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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Livro 1: FASSADE Cap. 10




Capítulo 10
Hexe
(Bruxa)

- minha mãe era uma.. – Sharon exitou por alguns segundos
- uma bruxa – disse Demetra – ou Wiccana se preferir dizer assim.
- isso é estranho – disse Sharon olhando para as mãos
- não é oque você esta pensando querida – disse Demetra tranqüilizando Sharon – não é como as pessoas dizem, não fazemos o mal apenas protegemos.
- mas existem tantas histórias sobre bruxas – Sharon suspirou – a alguns dias descobri que meu pai era um.. – Sharon parou por um instante – bem você sabe, e agora você vem me dizer que minha mãe era uma bruxa, que você é uma bruxa.. isso é tão estranho.
Demetra assentiu – entendo. Mas veja bem, sua mãe nunca quis ser uma bruxa ela nunca terminou o treinamento e nunca fez nenhum feitiço, se isso tranqüiliza você.
- mas e quanto a você? Oque você fez aquela noite, você não deixou meu pai atravessar a campina. – Sharon sentiu um aperto no coração se lembrando do que aconteceu naquela noite, da forma como seu coração desejou estar com seu pai.
- sou uma Wiccana Sharon, assim como minha mãe era, e a mãe dela também foi – Demetra sorrio para Sharon – assim como você também é.
Sharon arregalou os olhos – não eu não sou, não posso ser.
- esta no seu sangue querida, não pode fugir disso
- então eu não posso fugir do que meu pai é, meu sangue é o sangue dele. Devo acreditar que sou um mostro como meu pai também?
Demetra suspirou pesarosamente – você não é uma vampira Sharon, se fosse não teria cruzado aquela barreira na campina. Mas não nego que o sangue de seu pai corra em suas veias. E não vou dizer que sei oque isso quer dizer, porque eu nunca conheci alguém como você.
- alguém como eu? – Sharon se sentiu confusa
- alguém que fora gerado por um humano e um vampiro
Sharon sentiu seu estomago revirar. Não gostava de pensar em si mesma como uma aberração.
- há outros como meu pai?
- muitos – disse Demetra – e eu já cruzei com eles, são perigosos, traiçoeiros e acima de tudo sedentos de sangue.
- e nunca nenhum deles teve um filho com um humano?
- não que eu saiba – Demetra suspirou – um humano comum não sobreviveria a gravidez, seria impossível.
- eu não estou entendo, não pode ser impossível, eu estou bem aqui na sua frente.
- querida sua mãe não era um ser humano comum, ela era uma Wiccana, e isso faz dela um ser humano mais forte, protegido pela natureza. Acredito que foi isso que salvou você e sua mãe.
Sharon suspirou – é muita coisa para digerir
- eu sei, por isso esperei todos esses dias para lhe contar. Você precisava saber a verdade querida.
- a verdade?
- sim, sobre quem você realmente é.
- eu não quero ser uma bruxa – disse Sharon – eu só quero ser eu mesma.
Demetra sorrio para ela – então seja você mesma querida. Você tem o direito de recomeçar a sua vida da forma como achar melhor. Eu só quero que você seja feliz.
                                                                         ***


Romênia, Bucareste

O Conde Heiselmann chegou a cidade de Bucareste por volta das oito da noite. Havia sido uma viajem longa. Detestava viajar pois precisava ficar tempo demais com os humanos e não podia descansar devidamente, visto que não tinha como carregar seu caixão consigo.
Passava os dias trancado em seus aposentos no imenso navio, saia apenas a noite quando a fome batia e se alimentava com cautela, sempre de mulheres que se agraciavam com sua presença. Sempre apagava as memórias de suas mentes depois.
A carruagem parou em frente a sua antiga residência. O castelo de Stirbei fora construído no século XIV e pertencera a grandes homens de posses do passado. Um deles era o pai de Elizabeta, um grande conde chamado Dragus Heiselmann II.
O conde sorrio irônico. Não foi nada difícil para ele usurpar a identidade do pai de Elizabeta, quando todos estavam mortos. Dessa forma obteve seu status e posses e jamais voltou a usar seu verdadeiro sobrenome, este de linhagem pobre e sem peso social.
Wolff não existe à mais de quatro séculos – pensou o conde que pegava sua pequena bagagem da carruagem e com um gesto seco com a cabeça se despediu do cocheiro que pareceu feliz em sair da presença do estranho homem.
O portão rangeu quando foi aberto, o quintal estava todo tomado pelo mato, ninguém cuidava daquele lugar à anos. Buscou uma chave no bolso do paletó e abriu a porta de entrada.
Seus passos ecoaram pelos corredores vazios. Fazia mais de 50 anos que não entrava naquele lugar e também tinha certeza que ninguém entrara ali. Estava tudo coberto de poeira e escuridão. Tal como seu coração.
Aqui, novamente sozinho – pensou o conde – oque é reservado para mim nestas noites solitárias?
O conde foi até a adega, sabia que encontraria bons vinhos. E ficava feliz pelo fato dos anos apenas deixá-los ainda mais saborosos. Abriu uma garrafa empoeirada, pegou uma taça e serviu-se. Sentou-se numa poltrona velha comida por traças, cruzou as pernas e ascendeu um charuto. Olhando para o nada a sua volta tomou um gole de vinho.
                                                                              ***

Alemanha, Berlin
Século XIX, 1803
40 anos depois..
Sharon se olhava no espelho, procurava qualquer sinal de envelhecimento, talvez uma ruga, um traço que fosse, mas seu rosto continuava tão jovem quanto sempre foi.
40 anos se passaram desde os acontecimentos terríveis da noite do baile de seu aniversário. Hoje Sharon estava completando 60 anos. Afinal a maldição de seu pai de alguma forma fora passada para ela. Não era natural que não envelhecesse, não era natural que nunca adoecesse, e dessa forma não se sentia normal.
Durante todos aqueles anos Sharon viveu com sua avó mas Demetra havia morrido tinha oito meses. Sharon viveu alguns anos com a avó na cabana e depois a convenceu de ir morar na cidade, perto da civilização. Com as economias de Demetra compraram uma casa modesta, Demetra vendia as verduras e legumes que plantava na floresta como sempre fez e Sharon conseguiu um trabalho numa pensão perto da estrada. Vivendo longe da auto sociedade, ninguém notava Sharon e muito menos a reconheciam. Mas o tempo passava por Sharon sem deixar marcas e assim ela era obrigada a mudar de trabalho, algumas vezes precisou mudar-se, vendo sua casa e comprando outra, sempre por menos do que valia. Fugindo da maldição que a assombrava e lutando para conseguir uma vida normal.
E dessa forma, vivendo cada dia como se fosse o único, tentando não se recordar da vida que tinha antes, Sharon seguiu em frente reunindo os pedaços de seu coração e se tornando forte para a vida que ao que parecia não teria um fim para ela.
Demetra estava certa quando disse que Sharon não era uma pessoa comum, as coisas simplesmente aconteciam com ela. Os animais se curvavam para ela, as flores floresciam..
Sharon era uma Wiccana e durante toda a sua vida sua avó lhe ensinou a respeitar a natureza e a usá-la como proteção contra qualquer coisa que a tentasse feri-la.
Eu não sou uma bruxa – pensou Sharon enquanto admirava seu rosto no espelho – mas também não sou uma vampira. Oque eu sou?
Estava na hora de começar a viver normalmente, e se aceitar como uma bruxa não era o caminho certo para esse fim. Precisava deixar para trás essa parte de sua vida tanto quanto a quarenta anos atrás havia deixado para trás a vida que tinha com o pai. Os ensinamentos de sua avó foram importantes para que Sharon entendesse quem era, e o que poderia se tornar, mas ela não queria aquilo para si. Não queria viver fazendo rituais e encantamentos, queria ser normal. Aos seus olhos ser uma bruxa era tão assustador quanto ser uma vampira.
Vampiros. Passou parte de sua vida tentando entender oque eram, por que existiam e se seria possível que alguns deles não fossem tão cruéis quanto nas histórias que a avó lhe contava.
Nunca encontrara nada além de mais perguntas. Desejou em algum momento conhecer um, fazer perguntas, tinha medo que em algum momento de sua vida a sede por sangue nascesse dentro de si, medo de se tornar um monstro como seu pai. Nunca encontrou ninguém, ou talvez nunca soube reconhecê-los, afinal não vivera com seu pai por vinte anos acreditando que fosse tão humano quanto ela? Sharon riu irônica.
Será mesmo que sou humana?, perguntou-se. Existe mesmo algo humano em mim?
Existe algo humano em meu pai?. Sharon suspirou pesadamente. Não sabia a resposta para estas perguntas. Na maior parte do tempo tentava não pensar, mas as vezes era impossível.
- papa – sussurrou Sharon. Fazia quarenta anos que não via seu pai e durante todo esse tempo não houve um dia se quer em que não pensou nele. Fantasiou conversas em sua mente para que soubesse oque diria quando o reencontrasse, desejou secretamente que ele fosse procurá-la, mas tal coisa nunca aconteceu. – você me esqueceu.
Uma lágrima caiu dos olhos castanhos de Sharon, os mesmos olhos de seu pai a olhavam com pena. A saudade não diminuiu durante o passar dos anos, tampouco o ódio que sentia.
A traição ainda queimava em seu coração, mas daria qualquer coisa para poder vê-lo de novo.
E as lembranças.. elas queimavam dentro de sua memória. As vezes na calada da noite Sharon se prendia as lembranças de seu pai, a imagem de seu rosto, sua voz que cantava sussurrando para ela canções de ninar e naqueles momentos ela quase podia sentir seu toque.
- você é um fantasma assombrando meu coração – sussurrou Sharon para o espelho e o quarto vazio. – toda a minha vida eu dei a você e você me traiu.
Subitamente uma lembrança agarrou a mente de Sharon e a fez tremer.
Fora a quarenta e cinco anos atrás, num dia frio e chuvoso. Estudava com o pai em seu quarto.
Países da Ásia, já haviam estudados vários países mas finalmente chegara naquele que mais gostava. Rússia.
- quero conhecer a Rússia papa – disse Sharon enquanto anotava os nomes dos estados em seu caderno.
- e porque tanto interesse na Rússia? – perguntou ele curioso
- não sei, gosto do nome, e das coisas que você fala sobre ela – respondeu Sharon
O pai sorrio – você sabia que tecnicamente a Rússia também faz parte da nossa Europa?
Sharon balançou a cabeça negando – não faz não, aqui diz que fica na Ásia.
O conde riu. – ela fica nos dois. Portanto quem mora lá são parte Europeus como nós, e parte Asiáticos como os chineses.
- ah – Sharon não sabia oque responder.
- como sabe tanta coisa papa? Você já esteve lá?
- Eu estudo bastante, todos os dias exatamente como quero que faça. E sim eu já estive lá.
- é bonito? – perguntou Sharon curiosa e entusiasmada
Sim é um lugar muito bonito. Mas tem uma cidade em particular que me encanta, é fantástica.
- e qual é?
- Ekaterinodar – o pai riu quando viu a cara de Sharon ao ouvir o nome – sim é um nome complicado. Mas a cidade é maravilhosa, cheia de montanhas, é fria, bastante neve e sol quase sempre esta coberto por lá com nuvens e por isso posso sair durante o dia e aproveitar a paisagem.
- por que nunca me levou lá papa? – perguntou Sharon
- você quer conhecer?
Sharon balançou a cabeça assentindo entusiasmada
- pois então iremos.
- quando?
- nas férias – respondeu o pai que foi em seguida surpreendido com um abraço caloroso de Sharon que em seguida se jogou em seu colo o beijando o rosto com carinho.
Sharon suspirou e travou o queixo tentando não se entregar as lágrimas, mas a lembrança era forte demais. Se lembrava com perfeição daquela viajem, de como foi passar um mês sozinha com o pai em Ekaterinodar, uma cidade tão linda quanto ele havia dito.
Sharon limpou as lágrimas e olhou no relógio que marcava oito da manhã, terminou de se aprontar e saiu para mais um dia de trabalho num restaurante perto de sua nova casa.
Embora  o castelo de Neuschwanstein permanecesse fechado e esperando pelo retorno de sua herdeira, Sharon não mais se sentia como parte daquele lugar. Mesmo que dissesse que era a herdeira do conde Heiselmann quem acreditaria? Ela deveria aparentar ter 60 anos agora e seu rosto continuava tão jovem quanto o da garota de 20 anos que uma vez fugiu a cavalo daquele castelo. Não, ela não podia voltar. Não era mais uma Heiselmann.
Sharon Den Adel era seu nome agora, o mesmo de sua mãe, e tudo oque ficara para trás ficara para trás.





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