Capítulo 3
Der Jäder
(O Caçador)
Já passavam das seis da tarde quando o conde Heiselmann atravessou a passagem secreta de volta para seu escritório. Estava descansado. Seu corpo sentia que o sol estava se pondo. Finalmente havia chegado a parte do dia em que mais gostava, o momento em que ele chegava ao fim dando lugar a mais uma noite sombria e silenciosa.
O conde estava desperto, seu corpo alerta e a garganta ardia pela fome.
Sabia que precisava jantar com a filha antes de poder se alimentar e aquilo o deixava irritado.
Foi até sua escrivaninha onde encontrou os livros de cálculos e os documentos que esperavam por sua atenção desde o dia anterior. Não era de seu feitio deixar que suas necessidades suprissem seus deveres como cidadão de sua amada cidade. Sentou-se em sua cadeira e passou os olhos por um dos documentos. Sempre a mesma coisa, pensou o conde com ironia. Tratava-se da compra de terras das fazendas de café das quais era dono. O conde não se importava com terras, tampouco se importava com gado ou oque quer que fosse, mas no papel que interpretava para com aquela cidade e seus cidadãos, era necessário fingir e por outro lado o ajudava a esquecer a sede que o importunava. O conde rio e então com uma rápida olhada nos livros de cálculos, preencheu as lacunas recorrentes do documento e assinou com um floreio fino e preciso. T.H.
***
Sharon passou a tarde toda trancada em seu quarto. Seus olhos estavam inchados pelas lágrimas que derramava incessantemente ao pensar na forma dura como o pai a tratou quando perguntou sobre a mãe. Doía a vontade que sentia de conhecer a verdade.
Não estava pedindo demais, queria apenas saber quem foi sua mãe, como ela era e onde estava enterrada. Era injusto que o pai houvesse lhe privado do alívio de ao menos colocar uma rosa sobre o túmulo da mulher que a trouxe a vida.
Sentada ao beiral da janela, Sharon observava o jardim do castelo, estava anoitecendo e precisava descer para o jantar, no entanto não tinha vontade. Nada fazia sentido para ela, em 20 anos nada havia conquistado, não tinha amigos, seu pai nunca a deixou freqüentar a escola, recebia seus estudos no próprio quarto. Sempre foi assim a vida toda, seu pai a obrigava a ter diversos professores, a obrigava a estudar por horas a fio e Sharon nunca reclamou, as aulas de matemática e inglês eram difíceis para ela mas ficava feliz em aprender pois quando estava estudando esquecia de seus medos, esquecia dos problemas e dos desejos pela verdade. Sharon se entregava as aulas de histórias, filosofias, ciências e línguas estrangeiras, ficava feliz em aprender para agradar o pai mas nada daquilo era retribuído, pois ele nada dava a Sharon, nenhuma resposta era ofertada, apenas segredos encobertos por vestidos e jóias.
Eu preciso saber da verdade, pensou Sharon enquanto observava um rouxinol que passeava pela sua janela. O pássaro voou sem destino batendo no vidro da janela algumas vezes.
Sharon sorrio e abriu a janela, o pássaro entrou e pousou em seu braço.
- você está perdido? – perguntou Sharon admirando o lindo pássaro.
A ave deu um pio como que respondendo a pergunta. Sharon sorrio.
- pode ficar aqui se quiser, não vou fazer mal a você. O pássaro piou novamente bicando carinhosamente a mão de Sharon e então voou pousando sobre a cabeceira de sua cama.
- você é esperto – disse ela se levantando e indo até o pássaro – já escolheu onde quer passar a noite.- Sharon rio.
Uma batida na porta a sobressaltou e temendo que fosse o pai, rapidamente secou os olhos que estavam marejados de lágrimas. O pai a repreenderia se a visse chorando.
- entre – pediu Sharon se sentando na cama, o rouxinol a examinou com os olhinhos negros e então voou pousando em sua mão.
- senhorita Sharon – era Anna – seu pai a espera para o jantar.
- já estou descendo – disse ela sem animo
Anna entrou e fechou a porta – deixe-me ajudá-la com o cabelo, seu pai não gosta de vê-la desarrumada – repreendeu Anna pegando uma escova e escovando os fios castanhos e lisos de Sharon. – que tal colocar uma tiara? – perguntou Anna tentando animar Sharon.
- meu pai me compra vestidos e jóias todos os dias – disse Sharon – mas eu só queria que ele fosse sincero comigo, só queria a verdade. – Ela se entregou as lágrimas.
- Senhorita não chore, por favor.
- não faz sentido- disse Sharon – eu preciso saber sobre a minha mãe Anna
- tudo bem, mas agora não há nada que você possa fazer, ouvi seu pai brigando com você hoje pela manhã. – Anna foi até a penteadeira de Sharon e abriu uma das gavetas. – não quer que ele se irrite de novo quer?
Sharon não respondeu, suspirando ela encarou o rouxinol que jazia repousando em sua mão.
Anna pegou uma tiara de prata – oque acha dessa senhorita? É linda, você vai ficar maravilhosa com ela. Anna prendeu a tiara sobre a testa de Sharon e então sorrio.
- que pássaro lindo – disse ela notando o rouxinol na mão de Sharon – você ganhou?
- não – respondeu Sharon sorrindo agora também – ele entrou pela janela, acho que está perdido. Vou ficar com ele.
- então deveria arrumar uma gaiola para colocá-lo – disse Anna
- não – disse Sharon – não vou prendê-lo, não quero que se sinta aprisionado como eu me sinto.
Anna não respondeu, não sabia oque dizer.
***
Sharon estava linda quando desceu a escada para encontrar com o pai. Linda como sempre, pensou o conde enquanto beijava a mão da filha e a conduzia para a sala de jantar.
O jantar foi rápido e silencioso, Sharon se quer mexeu na comida. Estava machucada pela forma como havia sido tratada pela manha, mas o conde Heiselmann não podia se permitir sentir culpado. Estava fazendo oque era melhor para Sharon, ela não se sentiria melhor se soubesse a verdade.
Quando Sharon subiu as escadas de volta para seu quarto o conde ainda podia ouvi-la perfeitamente. E o som do seu choro silencioso rasgou seu coração gélido em mil pedaços.
Com as mãos segurando firme os cantos da mesa, o conde sentiu uma lágrima fria cair de seus olhos. A lágrima caiu sobre sua mão se transformando em uma pequena gota de gelo que caiu no chão de pedra e se espatifou em mil fragmentos.
***
- por favor não – gritou a mulher – me deixe ir
-nein – disse o conde com um sorriso
- eu não te fiz nada – disse a mulher horrorizada
O conde rio e então cravou os dentes afiados sobre a jugular da mulher que lentamente foi desfalecendo em seus braços. O sangue era doce e acalmava os nervos deixando o conde num estado de espírito muito melhor. Quando se sentiu saciado largou a mulher no chão. Ela ainda estava viva, mas não por muito tempo.
Quando se virou para partir a mulher lhe perguntou – porque fez isso comigo?
O conde respondeu sem se virar – porque é isso oque eu faço, é assim que eu sou.
A mulher não respondeu, o conde sentiu quando seu coração cessou. Era a quarta mulher que havia matado naquela noite. Não era de seu feitio matar, mas a dor e a solidão que sentia faziam seu coração se encher de ódio e matar era agradável.
O conde caminhou pela escuridão da noite se perdendo entre a neblina e a chuva.
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