele piscou
- bom, eu não me alimento de sangue se é isso que quer saber
- incrível – disse o vampiro – perdoe –me pela indiscrição, eu precisava saber.
- você disse que pode me ajudar a encontrar meu pai – Sharon suspirou – como?
- antes de qualquer coisa, eu diria que precisa confiar em mim – disse Christian – sei que estou me contra dizendo e que não parece fácil confiar em um.. bem alguém como eu, mas você verá que existem diferenças entre os que você conheceu, incluindo seu pai, e do que eu sou.
- como pode ser diferente? Você é um vampiro – Sharon estava confusa.
Christian parecia compreender os medos de Sharon.
- imagino que seja difícil lidar com essas circunstancias – ele a olhava compreensivo – você não conhece muitos de nós, talvez quando nos conhecermos melhor você entenda que não é porque pertencemos a mesma raça, que temos que ser todos iguais. Eu não tenho interesse em machucá-la e garanto que nenhum dos meus o fará. Infelizmente não posso responder pelos outros.
- existem muitos de vocês? – perguntou Sharon
- muitos mais do que você imagina. – Christian ficou sério – você aprende a reconhecê-los depois de um tempo. Eu gostaria de dizer que tenho controle sobre todos os vampiros dessa cidade, mas seria mentira. Nem todos gostam de ser liderados, e as regras são difíceis de serem seguidas, muitos preferem viver sozinhos.
- de que regras está falando?
- as regras que imponho para qualquer um de minha espécie que quiser me seguir.
Christian se levantou e se aproximou de Sharon. Ele a puxou pela mão e a fez se sentar.
- não tenha medo de mim, eu não vou machucá-la.
Sharon se sentou na cama e o vampiro se ajoelhou em sua frente.
- as regras são bem simples: não matamos por prazer, não mais do que o necessário.
Sharon se sentiu ainda mais confusa. Como aquilo era possível?
- nos alimentamos apenas daqueles que estão dispostos a nos alimentar – ele sorrio – acredite não é assim tão difícil, podemos viver de sangue animal também. Não é tão saboroso quanto o humano mas tem oque é preciso para nos manter alimentados.
Sharon estava surpresa.
- dessa forma, minha querida, não tenho motivos para machucá-la. Diferente de outros que podem querer fazê-lo apenas pelo prazer de matar, ou.. – ele parou
- ou oque?
- imagino que você deixaria muitos de nós curiosos se soubesse a verdade sobre você.
- nunca ninguém soube, ninguém vai saber
- ninguém humano. Acredite Senhorita Den Adel eu posso sentir o seu cheiro adocicado do outro lado do quarteirão e ele nada tem a ver com o conhecido perfume dos humanos. – Christian encarou Sharon com oque ela não soube dizer se era compreensão, piedade ou ansiedade. - Você é outra coisa, algo novo e desconhecido e tudo oque é desconhecido gera medo e se gera medo precisa ser destruído.
- está dizendo que podem querer me matar? – Sharon estava assustada com o rumo que a conversa estava tomando.
- exatamente. Entendo que queira seguir em frente e esquecer o passado minha querida, mas você não pode apagar oque você é e nem se esconder da verdade sobre quem é seu pai. Não tem como deixar o passado totalmente para trás. Ao tentar fazer isso você está se colocando em perigo e colocando pessoas em perigo.
- o Sr Adalberto e Katrina ..
- eles correm perigo com você por perto.
Eu só queria ser normal.
Christian se levantou e caminhou até a janela – eu posso oferecer a segurança que precisa, você pode vir comigo e estará segura.
- ir para onde? – perguntou Sharon – esta é minha casa
Christian sorrio irônico – ambos sabemos que seu lugar não é aqui, minha querida. Você é filha do grande Conde Heiselmann, é uma princesa não uma empregada.
- eu não quero..
- acredite é mais seguro comigo ao seu lado.
- e porque quer me ajudar? Não tenho nada para oferecer.
- você é a oferta minha querida – respondeu ele – com você a tanto que podemos aprender, tanto que iremos descobrir e é claro que terá oque deseja, lhe levarei até seu pai.
Sharon pensou por um instante – onde ele está?
Christian a encarou por algum tempo – Tilo Heiselmann está na Romênia
Sharon assentiu surpresa – Romênia – sussurrou para si mesma.
- está quase amanhecendo – disse Christian – preciso ir
- você está falando sério?
- sobre oque?
- sobre eu ir com você, sobre me ajudar.
- eu quero ajudá-la Srta Den Adel, mas preciso da sua confiança, sem ela nada posso fazer.
- como poderei saber que não vai me matar?
Christian riu – se eu quisesse matá-la eu já o teria feito, não acha?
Sharon não pode contestar a verdade daquilo. O vampiro a observou dormir e não tocou em um fio de seu cabelo se quer. Ele poderia ter me matado, e não o fez.
- sinto muito dizer isso, mas sou sua melhor opção.
Sharon também não podia contestar aquilo.
- eu irei com você, mas antes quero que me prove oque esta dizendo.
- como?
- leve-me para Romênia.
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