Capítulo 8
Ganz Allein
(Completamente Sozinhos)
Sharon cavalgava na noite fria e silenciosa. As lágrimas eram incontroláveis. Tudo em que acreditava, tudo oque mais amou na vida era uma mentira. Fora enganada, amedrontada e violentada pelo pai de uma forma que nunca imaginou que fosse possível.
As imagens do rosto do pai vinham a sua cabeça, os olhos assustadores, as presas terríveis.
Enquanto cavalgava sem destino pelas estradas escuras tudo oque conseguia pensar era que aquilo deveria ser um pesadelo, fechava os olhos pedindo a deus para acordar em sua cama macia ao som do piano que o pai tocava tão bem. Mas era verdade.
A dor em seu pescoço e o sangue que escorria de sua ferida eram provas disso.
Porque?, perguntava-se Sharon, porque o destino teve que fazê-la sofrer tanto?
O cavalo corria velozmente, Schatten, era o seu nome. Seu pai o deu a Sharon de presente quando completou 15 anos. Ao contrário do que o nome dizia, era um belo cavalo branco. Agora ele a levava para o mais longe possível de sua casa, o som dos cascos batendo no chão era a única coisa que Sharon podia ouvir além de seu próprio choro.
Sharon direcionou Schatten para que a levasse para o mais longe do castelo possível. Seguiu o único caminho que veio-lhe a mente. A floresta. Não sabia para onde ir. Não tinha dinheiro, não tinha comida, não tinha se quer uma muda de roupa. Mas nada disso importava agora. Tudo oque queria era se afastar daquela maldita cidade, daquele maldito castelo e daquele que um dia chamou de pai.
***
O Conde Heiselmann continuava parado, imóvel. Toda e qualquer emoção que pudesse sentir naquele momento estava entorpecida pela raiva e o ódio que sentia de si mesmo.
Seus pensamentos eram um turbilhão, fracassara em tudo em sua existência. Perdera o amor de sua vida, perdera sua humanidade tentando reencontrá-la e agora perdera sua amada filha.
Aquela deveria ser uma noite para a eternidade, a noite em que transformaria Sharon e juntos viveriam para sempre. Deveria ser perfeito mas o maldito destino destruiu todos os seus planos. Cada pensamento, cada momento que desperdiçou planejando aquela noite foram em vão, nada sobrou além do medo e da dor.
Lágrimas caiam de seus olhos ao se lembrar do que fora capaz de fazer para não perder sua filha, o ódio caia sobre si ao lembrar da expressão de medo nos olhos de Sharon. O sangue de sua filha ainda estava em seus lábios, o grito de dor ainda ecoava em sua mente.
Porque o destino teve que lhes fazer sofrer tanto? Oque restava para ele agora que sua princesa se fora? Viveria a eternidade sozinho? Quem agora o faria lembrar de sua humanidade?
A lembrança de Sharon com seu diário nas mãos queimava em sua cabeça, lembrava-se perfeitamente do momento em que deixou a maldita chave em cima da mesa, se pudesse voltar no tempo queimaria aquele maldito diário, mas esse poder não lhe fora ofertado.
- Sharon oque você fez? – lamentou-se o conde
***
A noite se estendia vagarosamente, Sharon estava cansada, tinha frio e já não sabia mais para onde estava indo. A estrada a sua frente era escura, não havia nenhum abrigo avista apenas nada. Continuou cavalgando mesmo sem saber para onde ir, o medo a fazia continuar em frente, medo de que o pai viesse atrás dela, que mudasse de idéia e a perseguisse.
Cavalgou por horas a fio e quando estava certa de que não podia mais continuar, adentrou a floresta que se estendia a sua direita e procurou abrigo entre as árvores.
O frio a torturava, a camisola fria que vestia não era suficiente para aquecê-la. Desceu do cavalo e o amarrou ao galho do enorme carvalho a sua frente. Sentou-se sob suas raízes.
A floresta estava escura e silenciosa, exceto pela luz do luar e dos sons dos pássaros noturnos que cantavam. Embora estivesse sozinha e perdida naquela floresta sombria, Sharon se sentia protegida. Não era um sentimento racional, mas sentia-se confortável entre as arvores.
Lentamente o medo foi se esvaindo de sua mente, e tudo oque restou foi um sentimento de perda que jamais tinha sentido. Perdera aquele que mais amou em sua vida, seu pai, seu amigo, seu protetor. Estava sozinha, por conta própria e não sabia para onde ir ou oque fazer.
Levou a mão até o pescoço que doía e sangrava. Acreditava que jamais poderia tirar aquela lembrança da cabeça, a lembrança do pai a mordendo, a machucando, a violentando.
No entanto uma lembrança conseguia superar as outras, e atormentava sua mente.
A expressão de dor no rosto de seu pai, as lágrimas em sua face quando libertou-a.
Não conseguia entender como podia-se sentir culpada mesmo depois de tudo oque aquele homem fez para ela, mas se sentia. Culpada por fazê-lo sofrer quando tudo oque ele lhe deu em sua vida fora amor e carinho.
- eu prometi a ele – disse Sharon baixinho – eu prometi que nunca iria deixá-lo
As lágrimas eram incontroláveis, não conseguia entender porque se sentia daquela forma, mas se sentia culpada, se sentia uma traidora.
- mas foi ele quem me traiu, foi ele quem mentiu, quem me machucou
As palavras saiam de sua boca como uma acusação, dizia tudo oque não teve coragem de dizer naquele momento antes de partir.
- você matou minha mãe – sussurrou Sharon – você me machucou, eu não posso perdoá-lo.
Desesperada Sharon se entregou ao choro, chorava sem controle toda a dor de seu coração, chorava pelo medo, pela dor, pela incerteza, pela culpa e acima de tudo pela perda.
- warum? – gritou Sharon para o céu noturno – warum vater?
Lentamente o cansaço a derrotou e deitando-se sobre as folhas mortas no chão, adormeceu.
***
O conde Heiselmann se mantinha imóvel ainda olhando pela janela do quarto de Sharon. A dor que sentia era tão intensa que o imobilizava. Pensou uma vez que jamais voltaria a se machucar tanto como quando perdeu sua Elizabeta, estava terrivelmente enganado.
Novamente a vida tirara dele tudo oque mais amava e o deixava com absolutamente nada além da dor cruel e do ódio que fazia sua garganta arder.
Transtornado pensou milhares de vezes em persegui-la, afinal ela era dele, ela pertencia a ele.
Mas ao lembrar do rosto assustado de Sharon o encarando, da terrível confusão em seus olhos ele desistiu. Desistiu da pessoa que mais amou na vida, depois de sua Elizabeta.
O ódio queimava em suas veias, ódio de si mesmo por ter sido tão estúpido a ponto de não trancar a maldita gaveta. Ódio por ter escritos aquelas coisas um dia.
E o ódio aumentava sua sede. O gosto do sangue de Sharon ainda estava doce em seus lábios. Arrependimento queimava em sua mente e quando a dor se tornou insuportável ele cedeu aos seus instintos mais primitivos, desligando os últimos traços de humanidade que ainda existia em seu coração e se tornando aquilo que nascera para ser. Um monstro.
Exatamente como a filha o havia chamado.
Como uma tempestade de fúria ele correu pelo castelo matando cada humano que ali repousava, bebendo seu sangue com desespero, alimentando sua sede. Seus serviçais não tiveram tempo de lutar, se quer tempo de entender oque estava acontecendo. Se movia rápido demais arrancando-os de suas camas e tapando suas bocas, cravando os dentes em seus pescoços e drenando-os até a morte.
Anna foi a última, a criada que sempre cuidou de sua filha. Não haveria mais razões para ela estar ali. Com ódio ele perfurou suas veias e quando a última gota de seus sangue fora drenada, ele jogou seu corpo no chão e limpou os lábios na manga da camisa.
O castelo agora era um cemitério de corpos destruídos for sua fúria. Inocentes pagaram pela sua dor, pela sua ira e por seu desespero.
O conde finalmente saciado agora andava pelo caminho da destruição que se tornara seu castelo. Caminhou até o órgão que agora juntamente com o piano, o violino e todos os outros instrumentos musicais espalhados pelo castelo, eram seus únicos companheiros.
Suas mãos ainda sujas de sangue tocavam incessantemente os acordes sombrios de uma música estranha e com olhos fechados ele se permitiu cantar tudo aquilo que seu coração gélido já não conseguia mais guardar.
- Eu vou adorá-la, estou crucificado no seio do amor. O sangue de cristo em minhas lágrimas. Assista-me implorar-lhe. Oh! Ouça minhas súplicas, complete-me com amor. Eu quero senti-la.
Com toda minha confiança eu me renderei a você, eu depositarei meu coração em seus pés.
Meu pequeno coração, você o quer?
Lágrimas frias escorriam pelos olhos do conde, sua voz era firme mais continha algo vazio nela.
- Seja meu anjo, seja meu pecado, seja meu sol, seja minha fúria, seja minha musa, seja minha luxúria. Para demorar-me dentro de você. Me ame, me abrace. Para sempre, guia-me para seu mundo. Pegue-me para seu reino. Dentro de sua aura, dentro do seu espírito, dentro da sua alma, dentro da sua carne. Agora dê sua dor para mim, vamos dividir nossas feridas, dividir nossos prazeres. Seja parte de mim. Eu te amo.
O conde então se calou. Se era para Elizabeta ou para Sharon que cantava, não sabia dizer. Talvez fosse para as duas. As duas mulheres de sua vida. As duas o deixara. E ele as amava tanto.
- Ich liebe dich – sussurrou o conde para as sombras de seu castelo quando os acordes de sua musica sombria foram morrendo lentamente até mergulharem no mais profundo silencio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário