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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Livro 2 : INFERNO Cap.1
Capítulo 1
Ein Engel im Sturm
(Um Anjo na Tempestade)
A chuva caia aos baldes sobre o castelo de Stirbei. Uma tempestade tão forte quanto aquela que atingiu Berlin no dia do nascimento de Sharon.
O conde Heiselmann apertou o copo de whisky em sua mão relembrando da noite em que Sharon nasceu, fora uma noite sombria que terminara com Evelyn morta e um bebê em seus braços iluminando seu coração a séculos escurecido pelo dor e desgraça.
Por vinte anos vivera ao lado de sua filha imaginando como seria quando não precisasse mais fingir ser oque não era, quando pudesse ser real com ela e dar-lhe a imortalidade.
- Sharon oque você fez? – sussurrou o conde baixinho para si mesmo.
Naquela maldita noite o conde Heiselmann perdeu sua vida, e a dor o acompanhara durante todos os anos seguintes sem nunca desaparecer.
- essa dor não vai desaparecer – o copo de cristal estourou nas mãos do conde, os cacos cortaram sua mão, o sangue escorria pingando no tapete da enorme sala de estar do castelo vazio. Lá fora um trovão ressoou ainda mais alto que o barulho da chuva caindo sobre o teto.
A leve dor em sua mão fez o conde rir, afinal a dor era a única coisa agora que o fazia se sentir vivo. Ele levantou a mão e examinou o corte, o sangue aos poucos fora cessando e o corte lentamente se fechou perante seus olhos.
Fazia quarenta anos que deixara Neuschwanstein e desde então mergulhara na escuridão de seu antigo lar, afundando nas lembranças de tempos melhores quando Elizabeta aquecia seus dias, mas tais lembranças apenas o feriam. Não eram suficientes para apagar a dor da perda de sua filha, nada que fizesse, pessoas que conhecia, mulheres que envolvia em seus braços, nada era capaz de apagar a terrível visão que o assombrava toda vez que fechava os olhos.
A confusão nos olhos de Sharon o assombrava dia após dia, e a dúvida o consumia.
Teria sua filha o perdoado se ele não tivesse ido embora? Se não tivesse desistido dela como fez, se não tivesse fugido como um covarde da dor que sentia, o tempo faria com que sua filha o perdoasse? Não havia resposta para aquela pergunta e agora era tarde demais.
O tempo que por ele passava imutável, havia mudado Sharon, não a reconheceria agora se não fosse pelo gosto de seu sangue que ficara impregnado em seu consciente desde o momento em que a mordeu, o cheiro o faria reconhecê-la. Mas agora Sharon não era mais sua princesa,estava velha, consumida pelo tempo, toda a educação que lhe deu, tudo que lhe ensinou destruído pela maldita Wiccana e seus ensinamentos profanos.
- Nein – O conde se levantou de súbito de sua poltrona, caminhou até a janela e encarou a escuridão e a tempestade. – mein tochter ist tot
Contudo havia um lugar em que Sharon estava perfeitamente viva, neste lugar ele ainda podia ouvir seu riso, sentir seu abraço, seu olhar. A lembrança de Sharon era oque vivia dentro de seu coração, e aquela lembrança era o único pedaço de humanidade que ainda existia em si. Como uma chama ao vento, o conde não sabia por quanto tempo essa lembrança seria capaz de iluminar seu coração e impedi-lo de se tornar apenas nada.
O conde caminhou pelos corredores do castelo escuro iluminado apenas por fracas luzes de velas, por fim se rendeu ao velho piano em seu quarto, aquele que durante todos aqueles anos fora seu único confidente, seu único amigo. Deixou que seus dedos tocassem as teclas lentamente sem se importar com a melodia que faziam, o som era sombrio e junto com os trovões e o barulho da chuva tornava aquela uma melodia suave a seus ouvidos, visto que a escuridão quando o envolvia lhe trazia a paz que a luz jamais lhe trouxe.
- Mutação do espírito, conversão da sua força. Mutação do seu poder, conversão da sua alma.
O conde cantava palavras confusas, mas eram aquelas que assombravam seu coração, que precisavam ser cantadas ou ao contrário o sufocariam.
- Desmanchando em testes da mente tal como um livro que era proibido de ser lido, do qual se roubou algumas páginas, colou-se a capa. Mudou-se o nome, tirou-lhe o ar de ser respirado.
E era exatamente daquela forma que o conde Heiselmann se sentia, confuso, perdido em sua própria confusão, em sombras, escuridão e desgraça. Sua melodia confusa o preenchia com medo e dor mas era necessária, pois quando não era mais possível guardar tais sentimentos consigo eles saiam de sua boca e por entre seus dedos em forma de tristes melodias.
- Escondido em uma caixa, colado com outra vida, amarrado, encoberto. Envolvido no próprio medo, esqueceu de se defender. Como ser humano despido demais, como vítima ainda não despido o suficiente.
Seus dedos continuavam a tocar aquela melodia sombria e lá fora a chuva continuava a cair como se refletisse as lágrimas que por seu rosto escorriam.
Foi em meio ao som do piano e da chuva que o conde ouviu batidas na porta da frente e gritos. A voz era de uma mulher, ela gritava por socorro implorando que a deixassem entrar. O conde desceu as escadas num rompante. Os gritos se tornaram mais altos.
A voz da mulher chamava pelo pai, mas não falava em alemão.
O conde abriu a porta e avistou a mulher completamente encharcada que tremia de frio, estava vestida apenas com roupas de baixo e uma camisola rasgada. Seus olhos estavam vazios, e quando ele se aproximou ela desmaiou em seus braços.
O conde surpreso a pegou no colo e com um olhar rápido para a noite tempestuosa certificou-se de que não havia ninguém por perto. Entrou batendo a porta atrás de si e voou pelas escadas, levando a mulher para seus aposentos, ele a deitou em sua cama e só então permitiu-se admirar seu rosto.
Era uma mulher jovem, mas não tão jovem quanto Sharon era na ultima vez que a viu. Deveria ter uns 30 anos, tinha a pele branca como a neve, cabelos lisos, pretos e compridos que caiam na altura da cintura. Seus olhos, mesmo agora estando fechados, podia ver que eram grandes e puxados nos cantos, não sabia a cor deles, não houve tempo para notar.
A julgar pela forma como se vestia o conde não podia dizer que era uma moça de boa família, seu rosto o fazia duvidar até mesmo que fosse romena. Ela o intrigava.
Intrigava-o o fato de uma mulher estar sozinha naquela situação correndo numa tempestade como aquela, e porque fora bater em sua porta? Geralmente as pessoas corriam para o lado oposto de seu castelo. O medo os mantinham afastados de Heiselmann mesmo que eles não soubessem o motivo. No entanto aquela mulher correu diretamente para ele e mesmo que tê-la ali em sua cama, totalmente desprotegida o deixava com uma sede abrasadora, ele não teve vontade de se alimentar dela, talvez porque não tivesse coragem de machucá-la.
Ali em sua cama, enquanto repousava em trapos brancos, totalmente indefesa, a mulher lhe parecia um anjo.
- wer bist du? – perguntou o conde Heiselmann para si mesmo
A mulher acordou algumas horas depois, já passavam das 4 da madrugada. O conde Heiselmann ficara ali em sua cabeceira aguardando durante horas, admirando a mulher indefesa em sua cama, o monstro dentro dele fazia sua boca salivar com o cheiro que emanava dela, mas ele não podia machucá-la, algo dentro de si dizia que precisava salvá-la.
Ela abriu seus grandes olhos azuis esverdeados e o encarou por alguns segundos e então se sentou de súbito na cama se protegendo com o lençol totalmente aterrorizada.
- não vou machucá-la – disse ele baixinho
A mulher não respondeu, tampouco relaxou.
- entende oque estou dizendo? – perguntou ele lentamente – você fala minha língua?
- Missä olen? – perguntou a mulher aos sussurros. O conde sorrio ao ouvir o som de sua voz.
- Está na minha casa – disse ele – consegue falar minha língua?
Ela pensou por alguns instantes – Ja, ich kann – respondeu ela em alemão mas com um forte sotaque.
O conde suspirou. – qual o seu nome?
- Porque estou aqui? – perguntou a mulher ainda assustada.
- você estava lá fora, bateu na minha porta e pediu para entrar, não se lembra?
Ela franziu o semblante tentando se lembrar e então tampou o rosto com as mãos
- es tut mir leid – se desculpou ela – eu não sei mais para onde ir
- não se preocupe, eu não sei do que você esta fugindo, mas esta a salva aqui.
Ela o encarou com seus olhos esverdeados como quem tenta se convencer de que esta segura, mas ainda estava agitada, nervosa e amedrontada.
- kiitos – agradeceu ela e então corando respondeu – dunke chön
O conde sorrio fascinado para ela – qual o seu nome?
A mulher pensou por algum tempo antes de responder e então suspirou
- Anne, Anne Nivyeska
O conde suspirou – Finlandesa?
Ela assentiu cabisbaixa.
- oque esta fazendo aqui na Romênia? – perguntou ele curioso, tudo naquela mulher o interessava. Ela era estranha para ele.
- não quero falar sobre isso – pediu ela choramingando
- tudo bem - ele se aproximou dela e lentamente ergueu a mão para tocá-la. Ela se afastou com medo – keine angst – ele a tranqüilizou e então tocou seu rosto lentamente.
Sua pele estava quente demais, estava febril talvez fosse pela chuva que havia tomado. Ela se afastou de seu toque gelado mas quando ele a tocou novamente ela nada fez, apenas o observou em silencio.
- meu nome é Tilo – disse ele sorrindo tranqüilizador para ela – Tilo Heiselmann Wolff.
Ela assentiu e seus olhos piscaram pesarosos, o cansaço a dominava.
- schlafen – pediu ele – precisa descansar
Quando ele se levantou ela o segurou pelo braço
- não me deixe sozinha – pediu ela atordoada – ich bitte
Ele assentiu e se sentou novamente
- ficarei aqui ao seu lado – respondeu ele sorrindo.
Passaram-se horas desde que a estranha mulher havia adormecido. O conde Heiselmann continuava olhando para ela sem piscar, encantado com sua beleza e coragem.
- do que você esta fugindo? – perguntou-se o conde num sussurro baixo.
No entanto a presença da mulher em sua casa, pior em sua cama, não lhe era nada confortável, houve um tempo em que se sentiria atraído apenas pelo corpo de uma mulher, mas agora o desejo por sangue sempre encobria qualquer desejo carnal.
O cheiro que recendia dos cabelos da mulher desfalecida era-lhe tentador, queimava sua garganta e para piorar ele não havia se alimentado naquele dia.
Quando a boca ficou seca e as presas começaram a se alongarem sozinha o conde Heiselmann se levantou num rompante e se retirou do quarto. Não podia se imaginar tocando aquela mulher que ao que parecia já havia sofrido tanto.
Desceu as escadas e se apressou em achar uma garrafa de whisky, não se preocupou em pegar um copo, virou-a na boca bebendo incessantemente. A bebida era a única coisa que aplacava a sede por sangue, o único antídoto para a sua maldição.
Por muito tempo ajudou-o na convivência com Sharon, sabia que ajudaria agora.
Por fim sentou-se em sua habitual poltrona e esperou que a jovem acordasse.
***
Anne acordou e sua cabeça doía, abriu os olhos e não reconheceu o quarto bonito e luxuoso onde se encontrava. Mas estava tão escuro, não podia ainda ser noite, sentia como se tivesse dormido por horas. Notou então as grossas cortinas que cobriam todas as janelas. Deu graças a Deus por estar abrigada e longe da terrível tempestade que a perseguiu durante toda a noite. Tentou se recordar de como foi parar ali, se levantou devagar se sentando na cama, encarou a cadeira ao lado da cabeceira e lembrou-se vagamente de que havia um homem ali, um homem gentil que a acolheu da tempestade e lhe deu abrigo.
Mas onde ele estava? Quem era ele?
Lentamente toda a paz de espírito foi abandonando sua mente, e se ele não fosse confiável?
e se conhecesse os homens que a perseguiram por toda a noite? E se ele a entregasse a eles? Não podia se sentir segura na casa de um estranho, não fazia sentido.
Levantou-se num rompante e só então se deu conta de que estava completamente despida, apenas uma velha camisola velha, rasgada e encardida cobria seu corpo. Não houve muito tempo para fazer as malas, achou que jamais conseguiria fugir, por um tempo acreditou que morreria naquele lugar, até que a oportunidade surgiu. Não foi uma fuga fácil e não tinha certeza de que havia acabado. E se aquele homem misterioso fosse um deles? Como fugiria?
Alguém bateu na porta e o coração de Anne foi a boca, pegou a primeira coisa que viu na frente para se defender, um castiçal de ouro e pesado.
A porta se abriu devagar e Anne se preparou para atacar, foi então que o viu. O homem que a salvou, que a abrigou, e ele era lindo. Seu coração oscilou mais suas mãos continuaram a sua frente defendendo-se com o castiçal como se fosse uma arma perigosa.
O homem olhou para ela dos pés a cabeça, parando os olhos em suas mãos e então levantou as próprias mãos para cima mostrando que estava desarmado, num gesto de rendição.
- não vou machucar você – disse ele e sua voz era como veludo, doce e suave, era alemão, pode notar rapidamente, nenhum outro poderia falar um alemão tão perfeito.
- quem é você? – perguntou Anne, a voz tremula.
- acho que sou eu quem deveria fazer essa pergunta – respondeu ele com um sorriso simpático e divertido no rosto. Ele deu um passo para frente, oque não passou despercebido por ela.
- fique longe de mim – gritou ela – não se aproxime.
Ele parou sorrindo – tudo bem. Mas se eu quisesse machucá-la não acha que eu já o teria feito enquanto dormia indefesa em minha cama?
Anne arfou cogitando a idéia, como pode ser tão descuidada?
- porque não me diz do que está fugindo? Assim quem sabe eu possa ajudá-la?
O homem se aproximou de Anne sorrateiramente e quase como num piscar de olhos ele tirou-lhe o castiçal das mãos.
- como vou saber se não é um dos clientes de Laurentiu? – perguntou Anne
- não sei quem é Laurentiu, não sou um dos clientes dele
- como posso acreditar em você? – perguntou ela amedrontada
Ele sorrio e os olhos dele brilharam como estrelas para ela.
- diga-me do que está fugindo Anne
Ela se surpreendeu ao ouvi-lo chamá-la pelo nome.
- como sabe meu nome?
- você me disse ontem a noite antes de adormecer, não se lembra?
Ele a encarou por alguns segundos, seus olhos escuros eram tão lindos, ela desviou o olhar para as mãos e negou com a cabeça.
- então não se lembra de mim?
Ela o olhou – lembro-me que estava sentado ao meu lado.
- eu fiquei ao seu lado por horas, esperando que acordasse e que me contasse o porque de ter batido em meu castelo numa tempestade no meio da noite.
- eu não sei oque dizer – disse ela – eu estava fugindo.
Ele se aproximou ainda mais e a tocou levemente o rosto, suas mãos eram extremamente frias, mas eram também macias.
- não precisa me contar nada agora Anne – ele sorrio – só precisa saber que está segura aqui e que não vou fazer mal algum a você.
Ela não sabia dizer por que mas acreditou nas palavras daqueles homem estranho.
- porque não toma um banho? – ofereceu ele – não tenho roupas para lhe oferecer a menos que aceite as minhas, não ficarão tão bem em você mas acredito que ficará melhor do que está camisola imunda que está usando.
Anne sentiu seu rosto esquentar – dunke chön
- Trarei a água em alguns minutos, não tenho criados então você terá que se ajeitar sozinha. O banheiro fica na terceira porta a esquerda no corredor, deixarei a água lá junto com uma muda de roupas. Quando terminar desça, arrumarei algo para você comer.
Ele se virou e estava se retirando quando Anne o chamou.
- qual é o seu nome?
Ele sorrio – Tilo
- apenas Tilo?
- apenas Tilo.
Anne ficou parada por alguns segundos tentando compreender os motivos que levava aquele homem estranho a ser tão bondoso com ela. Fazia muito tempo que alguém tinha se importado com ela, cuidado dela ou até mesmo olhado para ela como aquele homem fez.
Sorrio para o quarto estranho a sua volta e mesmo que seu coração ainda estivesse amedrontado, se sentiu melhor. Um pequeno fio de esperança se alojou em seu peito e ela sabia que era ridículo se sentir daquela forma, pois logo teria que partir e enfrentar as ruas frias e sombrias como fizera na noite anterior. O sorriso desapareceu de sua face.
Suspirou profundamente e saiu do quarto seguindo a direção que o homem havia lhe dito.
Entrou no enorme banheiro luxuoso e encontrou esperando por ela uma banheira cheia, a fumaça que subia da água fazia com que o banho fosse tentador. Fechou a porta e despiu-se dos trapos velhos que usava e permitiu-se entrar na banheira. A água morna abraçou seu corpo quando se deitou, seus nervos relaxaram e ela se sentiu muito melhor.
***
O conde Heiselmann se encontrava ao piano mais uma vez, o dia estava finalmente amanhecendo, fora uma longa noite. Não o incomodava o raiar do dia, o sol não o incomodava ali, com portas, janelas e cortinas fechadas. Estava protegido e pela primeira vez em muito tempo se sentia menos infeliz, menos sozinho, de alguma forma.
Talvez fosse aquela mulher misteriosa que se banhava em seu banheiro que causou-lhe tal estado de espírito, mas havia em seu coração um fio de luz, o qual a muito tempo havia sido encoberto pela dor e tristeza desde que abandonara sua princesa a 40 anos atrás.
- Anne – sussurrou o conde baixinho – quem é você?
O conde podia ouvir cada respirar dos pulmões de Anne, cada gota de água que escorria por seu belo corpo e mais ainda, podia ouvi-la cantando baixinho enquanto se banhava.
Nossa, como a voz de Anne era bonita, o conde se sentiu anestesiado por aquela voz, era firme, decidida, mas ainda conservava um fio de inocência e medo.
Cantava uma canção triste em sua língua natal, uma canção sombria e extremamente melancólica. O conde apurou os ouvidos para captar cada palavra que dizia e surpreendeu-se com o fato de a mulher cantar seus sentimentos tão bem, o surpreendeu ainda mais que tais sentimentos fossem tão semelhantes com os dele.
- Meus pensamentos estão me perseguindo, são como ecos atrás de mim – cantava Anne em finlandês com uma voz suave e ao mesmo tempo firme – o fluxo corrente do meu sangue é a minha fonte de inspiração que me leva até você. Abandonando toda a esperança para trás, estou cercada. Estou presa pela liberdade, entorpecida e separada de mim.”
A canção sombria morreu lentamente na voz bonita de Anne e o conde Heiselmann pode ouvir o respirar ofegante e o leve som de gotas caindo na água. Anne estava chorando.
***
Anne terminou de se banhar, passou a mão molhada pelo rosto limpando as lágrimas frias que em seus olhos estavam alojadas. Levantou-se da banheira e caminhou até um pequeno monte de roupas colocadas cuidadosamente numa cadeira. Em cima das roupas havia uma toalha branca, se enxugou e se vestiu rapidamente. Secou os cabelos com a toalha e com a mão na fechadura da porta exitou. Estava terrivelmente envergonhada por abusar tanto da boa vontade daquele homem tão bondoso.
Suspirando abriu a porta e caminhou pelo corredor, desceu o enorme lance de escada que a levou a um enorme salão vazio. Olhou em volta mas não viu ninguém, apenas pode ouvir o som de um piano sendo tocado ao longe. Seguindo o som do piano atravessou o salão escuro e numa parte pequena de seu cérebro perguntou porque todas as cortinas estavam fechadas. Lhe faltava o ar ali dentro daquele castelo estranho, como alguém podia viver daquela forma?
Seguiu por outro corredor, e depois outro que a levou até outro salão ainda maior encontrando o estranho homem sentado à um velho piano negro, tocando distraidamente.
Pigarreou para ser ouvida e o som do piano cessou quando o homem se levantou e se virou para ela. Ele a olhava com olhos alegres, sorrio para ela examinando-a de cima a baixo.
Anne sentiu seu rosto corar, não estava acostumada com aquele tipo de olhar.
- devo dizer que minhas roupas lhe caíram muito bem – disse o homem sorrindo, Anne forçou-se a lembrar o nome dele. Tilo, ele se chamava Tilo.
- Dunke – disse ela baixinho encabulada. A calça preta que usava ficara folgada em seu corpo, as barras tiveram que ser dobradas quase dois palmos para que não arrastassem no chão. O mesmo podia dizer das mangas da camisa branca que vestira, era grande e um pouco transparente, Anne jogara o cabelo para frente para que cobrisse qualquer parte do seu corpo que ficasse evidente por causa dessa falha de suas vestes.
- esta com fome? – perguntou Tilo a ela ainda com aquele sorriso bonito no rosto. Envergonhada fez que sim com a cabeça, ela sorrio para ela e então fez sinal com a mão para que ela o seguisse. Ela obedeceu voltando pelo corredor de onde viera, andaram alguns metros e então virarão em uma porta a esquerda que os levaram a uma grande sala de jantar, mas estava completamente vazia, sem pratos ou qualquer coisa que indicasse que alguém comeria ali. Passaram reto adentrando numa segunda porta, esta menor, e então chegaram ao que parecia ser a cozinha. Não havia nenhum tipo de panela do fogão a lenha, nenhum prato, nada. Tilo sorrio para ela como se lesse seus pensamentos e então se dirigiu a uma segunda outra porta, voltando com um grande pedaço de pão caseiro, e uma jarra com leite, um copo e uma faca. Ele colocou em cima da mesa.
- peço desculpas mas cheguei a cidade a pouco e ainda não tive tempo de fazer comprar, isso é tudo oque tenho no momento.
Anne sorrio para ele agradecida, não via um pedaço de pão e uma jarra de leite a tanto tempo que lhes pareciam um belo de um banquete.
- sente-se – pediu Tilo se sentando – sirva-se, você deve estar faminta.
E ela estava, seu estomago doía de fome. Ela se sentou e sem se dar conta pegou o pão e rasgou um pedaço com as próprias mãos. Colocou um grande pedaço na boca e estava saboreando-o quando notou que Tilo a observava rindo.
- ich leid – desculpou-se ela dando conta do quão mal educada estava sendo.
- não se preocupe, coma – disse ele.
***
- porque não me diz quem é Laurentiu? – pediu o conde Heiselmann.
Anne o encarou assustada parando de comer imediatamente, como se o nome que pronunciara fosse uma ameaça.
- estou tentando ajudar – apressou-se em dizer o conde.
Anne o encarou por alguns segundos e depois desviou o olhar para as mãos que ainda segurava um pedaço de pão. Não disse nada.
O conde Heiselmann rio baixinho – ich leid – desculpou-se ele – não é da minha conta.
Anne terminou de comer em silencio.
- pode me dizer ao menos onde mora? Para que eu a leve para casa – pediu o conde.
Anne tornou a olhá-lo assustada e depois corou – eu.. eu não tenho para onde ir.
O conde Heiselmann a olhou surpreso – como não? De onde você veio? Onde esta sua família?
- na Finlândia – respondeu Anne baixinho, o conde pode ver lágrimas se formando em seus olhos. Ele suspirou.
- e oque você esta fazendo aqui na Romênia?
Anne não respondeu.
O conde se levantou e caminhou vagarosamente na direção da mulher assustada, ela não olhava para ele, estava envergonhada. Ele pegou em sua mão que repousava em seu colo e a puxou para que se levanta-se. Anne não o olhou nos olhos, ele tocou seu rosto levantando-o a medida que os olhos de Anne encontrasse os seus.
- sinta-se bem vinda para ficar o tempo que precisar – disse o conde sorrindo.
Anne o encarou surpresa – eu não quero incomodá-lo
- me incomodaria saber que uma mulher tão bonita está vagando sem destino pelas ruas, seria imperdoável de minha parte se a deixasse sair daqui sem um teto onde se abrigar.
Os olhos de Anne se encheram de lágrimas – dunke chön – agradeceu ela com um enorme sorriso nos lábios e lágrimas rolando por sua face – dunke chön – Subitamente o conde foi surpreendido pelos braços de Anne que o envolveram em um abraço apertado. A mulher repousou sua cabeça em seu peito e permitiu-se chorar.
O conde Heiselmann ainda surpreso prendeu a respiração e lentamente envolveu a mulher em seus braços com ternura. De alguma forma ela o recordou de sua filha, e a saudade o inundou como uma inundação, ele apertou Anne nos braços recordando do rosto de Sharon e uma lágrima caiu de seus olhos.
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Yeah,acabou a prima espera \o
ResponderExcluirAnne apareceu,outra coisa fantástica \o
ainda temo por Sheron,espero que ela esteja bem :3
continue e eu lerei \o